{"id":210,"date":"2008-05-20T01:29:06","date_gmt":"2008-05-20T03:29:06","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=210"},"modified":"2008-05-20T01:29:06","modified_gmt":"2008-05-20T03:29:06","slug":"vicio-frenetico-abel-ferrara-1992","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/20\/vicio-frenetico-abel-ferrara-1992\/","title":{"rendered":"V\u00edcio Fren\u00e9tico (Bad Lieutenant &#8211; Abel Ferrara, 1992)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/jordanhoffman.com\/wp-content\/uploads\/bad_lieutenant_movie_image_harvey_keitel_02.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">V\u00edcio Fren\u00e9tico \u00e9 como o choro final de Harvey Keitel: seco; duro; sufocado; do\u00eddo. Desde o primeiro momento, Abel n\u00e3o mede gestos e nem faz concess\u00f5es, de forma semelhante ao que realiza em todo grande filme seu [e que filme de Ferrara n\u00e3o \u00e9 grande, eu perguntaria]. \u00c9 um cinema de extremos, onde as portas para o c\u00e9u e para o inferno ficam frente a frente no corredor do purgat\u00f3rio. E o que parece impressionante em um momento, como a cena de abertura, quando, depois de deixar seus filhos na porta da escola, com o carro ainda parado em fila dupla, o Tenente viciado e desamparado puxa um papelote de coca pra cheirar, acaba se tornando uma imagem corriqueira depois que outra, e mais outra, e mais outra t\u00e3o ou mais intensas v\u00eam pra enterrar os conceitos de limites que constru\u00edmos para o pr\u00f3prio filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao mesmo passo que fotografa uma verdadeira descida ao inferno, onde o mal \u00e9 combatido com o mal e o bem fica muito mais como uma grande ilus\u00e3o intelectual, Ferrara transforma este V\u00edcio Fren\u00e9tico em um filme de dupla personalidade \u2013 mas sem distingui-las jamais. E tudo n\u00e3o passa de um reflexo da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o do protagonista, que em sua doen\u00e7a esconde todo o penar que lhe castiga, mas que permanece sufocando e matando por dentro \u2013 e \u00e9 uma tremenda sacanagem que a exterioriza\u00e7\u00e3o disso tudo seja feita justamente quando consegue liberar seus dem\u00f4nios, tanto na cena da igreja, onde imagina Jesus Cristo e implora-lhe perd\u00e3o, quanto na pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o de libertar das conseq\u00fc\u00eancias aqueles jovens criminosos que estupram a freira \u2013 num misto de boa e m\u00e1 a\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o poderia ser mais fiel \u00e0 dualidade de sentimentos que fazem dele um dos anti-her\u00f3is mais complexos do cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E essa grande ilus\u00e3o entre o castigo e a reden\u00e7\u00e3o \u2013 que em muitos momentos \u00e9 tratada como tal, principalmente na constru\u00e7\u00e3o de toda a atmosfera on\u00edrica evocada por um ou outro elemento de cena, quase sempre a ilumina\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 registrada com uma frieza assustadora, como se o pr\u00f3prio personagem impusesse \u00e0 c\u00e2mera os limites para a disseca\u00e7\u00e3o de sua dor e de seu mergulho predestinado ao afogamento. E ainda assim o filme consegue ser de uma intensidade dominadora, e talvez seja por isso que o final, totalmente trai\u00e7oeiro, deixe uma sensa\u00e7\u00e3o t\u00e3o desconfort\u00e1vel, ainda que seja sabido que a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o nada mais \u00e9 do que uma concretiza\u00e7\u00e3o daquilo que o homem havia tentado fazer consigo o filme todo, s\u00f3 que n\u00e3o conseguia por a a\u00e7\u00e3o vir de dentro, de um ponto que j\u00e1 n\u00e3o acompanhava mais aquela caminhada desorientada e, portanto, n\u00e3o respondia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pode-se dizer com facilidade que V\u00edcio Fren\u00e9tico resume em pr\u00e1tica grande parte do cinema de Ferrara &#8211; embora n\u00e3o seja sua maior obra-prima, posto que \u00e9 seguro a New Rose Hotel, a maior extremidade do experimentalismo com a tenuidade da imagem e um filme t\u00e3o transgressor quanto fundamentador de conceitos, todos estes ainda inaplic\u00e1veis ao cinema contempor\u00e2neo \u2013 e que dever\u00e3o sofrer com isso por mais uns 30 anos, pelo menos. Mas acho que nem mesmo todo o conjunto consegue ser t\u00e3o expressivo e melanc\u00f3lico quanto o mon\u00f3logo que a amiga viciada de Keitel profere em sua \u00faltima participa\u00e7\u00e3o no filme, um discurso que praticamente define em duas d\u00fazias de palavras o que muitos realizadores tentaram transmitir com uma carreira inteira \u2013 e at\u00e9 mesmo Ferrara provavelmente nunca havia sido t\u00e3o claro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Isso, junto do momento em que o diretor questiona a culpa e o perd\u00e3o cat\u00f3licos, naquele encontro traum\u00e1tico entre a freira e o protagonista na igreja, est\u00e3o certamente entre as coisas mais marcantes que eu j\u00e1 vi em um filme. &#8220;Jesus transformou a \u00e1gua em vinho. Eu deveria ter transformado esperma amargo em esperma f\u00e9rtil, \u00f3dio em amor, e talvez ter salvado a alma deles. Eles n\u00e3o me amaram mas eu deveria t\u00ea-los amado&#8221;.\u00a0 Sufoca apenas reproduzir isso aqui pro computador. Imagina s\u00f3, ent\u00e3o, a cabe\u00e7a de quem escreveu uma coisa dessas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00edcio Fren\u00e9tico \u00e9 como o choro final de Harvey Keitel: seco; duro; sufocado; do\u00eddo. 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