{"id":2589,"date":"2009-01-05T00:21:37","date_gmt":"2009-01-05T02:21:37","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=2589"},"modified":"2009-01-05T00:21:37","modified_gmt":"2009-01-05T02:21:37","slug":"delirios-de-um-anormal-jose-mojica-marins-1978","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2009\/01\/05\/delirios-de-um-anormal-jose-mojica-marins-1978\/","title":{"rendered":"Del\u00edrios de um Anormal (Jos\u00e9 Mojica Marins, 1978)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px 1px;\" src=\"http:\/\/img525.imageshack.us\/img525\/4091\/semttulo1cq0.jpg\" alt=\"\" \/><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px 1px;\" src=\"http:\/\/img184.imageshack.us\/img184\/1585\/semttulo2id5.jpg\" alt=\"\" \/><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px 1px;\" src=\"http:\/\/img65.imageshack.us\/img65\/231\/semttulo3gr8.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As d\u00e9cadas de 60 e 70 foram, sem d\u00favida nenhuma, um per\u00edodo negro para o cinema brasileiro. Com a censura e a liberdade de express\u00e3o bastante podada, pouqu\u00edssimas obras n\u00e3o sofriam providenciais cortes pelo departamento militar respons\u00e1vel, em nome da moral e dos bons costumes. E cada corte, por m\u00ednimo que seja, retira boa parte da identidade est\u00e9tica e narrativa do filme. E, como j\u00e1 devia se esperar, Jos\u00e9 Mojica Marins foi o mais prejudicado nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nessa \u00e9poca, no auge de sua criatividade, Mojica via suas obras sendo brutalmente cortadas, e at\u00e9 mesmo impedidas de serem exibidas, mesmo ap\u00f3s os cortes. Claro que tudo isso abalou significativamente o cineasta, a ponto de, durante alguns anos, abandonar o seu maior personagem e at\u00e9 mesmo o estilo que abra\u00e7ou, passando a filmar com\u00e9dias e at\u00e9 mesmo pornochanchadas (sobre o pseud\u00f4mino de J. Avelar). Entretanto, Mojica, sendo um homem vision\u00e1rio, guardou cada uma das cenas cortadas, pensando, talvez, em utiliz\u00e1-las em algum momento oportuno.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Eis que os anos passam, e o momento oportuno chegou.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 no final da d\u00e9cada de 70, com os dentes da censura n\u00e3o t\u00e3o afiados assim, Mojica resolve voltar ao personagem e ao g\u00eanero que o consagrou. Atrav\u00e9s de um roteiro brilhantemente concebido por seu habitual colaborador Rubens Luchetti, ele conseguiu que as cenas cortadas anteriormente (e que, de certa forma, representavam parte do seu universo podado) fossem concebidas em um novo conceito. Com elas, e cerca de meia horas de cenas filmadas (que servem para delinear o mote do filme), Mojica, tal qual Dr. Frankestein, concebe uma magn\u00edfica criatura atrav\u00e9s da jun\u00e7\u00e3o de peda\u00e7os de outros filhos seus. Nascia, assim, &#8220;Del\u00edrios de um Anormal&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em Del\u00edrios de um Anormal, o personagem principal \u00e9 o Dr Hamilton, um famoso psiquiatra que \u00e9 atormentado por pesadelos nos quais Z\u00e9 do Caix\u00e3o toma a sua esposa, T\u00e2nia, para ser a mulher que ir\u00e1 gerar o filho perfeito para o coveiro. Os colegas m\u00e9dicos de Hamilton decidem buscar ajuda para esses pesadelos sem fim do amigo e entram em contato com o cineasta Jos\u00e9 Mojica, que tenta fazer com que Hamilton acredite que Z\u00e9 do Caix\u00e3o \u00e9 apenas um personagem fict\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Atrav\u00e9s desse roteiro, Mojica tinha o ve\u00edculo certo para costurar todas as cenas anteriormente censuradas e adequ\u00e1-las a um novo conceito, no caso, as cenas envolvendo os del\u00edrios de Dr. Hamilton. E o trabalho final desasa colagem \u00e9 extremamente criativo e impactante, n\u00e3o s\u00f3 pelo trabalho de edi\u00e7\u00e3o fenomenal de Nilcemar Leyart, mas por tamb\u00e9m ser, em uma livre itnerpreta\u00e7\u00e3o, um libelo, um desabafo de Mojica contra aqueles que amea\u00e7aram podar sua criatividade e vis\u00e3o anos atr\u00e1s. Principalmente se levarmos em considera\u00e7\u00e3o que o filme (mesmo sendo aterrorizante e, at\u00e9 certo ponto, insano e imoral como os seus outros trabalhos) ter passado de forma integral (sem cortes) pela censura.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Al\u00e9m de apresentar um das mais maravilhosas e significativas comprova\u00e7\u00f5es do experimento de Mosjukin (onde a adi\u00e7\u00e3o de um plano, ou mesmo a colagem de v\u00e1rios planos, pode alterar o significado de outro), Mojica nos apresenta um soberbo uso da metalinguagem (tal qual &#8220;Ritual dos S\u00e1dicos&#8221;), desta vez com um embate entre criador e criatura, e com um desdobramento final que explora essa rela\u00e7\u00e3o de forma inteligent\u00edssima, onde, mais uma vez, ele mostra sua sensibilidade em perceber o lado mais obscuro do ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com tudo isso, &#8220;Del\u00edrios de um Anormal&#8221;, se n\u00e3o \u00e9 a obra mais significativa dele, se firma como uma das experi\u00eancias cinematogr\u00e1ficas mais intensas e sensacionais que eu j\u00e1 vi. Ritual dos S\u00e1dicos continua sendo o meu preferido, mas esse chega muito perto!<\/p>\n<p>4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Adney Silva<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As d\u00e9cadas de 60 e 70 foram, sem d\u00favida nenhuma, um per\u00edodo negro para o cinema brasileiro. 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