{"id":227,"date":"2008-05-25T17:16:20","date_gmt":"2008-05-25T19:16:20","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=227"},"modified":"2008-05-25T17:16:20","modified_gmt":"2008-05-25T19:16:20","slug":"memorias-woody-allen-1980","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/25\/memorias-woody-allen-1980\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias (Woody Allen, 1980)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.dvdbeaver.com\/film2\/DVDReviews32\/a%20stardust%20memories\/1023UKR2.jpg\" alt=\"\" width=\"464\" height=\"261\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>\u201cO que voc\u00ea acha que o Rolls Royce representa?\u201d<br \/>\n\u201cEu acho que o Rolls Royce representa&#8230; o carro\u201d. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 muito f\u00e1cil compreender o porqu\u00ea de Mem\u00f3rias ser freq\u00fcentemente empurrado ao segundo plano da filmografia de Woody Allen. Absolutamente desnorteado, incompleto, louco e imprevis\u00edvel, este projeto menor e menos conhecido do grande mestre das neuroses f\u00edlmicas brinca o tempo todo com a imagem e suas origens, apresenta personagens que saem de cena no instante seguinte, manda \u00e0s favas a narrativa cinematogr\u00e1fica e \u00e9 preenchido ao longo de seus 90 minutos com momentos de puro surrealismo, tudo isso pra ter de explicar mais uma vez uma coisa que deveria ser tema b\u00e1sico de qualquer universidade de cinema: a s\u00e9tima arte n\u00e3o tem compromisso com nada, nem com coer\u00eancia, nem com realidade. Nada. \u00c9 um mundo de puro del\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nada mais sensato do que, ao mesmo tempo, Allen fazer seu filme mais autobiogr\u00e1fico, sat\u00edrico e exorcizante \u2013 levando em conta que se trata de um dos principais respons\u00e1veis por popularizar esse descompromisso com a estrutura nesses \u00faltimos 30 anos, atrav\u00e9s de filmes como Annie Hall e A Rosa P\u00farpura do Cairo, muito evocativos e realistas justamente por seus devaneios, e por isso t\u00e3o deliciosos. Seu senso de humor atinge aqui o n\u00edvel mais profundo de acidez, de criatividade, atirando pra todos os lados e sempre acertando \u2013 em especial em rela\u00e7\u00e3o ao cinema, principalmente ao seu pr\u00f3prio, mas tamb\u00e9m \u00e0 teoriza\u00e7\u00e3o da arte em geral, questionando desde a falta de compreens\u00e3o da ess\u00eancia de se ver um filme at\u00e9 a necessidade de se aplicar significados a tudo, de rotular, de ter medo de soltar a imagina\u00e7\u00e3o e se deixar levar pela brincadeira \u2013 tanto quem produz quanto quem v\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 exatamente isso que Allen faz: soltar sua infind\u00e1vel imagina\u00e7\u00e3o, sempre emoldurada pela cinematografia impec\u00e1vel de Gordon Willis num glorioso preto-e-branco. O plot \u00e9 praticamente inexistente, notavelmente o que menos interessa, e pode ser resumido simplesmente pelo fato de estarem passando uma retrospectiva da carreira de um renomado diretor (ele mesmo) de com\u00e9dias que est\u00e1 come\u00e7ando a fazer dramas (incompreendidos \u2013 ele mesmo), e de ele ser convidado a participar e, em meio a isso, dar um pouco da sua vis\u00e3o de cinema ao mesmo tempo em que reflete sobre sua pr\u00f3pria carreira, seus relacionamentos amorosos, seu futuro. Mais ou menos algo como Fellini faz em Oito e Meio, mas muito mais interessante, n\u00e3o s\u00f3 por o humor do Allen ser muito mais afiado e menos circense, mas por saber aproveitar todas as possibilidades de se exercitar uma brincadeira metaling\u00fc\u00edstica t\u00e3o agu\u00e7ada como essa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mem\u00f3rias \u00e9 cheio de filmes dentro de filme, sonhos, vis\u00f5es, lembran\u00e7as, sempre desconstru\u00eddas, ao inv\u00e9s de montadas. E tem alguns dos momentos mais engra\u00e7ados j\u00e1 filmados, como as entrevistas com o diretor, as apari\u00e7\u00f5es dos f\u00e3s mais bizarros que existem (\u201cMe d\u00e1 um aut\u00f3grafo?\u201d \u201cSim\u201d. \u201cEu nasci de cesariana\u201d; e tantos outros t\u00e3o ou mais surtados), o encontro com os extraterrestes (eles dando conselhos amorosos ao Allen com seus QI\u2019s de 1800 pontos), al\u00e9m das b\u00e1sicas piadas sobre a natureza humana (o m\u00e9dico que era apaixonado por duas mulheres, resolveu juntar o corpo de uma e o c\u00e9rebro da outra numa s\u00f3 pra fazer a mulher perfeita e se apaixonou pela outra, feita com os restos), sobre a filosofia (\u201cNo fim do meu curso de filosofia tive que responder a um teste de dez quest\u00f5es. Deixei todas em branco. Tirei 100\u201d), sobre vida e morte (a crise existencial semi-emo do protagonista \u00e9 algo impag\u00e1vel), entre outras coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E poucas vezes um diretor filmou de maneira t\u00e3o apaixonada uma atriz como Allen naquele plano final de Charlotte Rampling \u2013 por incr\u00edvel que pare\u00e7a, isso n\u00e3o ocorreu com Mia Farrow ou Diane Keaton -, deitada sob a o ch\u00e3o lendo uma revista, mais um daqueles momentos que s\u00f3 mesmo Woody Allen saberia fotografar, transformando um pequeno gesto praticamente na s\u00edntese de tudo o que realmente vale na vida. E logo ap\u00f3s, terminar o filme de forma t\u00e3o espirituosa, cerrando um verdadeiro soco na cara da oposi\u00e7\u00e3o, s\u00f3 poderia ser coisa de um realizador com dom\u00ednio completo de seu material.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como \u00e9 bom assistir um filme consciente de que o \u00fanico limite do cinema \u00e9 a pr\u00f3pria falta de limites. Um dos meus preferidos de todo o sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO que voc\u00ea acha que o Rolls Royce representa?\u201d \u201cEu acho que o Rolls Royce representa&#8230; o carro\u201d. \u00c9 muito f\u00e1cil compreender o porqu\u00ea de Mem\u00f3rias ser freq\u00fcentemente empurrado ao segundo plano da filmografia de Woody Allen. Absolutamente desnorteado, incompleto, &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/25\/memorias-woody-allen-1980\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[476,2526,1076,1459,1958,2155,2177,2205,2503],"class_list":["post-227","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-charlotte-rampling","tag-cinema","tag-ilusao","tag-memorias","tag-retrospectiva","tag-sonho","tag-stardust-memories","tag-surrealismo","tag-woody-allen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=227"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}