{"id":2187,"date":"2008-11-09T21:10:00","date_gmt":"2008-11-09T23:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=2187"},"modified":"2008-11-09T21:10:00","modified_gmt":"2008-11-09T23:10:00","slug":"a-missao-roland-joffe-1986","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/11\/09\/a-missao-roland-joffe-1986\/","title":{"rendered":"A Miss\u00e3o (Roland Joff\u00e9, 1986)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;\" src=\"http:\/\/img5.allocine.fr\/acmedia\/medias\/nmedia\/18\/64\/04\/21\/18870675.jpg\" alt=\"\" width=\"486\" height=\"309\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8220;Os acontecimentos desta hist\u00f3ria s\u00e3o verdadeiros e ocorreram nas fronteiras da Argentina, Paraguai e Brasil no ano de 1750&#8221; \u00e9 a frase que abre A Miss\u00e3o. E \u00e9 num tom realista que o filme aborda um fato relacionado com nossa hist\u00f3ria. O pano de fundo aqui \u00e9 a coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul pelos espanh\u00f3is e portugueses no s\u00e9culo 18, mostrando as miss\u00f5es jesu\u00edtas da Igreja Cat\u00f3lica ocorridas nesse per\u00edodo. Temos um peda\u00e7o da nossa hist\u00f3ria retratada. E muito bem retratada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Numa das cenas iniciais, vemos um grupo de \u00edndios jogando num rio um corpo de um padre amarrado numa cruz. Isso j\u00e1 simboliza o tema principal: A civiliza\u00e7\u00e3o dos \u00edndios da Am\u00e9rica do Sul atrav\u00e9s do cristianismo. Se por um lado, isso foi um meio de um grupo (os mission\u00e1rios jesu\u00edtas da Igreja Cat\u00f3lica, especificamente falando) tentar defender esse povo da coloniza\u00e7\u00e3o, por outro pode se julgar o mal que isso poderia ter sido na cultura dos \u00edndios, que praticamente foram obrigados a abandonar seus ritos e tradi\u00e7\u00f5es em troca de uma &#8220;civilidade&#8221;, que era o que o cristianismo significava na \u00e9poca. Civilidade esta, que era imposta pelos colonizadores tanto espanh\u00f3is como portugueses, justamente quem devastava as terras ind\u00edgenas e escravizavam os \u00edndios. A Miss\u00e3o relata atrav\u00e9s da hist\u00f3ria da Miss\u00e3o de S\u00e3o Carlos comandada pelo Padre Gabriel (Jeremy Irons) todos os meandros da coloniza\u00e7\u00e3o desenfreada da Am\u00e9rica do Sul. Podemos ver no filme a discrimina\u00e7\u00e3o que os \u00edndios sofriam dos colonizadores que os tratavam como meros &#8220;animais selvagens&#8221;; a escravid\u00e3o que foi imposta a uma enorme quantidade deles; a luta pelo controle de terras ind\u00edgenas colonizadas; a Igreja que praticamente os abandonou quando viu que estava perdendo o controle (leia-se poder) na regi\u00e3o, e simplesmente deixou acontecer os massacres; e, claro, os jesu\u00edtas que acabaram se voltando contra os colonizadores e contra a pr\u00f3pria Igreja, na busca pela prote\u00e7\u00e3o dos \u00edndios e de suas terras.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois dessa cena com o padre sendo jogado no rio, somos apresentados ao personagem de Jeremy Irons, padre Gabriel. Um mission\u00e1rio jesu\u00edta que vai tentar um contato com uma tribo de \u00edndios guaranis. Come\u00e7amos vendo a dificuldade que ele tem para chegar ao local onde est\u00e1 a tribo, quando tem que atravessar um rio, escalar uma cachoeira e depois adentrar a floresta. E \u00e9 quando Gabriel encontra os \u00edndios que temos uma cena onde j\u00e1 se destaca um dos elementos chaves do filme: A M\u00fasica. Tendo a dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o com eles, pela falta de conhecimento de seu dialeto, Gabriel apela para uma flauta. Ele toca uma m\u00fasica que desperta a curiosidade dos \u00edndios, que mesmo ap\u00f3s a ira de um deles (um \u00edndio mais velho da tribo quebra a tal flauta) acabam por aceitar a presen\u00e7a dele. O problema de comunica\u00e7\u00e3o que poderia haver, n\u00e3o existe mais; e esse \u00e9 o primeiro elo que se forma entre o padre e os \u00edndios. A import\u00e2ncia que a trilha sonora tem nessa cena \u00e9 a mesma que tem no filme como um todo. Sendo de assinatura do mestre Ennio Morricone, temos nessa pequena cena como essa trilha \u00e9 importante para se contar essa hist\u00f3ria, ou melhor, para se fortalecer as estruturas dessa hist\u00f3ria. O Padre usa a m\u00fasica para se mostrar aos \u00edndios como um &#8220;igual&#8221; e assim eles passam a confiar em algu\u00e9m de fora por causa dessa m\u00fasica. E em outras cenas, o inverso \u00e9 feito. Gabriel muitas vezes para tentar mostrar ao &#8220;povo civilizado&#8221; (tanto os colonizadores, como o representante da Igreja) que os \u00edndios n\u00e3o s\u00e3o &#8220;animais&#8221; como eram taxados, ele novamente usa a m\u00fasica. Numa dessas cenas, ele coloca em frente de uma plat\u00e9ia um pequeno \u00edndio cantando, e logo se v\u00ea como algumas pessoas ficam maravilhadas ao ouvir um \u00edndio cantando de tal forma. S\u00e3o cenas como essa que o filme mostra a m\u00fasica como sendo uma linguagem universal que ultrapassa barreiras culturais, de linguagens, de idiomas e dialetos. A trilha sonora \u00e9 um dos alicerces d&#8217;A Miss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outro alicerce \u00e9 o personagem Capit\u00e3o Rodrigo Mendonza, perfeitamente interpretado pelo ator Robert DeNiro. J\u00e1 com um rol de personagens marcantes, tanto antes desse filme como depois dele, De Niro tem mais um personagem forte em m\u00e3os que, como de costume, ele realiza muito bem. No in\u00edcio, Rodrigo \u00e9 um mercen\u00e1rio, um mercador de \u00edndios. Ele os captura na floresta e os vende como escravos para colonizadores. Aqui o vimos como um homem que faz seu trabalho com muita frieza, sem demonstrar muita emo\u00e7\u00e3o. Ele simplesmente cumpre a fun\u00e7\u00e3o, sem se preocupar com as conseq\u00fc\u00eancias ou com a uma suposta moralidade no que faz, mas que, ao mesmo tempo, se mostra muito apegado a sua fam\u00edlia, no caso, sua mulher Carlotta (Cherie Lungh &#8211; a \u00fanica personagem feminina com fala do filme) e seu irm\u00e3o mais novo Felipe (Aidan Quinn). A situa\u00e7\u00e3o dele come\u00e7a a se desenvolver quando sua mulher assume que se apaixonou pelo seu irm\u00e3o. Rodrigo n\u00e3o busca vingan\u00e7a ou algo que o valha. Ele simplesmente tenta a todo custo n\u00e3o se deixar cair qualquer sentimento negativo, pelo amor que sente do irm\u00e3o. Ou seja, aquele homem que se mostrava frio \u2013 pelo menos perante os \u00edndios que capturava \u2013 aqui mostra sua humanidade. E mesmo depois de ver a mulher e seu irm\u00e3o juntos na cama, Rodrigo, n\u00e3o os confronta, tenta ir embora, mas acaba tendo um duelo de vida e morte, o que resulta na morte de Felipe. Isso tudo est\u00e1 bem trabalhado na trama, e n\u00e3o soa como &#8220;novela mexicana&#8221;. Com a condu\u00e7\u00e3o correta do diretor Roland Joff\u00e9 e a interpreta\u00e7\u00e3o de De Niro tudo fica num patamar bem superior.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nAp\u00f3s a morte do irm\u00e3o, Rodrigo passa a se martirizar. N\u00e3o consegue viver com a dor, e a\u00ed que o Padre Gabriel o encontra novamente. Ele o convence a ir para a Miss\u00e3o de S\u00e3o Carlos ajudar os \u00edndios, e fazer algo por algu\u00e9m, principalmente para aquele povo, em que ele, Rodrigo, sempre condenou no passado. Temos ent\u00e3o a cena da reden\u00e7\u00e3o dele, que \u00e9 \u00f3tima e com uma bela conclus\u00e3o. Para chegar \u00e0 tribo de guaranis, ele leva consigo um peso amarrado ao corpo. Esse peso representando o peso do passado, da culpa que ele carrega pela vida que levava e tamb\u00e9m pela morte do irm\u00e3o. Mesmo com toda dificuldade de chegar \u00e0 tribo, com rio, cachoeira e uma floresta densa pelo caminho, ele continua a carregar o tal peso, mesmo com reprova\u00e7\u00e3o por parte dos outros Padres jesu\u00edtas que o acompanham. Um deles (interpretado pelo ator Liam Neeson \u2013 aqui no in\u00edcio de sua carreira) at\u00e9 tenta o livrar desse peso, mas Rodrigo se nega a deix\u00e1-lo para tr\u00e1s. E ao chegar ao topo da cachoeira, acontece a conclus\u00e3o do seu mart\u00edrio quando ele se depara com os \u00edndios. Vemos juntos os desempenhos de Robert DeNiro com a trilha de Morricone. O jeito que Rodrigo chora e ri ao mesmo tempo quando se livra do peso pelas m\u00e3os dos \u00edndios \u00e9 comovente, e com a m\u00fasica de Ennio ao fundo, forma o melhor momento do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois dessa reden\u00e7\u00e3o de Rodrigo, e com ele se tornando um dos padres jesu\u00edtas da Miss\u00e3o de S\u00e3o Carlos, o que se segue no filme \u00e9 a disputa que tomou conta da regi\u00e3o. Colonizadores portugueses e espanh\u00f3is, tentando acabar com as miss\u00f5es Jesu\u00edtas. Afinal, as miss\u00f5es davam voz e terra aos \u00edndios, coisa que a coloniza\u00e7\u00e3o desenfreada que ocorria por aqui n\u00e3o poderia permitir. A Igreja Cat\u00f3lica comparece no meio dessa disputa, atrav\u00e9s de um representante vindo da Europa. Uma autoridade da Igreja que vem incumbido de dar uma solu\u00e7\u00e3o para o conflito. O personagem mostra certa dualidade. Ele v\u00ea a import\u00e2ncia das Miss\u00f5es para o povo ind\u00edgena, mas ao mesmo tempo v\u00ea que devido aos v\u00e1rios interesses em jogo n\u00e3o conseguiria evitar o conflito, e acaba por &#8220;lavar as m\u00e3os&#8221;. Assim o massacre dos \u00edndios come\u00e7a. Antes das cenas de batalhas, temos um belo di\u00e1logo entre Rodrigo e Gabriel. Rodrigo quer deixar de ser padre para poder enfrentar a luta armada junto com os \u00edndios, e Gabriel se recusa a entrar em guerra ou dar permiss\u00e3o para que Rodrigo fa\u00e7a isso. Da\u00ed surge uma quebra entre os jesu\u00edtas, j\u00e1 que enquanto Gabriel vai simplesmente realizar mais uma missa tendo como plat\u00e9ia mulheres, crian\u00e7as e idosos da tribo, Rodrigo e todos os outros jesu\u00edtas formam com os homens da aldeia um exercito para tentar enfrentar os soldados colonizadores. As cenas de batalha ilustram bem a covardia em que ocorriam nesses confrontos. Os \u00edndios contando com poucos recursos, enquanto os soldados colonizadores tinham toda uma estrutura e, principalmente, as armas de fogo. Comparado com filmes atuais, essa batalha n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o violenta, mas ainda sim se mostra bem cruel.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nA Miss\u00e3o se posiciona como um &#8220;filme den\u00fancia&#8221;, assumindo certas posi\u00e7\u00f5es extremas, como tratar os jesu\u00edtas sendo os her\u00f3is \u2013 n\u00e3o vemos ningu\u00e9m ruim no lado deles &#8211; e os colonizadores sendo os vil\u00f5es \u2013 n\u00e3o vimos ningu\u00e9m bom no lado deles. E at\u00e9 a Igreja Cat\u00f3lica, que n\u00e3o tomou uma decis\u00e3o feliz ao &#8220;lavar as m\u00e3os&#8221; em rela\u00e7\u00e3o ao conflito, tamb\u00e9m \u00e9 poupada. Mas como o foco seria a situa\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, principalmente, o massacre que ocorreu com eles, o filme optou por n\u00e3o se por com um olhar isento, mas para se colocar assim, teve aqui uma engenhosa manobra narrativa, quando vemos que tudo \u00e9 contado por um dos personagens. Tudo ali est\u00e1 sendo visto com um olhar bem espec\u00edfico de algu\u00e9m que participou de tudo e que reprova tudo que aconteceu ali. Tanto que a primeira e a \u00faltima imagem do filme \u00e9 justamente o olhar de reprova\u00e7\u00e3o desse personagem para com a hist\u00f3ria. S\u00f3 que se por um lado a situa\u00e7\u00e3o dos \u00edndios era o foco, por outro lado, os mesmos \u00edndios n\u00e3o demonstraram muita empatia na tela. O diretor Rolland Joff\u00e9 resolveu n\u00e3o usar atores profissionais para interpret\u00e1-los. Como era o realismo que ele buscava, ent\u00e3o aqui foi usado uma tribo de verdade &#8211; os Waunana, do sudoeste da Col\u00f4mbia &#8211; para interpretarem os \u00edndios guaranis. Assim n\u00e3o temos um personagem dentre eles que chame maior aten\u00e7\u00e3o. Tem uma tentativa com um pequeno \u00edndio que segue o Robert De Niro, e um outro que comanda a tribo, mas pouco se consegue nesse sentido. No geral, se tem a impress\u00e3o que os \u00edndios s\u00e3o &#8220;parte do cen\u00e1rio&#8221;. Isso acabou se voltando a favor do filme, j\u00e1 que como disse, o foco era a situa\u00e7\u00e3o dos \u00edndios e situa\u00e7\u00e3o deles era essa na \u00e9poca: Eles n\u00e3o tinham import\u00e2ncia, e sim essa disputa que acontecia em nome deles e das suas terras.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para finalizar: O filme, na \u00e9poca de lan\u00e7amento chamou aten\u00e7\u00e3o, ganhando at\u00e9 a Palma de Ouro de Cannes. Atualmente, \u00e9 pouco lembrado. Talvez pelo fato do diretor Rolland Joff\u00e9 n\u00e3o ter feito nada relevante depois dele, mas precisamos prestar aten\u00e7\u00e3o em A Miss\u00e3o, principalmente n\u00f3s, j\u00e1 que conta uma hist\u00f3ria envolvendo a coloniza\u00e7\u00e3o do nosso continente. Embora como &#8220;cinema&#8221; cometa deslizes, \u2013 como, j\u00e1 citado, n\u00e3o olhar para essa hist\u00f3ria com um olhar mais isento \u2013 mas como &#8220;aula de hist\u00f3ria&#8221;, cumpre muito bem a fun\u00e7\u00e3o. Belas imagens, dire\u00e7\u00e3o de arte caprichada, trilha sonora inesquec\u00edvel, \u00f3timas interpreta\u00e7\u00f5es, uma boa narrativa. Se toda aula de hist\u00f3ria fosse assim, com uma trilha de Ennio Morricone no fundo e interpreta\u00e7\u00e3o de Robert De Niro, evas\u00e3o escolar seria algo que n\u00e3o existiria mais.<\/p>\n<p>3\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Jailton Rocha<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Os acontecimentos desta hist\u00f3ria s\u00e3o verdadeiros e ocorreram nas fronteiras da Argentina, Paraguai e Brasil no ano de 1750&#8221; \u00e9 a frase que abre A Miss\u00e3o. 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