{"id":2203,"date":"2008-11-10T13:48:30","date_gmt":"2008-11-10T15:48:30","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=2203"},"modified":"2008-11-10T13:48:30","modified_gmt":"2008-11-10T15:48:30","slug":"vicky-cristina-barcelona-woody-allen-2008","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/11\/10\/vicky-cristina-barcelona-woody-allen-2008\/","title":{"rendered":"Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen, 2008)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;\" src=\"http:\/\/img125.imageshack.us\/img125\/3920\/vickycv3.png\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"206\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O t\u00edtulo do novo filme de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona, chama a aten\u00e7\u00e3o pelo modo como \u00e9 grafado. N\u00e3o existe entre o nome de Vicky e Cristina, as duas amigas que partem para Barcelona num ver\u00e3o com objetivos diversos, um elo, qualquer liga\u00e7\u00e3o que nos fa\u00e7a compreender Barcelona como um objetivo, mais que um mero destino, uma necessidade de mudan\u00e7a. \u00c9 isso que se espera em um filme que inspira uma viagem como etapa de um processo de transforma\u00e7\u00e3o. Mas a tal falta de liga\u00e7\u00e3o entre os nomes as coloca no mesmo patamar de Barcelona, como personagens a serem observadas e compreendidas. Seja l\u00e1 qual for o ponto de muta\u00e7\u00e3o que Barcelona vir\u00e1 a inspirar nas vidas das duas personagens, essa pretensa modifica\u00e7\u00e3o passar\u00e1 pelo limiar do entendimento das personalidades das protagonistas. Vicky, Cristina e Barcelona parecem assim serem tr\u00eas personagens do filme, e seus arcos dram\u00e1ticos ser\u00e3o o motivo da nossa imers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Vicky (Rebecca Hall) \u00e9 o modelo perfeito da americana moderna, bem educada, comedida, prestes a se casar com um reflexo masculino de si mesma; Cristina (Scarlett Johansson) \u00e9 loira, voluptuosa, tem tudo perfeitamente em harmonia em sua apar\u00eancia, e tudo coordenadamente fora de ordem em sua vida. Vicky vai estudar e vencer mais uma etapa para conquistar seu objetivo de vida; Cristina quer se encontrar e entender sua exist\u00eancia e, quem sabe, o amor. Depois de um jantar, ambas recebem uma proposta direta de um pintor local, famoso na cidade depois de sua turbulenta separa\u00e7\u00e3o da ex-mulher: Juan Ant\u00f4nio (Javier Bardem) quer lev\u00e1-las para um passeio em uma cidade pr\u00f3xima e espera, caso tudo corra bem, que os tr\u00eas fa\u00e7am sexo. Cristina se sente excitada com a proposta enquanto Vicky acha um absurdo e uma quase falta de respeito \u2013 que ela reluta em afirmar, para n\u00e3o parecer careta ao extremo. Tudo que parece \u00e9, Juan Ant\u00f4nio \u00e9 o homem charmoso que arma uma rede de conquista para as duas mulheres, Cristina \u00e9 a garota perdida que se deixa seduzir e Vicky \u00e9 a garota s\u00e9ria, que n\u00e3o se permite o risco. E mesmo que durante o primeiro ato do filme Allen brinque com os resultados que aguardamos para a trama, as coisas acabam revelando essa natureza mais estereotipada da situa\u00e7\u00e3o e dos personagens. At\u00e9 certo ponto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque trabalhar com os clich\u00eas foi definitivamente a op\u00e7\u00e3o que o diretor escolheu, lidar com personalidades que s\u00e3o facilmente identific\u00e1veis, que aparentemente s\u00e3o previs\u00edveis aos nossos olhos. Inclusive quando Maria Elena entra em cena, ela \u00e9 exatamente a mulher intempestiva que foi desenhada durante a narrativa (numa performance hipn\u00f3tica de Pen\u00e9lope Cruz, dona do momento mais engra\u00e7ado do cinema no ano). Com esse circo de clich\u00eas armados, Woody Allen lan\u00e7a suas cr\u00edticas \u00e0 sociedade americana, puritana e complacente enquanto parece elogiar os europeus, mais abertos e livres, do ponto de vista art\u00edstico (principalmente pela figura do pai de Juan Ant\u00f4nio, capaz de privar o mundo de suas belas poesias como uma esp\u00e9cie de revide ao \u00f3dio que sente dos seres humanos), social (Barcelona \u00e9 uma cidade onde a rede de intrigas sociais est\u00e1 armada e \u00e9 comentada, mas que parece lidar mais tranquilamente com a \u201clibertinagem\u201d de seus seres integrantes) e sexual (com a rela\u00e7\u00e3o liberal estabelecida entre Juan Ant\u00f4nio, Cristina e Maria Elena). Poderiam ser somente esses os motivos para Allen brincar com formas t\u00e3o aparentemente banais em seu filme, n\u00e3o chamar aten\u00e7\u00e3o para os personagens e refletir mais sobre as situa\u00e7\u00f5es sociais. Mas o t\u00edtulo acaba revelando mais que o considerado anteriormente e o desfecho corrobora com a inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A viagem para Barcelona se revelou uma possibilidade de mudan\u00e7a, para Vicky, e um vislumbre de felicidade, para Cristina, e as rela\u00e7\u00f5es l\u00e1 estabelecidas caminhavam perfeitamente para uma solu\u00e7\u00e3o aguardada por todos, como forma de liberta\u00e7\u00e3o das amarras das personagens, antes colocadas desde o com\u00e7eo. S\u00f3 que Allen, trabalhando com clich\u00eas, os reafirma e nos surpreende, justamente por conta deles. Ao inv\u00e9s de uma grande surpresa ou transforma\u00e7\u00e3o, o arco dram\u00e1tico de todo o filme se revela completamente in\u00fatil e imut\u00e1vel, j\u00e1 que Vicky e Cristina percorrem uma esp\u00e9cie de c\u00edrculo que as faz retornar ao mesmo ponto. Como num v\u00edcio de suas pr\u00f3prias exist\u00eancias, nenhuma delas \u00e9 capaz de mudar e a vida que se abre ap\u00f3s o fim da narrativa parece uma revela\u00e7\u00e3o pura e simples do todo cotidiano de sempre (e de modo consciente, o que se revela ainda mais triste). A grande surpresa do filme de Woody Allen, que at\u00e9 ent\u00e3o parecia nos enganar com os clich\u00eas evidentes para nos revelar algo que nos deixasse felizes, justamente por desejarmos aquilo para as personagens, foi simplesmente fazer o caminho inverso, reafirmar que suas condi\u00e7\u00f5es ir\u00e1 permanecer tais como sempre foram. A modifica\u00e7\u00e3o do filme em si acaba sendo a passagem de tom, de uma leve e agrad\u00e1vel com\u00e9dia ambientada em uma encantadora Barcelona, para um cruel desfecho que vislumbra uma vida est\u00e1tica e sem cor &#8211; e de conflitos rom\u00e2nticos brutais, para Juan Ant\u00f4nio e Maria Elena, envoltos em seu eterno amor incompleto. Vicky e Cristina permanecer\u00e3o no mesmo lugar, como entidades absolutas, assim como Barcelona. Ningu\u00e9m mudar\u00e1, nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Thiago Mac\u00eado Correia<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo do novo filme de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona, chama a aten\u00e7\u00e3o pelo modo como \u00e9 grafado. 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