{"id":2123,"date":"2008-10-31T18:32:27","date_gmt":"2008-10-31T20:32:27","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=2123"},"modified":"2008-10-31T18:32:27","modified_gmt":"2008-10-31T20:32:27","slug":"o-filme-de-nick-win-wenders-nicholas-ray-1980","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/10\/31\/o-filme-de-nick-win-wenders-nicholas-ray-1980\/","title":{"rendered":"O Filme de Nick (Wim Wenders &#038; Nicholas Ray, 1980)"},"content":{"rendered":"<div style=\"width: 476px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"media\" src=\"http:\/\/i539.photobucket.com\/albums\/ff358\/danfou\/vlcsnap-30201.png?t=1225485485\" alt=\"vlcsnap-30201.png picture by danfou\" width=\"466\" height=\"258\" \/><p class=\"wp-caption-text\">!<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que Ray e Wenders tramam em Lightning Over Water \u00e9 impressionante, visceral e provavelmente inigual\u00e1vel. Se o fasc\u00ednio do cineasta alem\u00e3o pela morte do Cinema tomaria-lhe a obra anos mais tarde, sua melhor e mais consistente observa\u00e7\u00e3o sobre o tema continua aqui, neste pequeno exerc\u00edcio conceitual em que ambos exploram os limites da m\u00eddia como forma de registrar os \u00faltimos momentos em vida de Nick, pouco antes de ser abatido pelo c\u00e2ncer que lhe fragilizava h\u00e1 anos &#8211; a morte literal n\u00e3o \u00e9 da pr\u00f3pria arte, mas de um de seus mais importantes fundamentadores, cabe ent\u00e3o \u00e0 dupla radicalizar est\u00e9tica e narrativa para provocar a ruptura do classicismo t\u00e3o de perto sonhado em deixar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">H\u00e1 muito pouco de par\u00e2metro art\u00edstico se comparado O Filme de Nick a qualquer outro filme feito at\u00e9 ent\u00e3o. O emblem\u00e1tico esquema de filmagens intercaladas, dieg\u00e9ticas e extra-dieg\u00e9ticas, em pel\u00edcula ou v\u00eddeo, naturalmente metaling\u00fc\u00edsticas ou plenamente ensaiadas, como se surgissem como um novo em meio ao processo maquiav\u00e9lico de manipula\u00e7\u00e3o, utiliza muito das experimenta\u00e7\u00f5es de Welles em seu feroz Verdades e Mentiras. Wenders e Ray deixam claro jamais se importarem com o quanto de ver\u00eddico restar\u00e1 ao corte final \u2013 Ray sequer participou da edi\u00e7\u00e3o, por motivos \u00f3bvios \u2013 e nem mesmo isso \u00e9 necess\u00e1rio para transform\u00e1-lo em um melhor ou pior filme. Se vemos Ray esbravejar enquanto acorda ou participar de um sonho de Wenders como figura m\u00edstica, \u00e9 natural que tudo fa\u00e7a parte da visceralidade conceitual, do choque.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 choque duplo, esta ode pessoal \u2013 fica dif\u00edcil, na realidade, separar o que \u00e9 de Wenders e o que \u00e9 de Ray, ao passo que Ray \u00e9 o pr\u00f3prio filme &#8211; ao diretor de t\u00e3o importantes filmes como No Sil\u00eancio da Noite, Johnny Guitar ou Sangue Sobre a Neve. Ao mesmo passo em que acompanha-se uma impressionante cole\u00e7\u00e3o de registros de ideais, pensamentos e, no fundo, um verdadeiro acerto de contas de Ray, uma figura marcada pelo mau-trato do tempo \u2013 sua apar\u00eancia, em certos momentos, \u00e9 assustadora, desgastada, cansada, ap\u00e1tica, e sempre salientada pela c\u00e2mera abusivamente, muito pr\u00f3xima ao pensamento de envelhecimento, de morte, que, afinal, era seu interesse \u2013 vive-se um processo de constante readapta\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem, de cuja origem \u00e9 um mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 verdadeiramente imposs\u00edvel separar a verdade da encena\u00e7\u00e3o em Nick\u2019s Film, mas tampouco importa. O c\u00e2ncer de Ray \u00e9 verdadeiro, e suficiente. Seus gestos, olhares, voz envelhecida, fei\u00e7\u00e3o destru\u00edda pela doen\u00e7a, mas sem jamais largar o cigarro \u2013 a pose cl\u00e1ssica de Ray, encarando os atores segurando o pito, \u00e9 cena marcante do filme dentro do filme, enquanto ele mesmo tenta dar prosseguimento a testes de elenco para o filme que, segundo o material restante, pretendia fazer \u2013 s\u00e3o o pr\u00f3prio filme. Tudo est\u00e1 ali, em um plano, um gesto ou olhar. Ao afirmar, durante uma exibi\u00e7\u00e3o de The Lusty Man, que jamais trabalhava com roteiro pronto, que seus finais ditavam o come\u00e7o, logo dava a dica do que realmente move o filme. Ele sabia estar \u00e0 beira da morte o tempo todo, tanto \u00e9 que este foi o fato que lhe mobilizou a chamar Wenders para o projeto. Sabia como terminaria, e assim pensava o resto. Se pode parecer um abuso de Wenders permitir t\u00e3o maldosas imagens ap\u00f3s a morte do Mestre, esquece-se a moral. Fica clara a necessidade em se preservar os desejos de Ray, tanto quanto \u00e9 vis\u00edvel que a alma do projeto era simplesmente ele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se, ao final, a experi\u00eancia \u00e9 desgastante, passando-se quase que por um processo de anti-filme &#8211; O Filme de Nick \u00e9 lento, esquisito e provavelmente muito pouco pensado narrativamente -, temos certeza de que tudo era proposital. Pensa-se o Cinema de outro jeito, vive-se outro momento, uma \u00fanica experi\u00eancia. \u00c9 muito menos um filme do que Cinema e sua intersec\u00e7\u00e3o com a vida, com o ef\u00eamero, pura e simplesmente. Wenders faria logo em seguida o genial O Estado das Coisas, dessa vez com Samuel Fuller \u2013 se O Filme de Nick \u00e9 a morte, O Estado das Coisas s\u00f3 pode ser o funeral. Poderia ter parado por a\u00ed. J\u00e1 havia discursado\u2013 e muito \u2013 sobre o fim dessas coisas, e o fruto da insist\u00eancia fora bem maior do que o imaginado. Afinal, de tanto falar sobre a morte do Cinema, Wenders acabaria matando o seu pr\u00f3prio. \u201cCut\u201d, Wenders. Jamais esque\u00e7a a hora de cortar \u2013 at\u00e9 na morte, Nick Ray ensina.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que Ray e Wenders tramam em Lightning Over Water \u00e9 impressionante, visceral e provavelmente inigual\u00e1vel. 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