{"id":230,"date":"2008-05-26T12:30:09","date_gmt":"2008-05-26T14:30:09","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=230"},"modified":"2008-05-26T12:30:09","modified_gmt":"2008-05-26T14:30:09","slug":"metropolis-fritz-lang-1928","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/26\/metropolis-fritz-lang-1928\/","title":{"rendered":"Metropolis (Fritz Lang, 1928)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"vertical-align:top;\" src=\"http:\/\/img.photobucket.com\/albums\/v317\/ROQUENROL\/Metropolis00.jpg\" alt=\"Metropolis\" width=\"400\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>&#8220;O mediador entre a cabe\u00e7a e as m\u00e3os deve ser o cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 a partir desse epigrama que se inicia \u201cMetropolis\u201d, um dos marcos iniciais da fic\u00e7\u00e3o \u2013 cient\u00edfica no cinema. Apesar desse g\u00eanero estar presente na hist\u00f3ria do cinema quase desde o seu in\u00edcio (com \u201cViagem a Lua\u201d, produzido por George M\u00e9li\u00e8s, sendo um dos mais lembrados dessa \u00e9poca), \u201cMetropolis\u201d consolidou o g\u00eanero como sendo de relev\u00e2ncia para \u00e0quela arte ainda jovem na \u00e9poca do lan\u00e7amento desse filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ali\u00e1s, a import\u00e2ncia de \u201cMetr\u00f3polis\u201d vai al\u00e9m de um simples g\u00eanero; ele \u00e9 considerado, por muitos, a pedra fundamental do \u201cExpressionismo Alem\u00e3o\u201d, o que n\u00e3o deixa de ser um fato curioso, pois ele, ao mesmo tempo, representa, numa an\u00e1lise mais superficial, o \u201cencerramento\u201d dessa escola cinematogr\u00e1fica (digo \u201cencerramento\u201d entre aspas pois, assim como em qualquer forma art\u00edstica, o in\u00edcio e o fim de um g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 bem delineado). Assim, o filme, ao mesmo tempo que representa para muitos o \u00e1pice do \u201cExpressionismo\u201d, \u00e9 tamb\u00e9m o canto de cisne desse mesmo g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em \u201cMetropolis\u201d, somos apresentados a uma cidade do s\u00e9culo XXI (mais precisamente, do ano de 2026, exatamente um s\u00e9culo ap\u00f3s o in\u00edcio das filmagens desse filme). Enquanto os oper\u00e1rios, vitais para o funcionamento das m\u00e1quinas e da pr\u00f3pria cidade (representando, assim, as \u201cm\u00e3os\u201d da cidade), vivem nas cidades subterr\u00e2neas de Metropolis, os Mestres (que, por sua vez, s\u00e3o a \u201ccabe\u00e7a\u201d da cidade) vivem na superf\u00edcie, levando uma exist\u00eancia de prazeres e despreocupa\u00e7\u00e3o. \u00c9 quando Freder, filho do poderoso Joh Fredersen, se apaixona por Maria, que \u00e9, na verdade, uma esp\u00e9cie de &#8216;pregadora&#8217; dos oper\u00e1rios, que se re\u00fanem para ouvir seus discursos pacifistas. Joh Fredersen, percebendo isso, pede a Rotwang (Klein-Rogge) d\u00ea as fei\u00e7\u00f5es de Maria ao rob\u00f4 que este acaba de construir, a fim de que ela possa incitar os oper\u00e1rios \u00e0 viol\u00eancia, permitindo que os Mestres ataquem-nos por sua &#8216;insubordina\u00e7\u00e3o&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Logo na primeira cena percebemos toda a dispariedade existente entre essas duas classes: Nesta cena, temos os oper\u00e1rios voltando de uma \u00e1rdua e longa jornada de trabalho (de 10 horas), todos eles se encaminhando para os elevadores que levam \u00e0s cidades subterr\u00e2neas. Todos eles se encaminham com passos marcados, lentos, cabisbaixos, desolados, esgotados f\u00edsica e psicologicamente, como se fossem soldados derrotados capturados pelas for\u00e7as inimigas, se encaminhando para o pelot\u00e3o de fuzilamento. Todo esse clima melanc\u00f3lico e tenebroso \u00e9 contribu\u00eddo por uma trilha sonora igualmente tenebrosa e triste. Em seguida, ao mostrar os \u201chabitantes da superf\u00edcie\u201d, temos uma mudan\u00e7a radical de tom; temos v\u00e1rios jovens disputando uma corrida em um campo de atletismo, num cen\u00e1rio totalmente diferente do anterior, acompanhado por uma trilha sonora igualmente grandiosa. Essa diferen\u00e7a bastante evidente entre as duas classes principais \u00e9 mostrada durante todo o filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esse tema \u00e9 tamb\u00e9m evidenciado pelos magn\u00edficos cen\u00e1rios do filme, resultando num cen\u00e1rio perturbador. A cidade da superf\u00edcie, com seus pr\u00e9dios imponentes e enormes e ruas estreitas (chegando ao requinte de termos avi\u00f5es sobrevoando os pr\u00e9dios), gera uma sensa\u00e7\u00e3o claustrof\u00f3bica e de ansiedade ao espectador. Ao mesmo tempo, somos envolvidos justamente pela grandiosidade e pela arquitetura dos pr\u00e9dios (destacando a Torre de Babel e o seu teto de cinco pontas). Em contrapartida, as constru\u00e7\u00f5es da cidade subterr\u00e2nea s\u00e3o simples, \u201cpadronizadas\u201d, com seus pr\u00e9dios rigorosamente iguais, dando a ela uma sensa\u00e7\u00e3o de \u201ccidade \u2013 dormit\u00f3rio\u201d, pr\u00f3pria apenas para alojar os trabalhadores na sua pequena jornada de descanso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outra constru\u00e7\u00e3o que enche os olhos do espectador \u00e9 a \u201cCasa das M\u00e1quinas\u201d. Ela \u00e9 t\u00e3o inteligentemente \u201cconstru\u00edda\u201d que os funcion\u00e1rios que trabalham nela o fazem em certos \u201cnichos\u201d onde os mesmo se alojam, como se fizessem parte de sua anatomia, gerando uma \u201cquase \u2013 simbiose\u201d entre o homem e a m\u00e1quina. A cena onde contemplamos pela primeira vez essa constru\u00e7\u00e3o, onde os oper\u00e1rios trabalham nesses nichos, em movimentos compassados e sincronizados, \u201cmecanizados\u201d, o que evidencia cada vez essa simbiose \u201chomem \u2013 m\u00e1quina\u201d, \u00e9 impressionante, bem como a cena de sua destrui\u00e7\u00e3o, quando um de seus funcion\u00e1rios sucumbe \u00e0 exaust\u00e3o. A seq\u00fc\u00eancia da &#8216;explos\u00e3o&#8217;, com funcion\u00e1rios sendo atirados do alto da m\u00e1quina, \u00e9 fant\u00e1stica, surpreendendo at\u00e9 nos dias de hoje. A cena seguinte a explos\u00e3o, onde Freder, ao observar \u201cCasa das M\u00e1quinas\u201d sendo explodida, t\u00eam uma alucina\u00e7\u00e3o durante a qual a m\u00e1quina se transforma em uma esp\u00e9cie de monstro que devora os funcion\u00e1rios, representa uma met\u00e1fora daquilo que realmente acontece em Metropolis, no qual os homens , ao sucumbirem \u00e0 tecnologia, tornando-se meros escravos das m\u00e1quinas. Afinal, n\u00e3o s\u00e3o apenas os oper\u00e1rios que dependem destas &#8211; os mestres tamb\u00e9m devem a elas a tranq\u00fcilidade de suas exist\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As atua\u00e7\u00f5es s\u00e3o um caso \u00e0 parte: extremamente exageradas, pode \u2013 se dizer, em uma an\u00e1lise superficial, que elas s\u00e3o extremamente caricatas. Entretanto, por se tratar de um filme mudo (e, mais ainda, um representante leg\u00edtimo do \u201cExpressionismo Alem\u00e3o\u201d, onde a ilumina\u00e7\u00e3o, os cen\u00e1rios e principalmente as atua\u00e7\u00f5es caracterizavam o \u201cestado de esp\u00edrito\u201d dos personagens), podemos dizer que o exagero das atua\u00e7\u00f5es faziam parte do processo. Esse \u201cestado de esp\u00edrito\u201d \u00e9 tamb\u00e9m evidenciado pela configura\u00e7\u00e3o dos figurantes em v\u00e1rias cenas do filme (foram utilizados cerca de 30000): no in\u00edcio do filme estes andavam em blocos geometricamente dispostos, ilustrando com perfei\u00e7\u00e3o a subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 qual estes se viam obrigados. J\u00e1 mais para o final da hist\u00f3ria, eles continuam a andar em blocos, mas sem qualquer tipo de padr\u00e3o observ\u00e1vel, ou seja: s\u00e3o, ainda, uma unidade &#8211; mas sem que tenham de sucumbir \u00e0s ordens dos mestres.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ainda temos \u00f3timas met\u00e1foras nesse filme. Quando os trabalhadores (que obedecem fielmente as ordens da falsa Maria, sem nem ao menos desconfiar da sua mudan\u00e7a radical de atitude), provocam uma inunda\u00e7\u00e3o na cidade subterr\u00e2nea (gerando uma outra cena impressionante e forte), colocando os seus filhos em perigo, podemos interpretar como se as m\u00e1quinas, em um determinado momento da hist\u00f3ria da humanidade, interferem radicalmente no futuro do Planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Apesar de todas essas interpreta\u00e7\u00f5es (que se mostram, nos dias de hoje, surpreendentemente atuais), o filme foi duramente criticado na \u00e9poca de seu lan\u00e7amento, sobretudo por \u00e0queles que n\u00e3o simpatizavam com o seu conte\u00fado pol\u00edtico (entre eles, o escritor H.G. Wells). Outro fato curioso \u00e9 que, Hitler, fascinado pela suntuosidade e grandiosidade do filme, pediu para que o seu bra\u00e7o-direito Goebbels convidasse Fritz Lang para assumir a &#8216;chefia&#8217; da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica alem\u00e3. O diretor agradeceu, recusou a proposta e partiu \u00e0s pressas para Paris. No entanto, sua esposa (Thea von Harbou, autora do roteiro de Metropolis) n\u00e3o s\u00f3 ficou para tr\u00e1s, como tamb\u00e9m se tornou uma nazista.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, \u201cMetropolis\u201d se confirma como um grande marco n\u00e3o s\u00f3 do Expressionismo Alem\u00e3o\u201d ou da fic\u00e7\u00e3o \u2013 cient\u00edfica, mas da pr\u00f3pria hist\u00f3ria do cinema. Suas v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es das conseq\u00fc\u00eancias do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e da dispariedade de classes que esse avan\u00e7o provoca surpreende at\u00e9 hoje, tanto pela sua realiza\u00e7\u00e3o quanto pela sensibilidade de Fritz Lang de perceber que, quase 80 anos depois de sua obra, a \u201cMetropolis\u201d do filme est\u00e1 presente em quase todas as grandes cidades de forma mais intensa do que nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Adney Silva<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O mediador entre a cabe\u00e7a e as m\u00e3os deve ser o cora\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 a partir desse epigrama que se inicia \u201cMetropolis\u201d, um dos marcos iniciais da fic\u00e7\u00e3o \u2013 cient\u00edfica no cinema. 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