{"id":237,"date":"2008-05-31T20:55:02","date_gmt":"2008-05-31T22:55:02","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=237"},"modified":"2008-05-31T20:55:02","modified_gmt":"2008-05-31T22:55:02","slug":"embriagado-de-amor-pt-anderson-2002","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/31\/embriagado-de-amor-pt-anderson-2002\/","title":{"rendered":"Embriagado de Amor (P.T. Anderson, 2002)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"vertical-align:text-bottom;\" src=\"http:\/\/images.salon.com\/ent\/movies\/review\/2002\/10\/11\/punch_drunk\/story.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"278\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por fora, um filme com fatos e mais fatos ins\u00f3litos, de teor muitas vezes constrangedor; outras vezes assustadores, engra\u00e7ados ou simplesmente incolores, acumulando-se dentro de um grande saco de pesadas placas met\u00e1licas, sendo levantado por uma fr\u00e1gil corda, prestes a cair na cabe\u00e7a do pobre Barry Egan, personagem interpretado de forma surpreendente por Adam Sandler (ele mesmo) nesse curto e introspectivo filme de Paul Thomas Anderson. Por dentro: Um filme sobre a for\u00e7a exercida pelo amor. Filme este que sucedeu \u201cMagn\u00f3lia\u201d, o que elevaria para a estratosfera as espectativas positivas em torno dele. Afinal, o cara que fez \u201cMagn\u00f3lia\u201d poderia se superar?\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aparentemente pacato e inofensivo,sendo com isso explorado por tudo e por todos durante o filme (desde a inf\u00e2ncia, pelo que se \u00e9 passado), Barry Egan trabalha com&#8230; \u00c9 um pequeno empres\u00e1rio que&#8230; Bom, ele trabalha dentro de um galp\u00e3o, com alguns outros caras, e tem uma mesa e um telefone. Com o que Barry trabalha? Deve ser importante (para ele, ao menos), pois ele vai todos os dias de terno e gravata, mas a impress\u00e3o que ele nos passa \u00e9 que nem mesmo ele sabe o que est\u00e1 fazendo ali, com aquele palet\u00f3 e gravata, vendendo aquelas coisas (desentupidores?) e atendendo os telefonemas assustadores de suas irm\u00e3s (s\u00e3o 7, cada uma mais sufocante que a outra \u2013 no pior sentido da palavra elevado \u00e0 s\u00e9tima pot\u00eancia).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Barry sente-se constantemente pressionado, sob eterna vigil\u00e2ncia, como se fosse um pequeno hamster batendo com a cabe\u00e7a contra as paredes, procurando pela portinha que o levasse at\u00e9 a sa\u00edda, prestes a explodir a qualquer momento, roendo a parede de madeira vagabunda com os dentes e criando um atalho, como na vez em que quebra todo o banheiro de um restaurante (o respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a do local pede para que ele se retire, pois viu o estado em que ficou o banheiro; Barry nega que tenha feito aquilo e ent\u00e3o o cara pergunta-lhe porque sua m\u00e3o estaria sangrando e ele suavemente responde \u201cEu me cortei com minha faca\u201d. (auto-destrui\u00e7\u00e3o ou defesa?) Igualmente estranho \u00e9 quando deixam um piano (um pianinho \u2013 ou seria um \u00f3rg\u00e3o?), na cal\u00e7ada do lugar onde trabalha, depois de um abrupto acidente de carro que parece ensurdecer o sil\u00eancio ap\u00e1tico de Barry e sua caneca de ch\u00e1, caf\u00e9, ou sei l\u00e1 o qu\u00ea \u00e9 que ele consegue enxergar por uma t\u00edmida luz se espremendo por uma estreita fresta. Porque ele o trouxe para dentro de seu escrit\u00f3rio? \u201cI Dont Know\u201d,termo que parece muito bem definir o que Barry sabe, pra valer, at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois de muita insist\u00eancia das irm\u00e3s, que o espremem contra a parede sem a menor piedade jogando em sua cara todas as pequenas fraquezas e inseguran\u00e7as &#8211; que elas parecem conhecer muito bem -, Barry vai at\u00e9 certa festa em que todas as irm\u00e3s e cunhados se reuniriam. Quando lhe perguntam como est\u00e1 o trabalho, ele se enrola e responde \u201cvery food\u201d,quando na verdade queria dizer \u201cvery good\u201d, e suas irm\u00e3s parecem n\u00e3o ter assunto mais interessante para comentar\u00a0 a n\u00e3o ser as \u201cperip\u00e9cias\u201d cometidas por Barry (ou seria \u201csofridas\u201d?) na inf\u00e2ncia. Come\u00e7am a lembrar de uma vez em que ele atirou um martelo contra uma porta de vidro e em como ele ficava furioso quando elas o chamavam de gay. \u201cVoc\u00ea \u00e9 gay agora, Barry?\u201d \u201cI Dont Know\u201d, ele responde, explodindo depois numa f\u00faria incontrol\u00e1vel que o faz quebrar todas as vidra\u00e7as da cozinha aos pontap\u00e9s. Um d\u00e9ja vu? Qual seria o problema de Barry? \u00c9 isso que ele pr\u00f3prio pergunta a um dos seus cunhados, que ele acreditava poder ajudar, por ser m\u00e9dico (era um dentista, na verdade). Barry n\u00e3o sabe como s\u00e3o as outras pessoas, para assim poder diagnosticar qual \u00e9 o seu problema. E esse pode ser mesmo um problem\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No mesmo dia em que o piano \u00e9 deixado na rua e \u201cadotado\u201d por Barry, sua vidinha in\u00f3cua come\u00e7a a tomar forma, cor, sabor e tom. Primeiro, ele conhece uma garota chamada Lena (numa atua\u00e7\u00e3o da sempre marcante Emily Watson) que faz com que ele ou\u00e7a barulhinhos diferentes flutuando em sua cabe\u00e7a. Antes de Lena, por\u00e9m,o espa\u00e7o vazio que era sua exist\u00eancia havia sido \u201csub-preenchido\u201d por uma id\u00e9ia um tanto quanto ousada, o que parecia provocar nele uma adrenalina at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida: aproveitando-se de um furo no regulamento de uma promo\u00e7\u00e3o de uma empresa a\u00e9rea, que dava de presente 500 milhas em v\u00f4o para cada 10 produtos (c\u00f3digo de barra) envolvidos na promo\u00e7\u00e3o comprados. Comprando embalagens de pudim, com 4 embalagens cada (um c\u00f3digo de barra para cada uma) por 0,99 centavos, Barry conseguiria ganhar muitas milhas, gastando pouco. Come\u00e7ou ent\u00e3o a entupir seu escrit\u00f3rio com caixas e mais caixas de pudim. Mas para onde Barry viajaria? Fez aquilo pensando no lucro, n\u00e3o na utilidade. Mal sabia que precisava na verdade fugir para bem longe. Havia entrado em uma grande enrascada ao telefonar para um Disk-Sexo e perceber no dia seguinte que o sistema de sexo por telefone com desconhecidas gemendo, roubando de pobres almas solit\u00e1rias o sustento para si pr\u00f3prias, era na verdade uma camuflagem para uma fac\u00e7\u00e3o criminosa, que come\u00e7ou a amea\u00e7\u00e1-lo frequentemente, pedindo-lhe dinheiro,o que culminou em um assalto violento, em que Barry sai ferido. N\u00e3o s\u00f3 por fora.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pra piorar, Lena vai para o Hava\u00ed e, com isso, se vai o norte que haviam dado \u00e0 sua vida. \u201cPreciso comprar mais pudins\u201d. Essa \u00e9 a decis\u00e3o de Barry para tentar resolver os problemas e concretizar solu\u00e7\u00f5es que lhe foram oferecidas. Compra muitas, muitas, muitas caixas de pudim mesmo! E vai ao Hava\u00ed. L\u00e1, liga para uma das irm\u00e3s, amiga de Lena, e pede informa\u00e7\u00f5es de onde ela poderia estar. Como esperado, sua irm\u00e3 o enche de perguntas indiscretas \u00e0s quais Barry n\u00e3o estava muito disposto a se expor, tal qual um garotinho negando a todos e a si mesmo que tinha uma namorada. Possesso pela f\u00faria e fortalecido pelo conforto do amor que sentia por Lena (e talvez pela dist\u00e2ncia, afinal ele estava no Hava\u00ed), Barry dessa vez n\u00e3o curva a cabe\u00e7a pra baixo e cospe no ouvido dela tudo o que sempre esteve entalado por tanto tempo. Raiva, muita raiva. Aquele intenso exorcismo \u00e9 quebrado para um tom bem mais ameno quando enfim ele consegue encontrar Lena pelo telefone, num hotel. A ansiedade e euforia, por sentir-se mais independente, \u00e9 tanta que ele parece n\u00e3o querer desperdi\u00e7ar mais nenhum momento ou pensamento que lhe passe superficialmente pela cabe\u00e7a, nenhuma d\u00favida. \u201cVoc\u00ea tem namorado\u201d? \u201cH\u00e1 quanto tempo n\u00e3o namora\u201d? \u201cJ\u00e1 foi casada\u201d? \u201cPor quanto tempo\u201d? \u201cOnde nasceu\u201d? Tudo ao mesmo tempo, quase sem dar espa\u00e7o para resposta, querendo entrar pelo telefone, esgueirar-se pelos fios e pular nos bra\u00e7os dela.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O encontro deles no hotel \u00e9 \u00e9pico, lindo, cinematogr\u00e1fico. Barry j\u00e1 n\u00e3o se importava em ser visto \u201cde m\u00e3os dadas\u201d com uma garotinha. N\u00e3o era mais t\u00e3o fr\u00e1gil. Aquela aparente embriaguez superficial de com\u00e9dias rom\u00e2nticas que o fez ir at\u00e9 o Hava\u00ed atr\u00e1s de sua garota era, talvez, o estado mais s\u00f3lido ao qual Barry j\u00e1 se submetera. Estavam amando, faziam juras de amor: \u201cQuero morder sua bochecha e mastig\u00e1-la&#8230;\u201d \u201cQuero amassar o seu rosto com um martelo e esmag\u00e1-lo, voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o linda&#8230;\u201d \u201cQuero arrancar seus olhos, com\u00ea-los, mastig\u00e1-los e chup\u00e1-los&#8230;\u201d. Estavam amando e faziam juras de amor&#8230; Da forma deles. N\u00e3o de uma forma predefinida pelos roteiristas de com\u00e9dias rom\u00e2nticas. Toma coragem e liga para os mafiosos do Tele-Sexo, deixando recado na secret\u00e1ria eletr\u00f4nica, dizendo que a agress\u00e3o foi injusta e que quer o dinheiro de volta. E ao voltarem de viagem s\u00e3o atacados pelos mesmos, de forma ainda mais violenta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dotado agora de uma for\u00e7a quase que de her\u00f3i dos quadrinhos, Barry, armado com um p\u00e9 de cabra, n\u00e3o hesita em derrubar, um a um, todos os capangas, de forma assustadoramente brutal. Barry j\u00e1 n\u00e3o tinha medo dos valent\u00f5es da escola. Mas ainda n\u00e3o era maduro o suficiente para entender que mulheres gostam de aten\u00e7\u00e3o e deixa Lena sozinha no hospital enquanto vai tentar concluir de uma vez por todas o problema com os sacanas que o roubaram. Agressivo, procura pela garota do Tele-Sexo pelo telefone e pede para ela chamar seu chefe (participa\u00e7\u00e3o brilhante e hil\u00e1ria de Philip Seymor Hoffman), o qual manda se fuder, ati\u00e7ando a f\u00faria do grande rei da m\u00e1fia da pornografia. Com a mesma for\u00e7a com que derruba os seus capangas, consegue nocautear o chef\u00e3o s\u00f3 afirmando, com toda a sinceridade que aprendeu a ter consigo mesmo nos \u00faltimos dias, que era um bom homem, e que tinha uma mulher que o fortalecia, e que eles deviam deixa-lo em paz. Voltando de Utah, pede desculpas a Lena, leva o piano (Arr\u00e1! Foi por isso que ele o trouxe pra dentro de casa?) para o apartamento dela e vivem assim felizes para sempre, viajando de aeroporto a aeroporto, gra\u00e7as aos pudins.<br \/>\n\u00a0<br \/>\n\u201cEmbriagado de Amor\u201d,como eu disse l\u00e1 no in\u00edcio do primeiro par\u00e1grafo, \u00e9 muita coisa acontecendo ao mesmo tempo para, no fim, ser nada mais nada menos que uma hist\u00f3ria de amor, uma hist\u00f3ria de exalta\u00e7\u00e3o ao amor, de como esse sentimento t\u00e3o famigerado e por vezes desgastado nas telas do cinema, na TV e at\u00e9 em nossas vidas pode ainda ser apresentado de forma cr\u00edvel, palp\u00e1vel, sem deixar de ser original. Pode n\u00e3o ser o melhor filme de PTA, afinal n\u00e3o \u00e9 todo dia que se \u201cpare\u201d um \u201cMagn\u00f3lia\u201d, mas \u00e9 certamente um excelente filme, dentro da desgastada categoria \u201ccom\u00e9dia rom\u00e2ntica\u201d (odeio r\u00f3tulos). Ali\u00e1s,esqueci de tocar num ponto interessante: Adam Sandler e sua atua\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel. Impec\u00e1vel porque, se ele fez o mesmo personagem de sempre em todos os seus filmes, durante toda a sua carreira (O abobado indefeso e am\u00e1vel que conquista as pessoas por ser&#8230; abobado,indefeso e am\u00e1vel)? A resposta, acho, \u00e9 mais simples do que parece: Adam Sandler estava desta vez trabalhando dentro de um contexto favor\u00e1vel a ele, tornando a natureza de seu personagem algo veross\u00edmil, pois nos apresentava o mundo da forma como ele a via. A cada corte brusco no andamento de uma cena, por um daqueles barulhinhos inc\u00f4modos, e da trilha sonora totalmente atuante do filme, dos sustos repentinos e fatos sem muito nexo (aquele acidente de carro nas primeiras cenas fez meu cora\u00e7\u00e3o pular at\u00e9 a boca) que acontecem no decorrer de sua trajet\u00f3ria, nos deixando t\u00e3o at\u00f4nitos quanto ele, a todo momento. Tudo isso, gra\u00e7as \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, obviamente, sempre tocante e intensa do PTA, um dos grandes caras do cinema desta \u00faltima d\u00e9cada. Fica dif\u00edcil n\u00e3o se envolver com o filme, n\u00e3o se sentir incomodado, perdido, atordoado, no limite da raz\u00e3o. Assim como acontece quando nos apaixonamos. Ou quando temos a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos, ao menos.<br \/>\nPreste aten\u00e7\u00e3o: Nos barulhinhos, nas cores, na ilumina\u00e7\u00e3o, na trilha sonora&#8230; E no pianinho.<\/p>\n<p>4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Rodrigo Jord\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por fora, um filme com fatos e mais fatos ins\u00f3litos, de teor muitas vezes constrangedor; outras vezes assustadores, engra\u00e7ados ou simplesmente incolores, acumulando-se dentro de um grande saco de pesadas placas met\u00e1licas, sendo levantado por uma fr\u00e1gil corda, prestes a &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/31\/embriagado-de-amor-pt-anderson-2002\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[124,2526,765,1820,1897,1901],"class_list":["post-237","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-adam-sandler","tag-cinema","tag-embriagado-de-amor","tag-paul-thomas-anderson","tag-pta","tag-punch-drunk-love"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=237"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/237\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=237"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=237"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=237"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}