{"id":208,"date":"2008-05-19T13:29:48","date_gmt":"2008-05-19T15:29:48","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=208"},"modified":"2008-05-19T13:29:48","modified_gmt":"2008-05-19T15:29:48","slug":"a-hora-do-lobo-ingmar-bergman-1968","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/19\/a-hora-do-lobo-ingmar-bergman-1968\/","title":{"rendered":"A Hora do Lobo (Vargtimmen &#8211; Ingmar Bergman, 1968)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/www.mgm.com\/mgm\/images\/posterart\/HOURWOLF-00AA1-poster_hires.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>\u201cOs antigos a chamavam de \u2018a hora do lobo\u2019. \u00c9 a hora em que a maioria das pessoas morre\u2026 e a maioria nasce. Nesta hora, os pesadelos nos invadem\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Exatamente na metade do filme, quando o insone pintor Johan Borg (Max Von Sydow) fala sobre a hora lupina \u00e0 sua esposa Alma (Liv Ullmann), sob a luz fremente de um \u00fanico palito de f\u00f3sforo, Bergman finalmente nos engole para o outro lado do redemoinho sobre o qual apenas circund\u00e1vamos at\u00e9 ent\u00e3o. E o filme todo \u00e9 como um singrar entorpecido em dire\u00e7\u00e3o aos n\u00facleos subterr\u00e2neos da mente, dilu\u00edda, aqui, na solvente atmosfera da madrugada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Come\u00e7o dizendo que A Hora do Lobo \u00e9 um dos meus filmes favoritos de sempre, e o melhor do sueco doido em quest\u00e3o. N\u00e3o apenas pelo salto incontido sobre o surrealismo, mas por manipular como nenhum outro os dem\u00f4nios e pesadelos de um personagem, transformando-o num mergulho in\u00e9dito (ao menos nunca visto t\u00e3o intensamente) adentro dos traumas, dos conflitos, dos medos e, essencialmente, da solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque mais que pela paz ou pelo bem do seu trabalho, o isolamento naquela ilha traz Johan para um isolamento em si pr\u00f3prio. Da\u00ed que \u00e9 irrelevante a exist\u00eancia ou dos \u201ccanibais\u201d, ou da sua mulher ou at\u00e9 dele mesmo quando tudo se afunila (ou se \u201cexpande\u201d, que pode ser o termo correto) num verdadeiro universo mental, que embora chamado de \u201cirreal\u201d, talvez seja o n\u00edvel mais puro e nuclear de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E uma das coisas mais not\u00e1veis em A Hora do Lobo \u00e9 a indefini\u00e7\u00e3o de quando, precisamente, come\u00e7a o aluc\u00ednio, o vazamento da mat\u00e9ria-prima flutuante dos sonhos para a densa materializa\u00e7\u00e3o na tela. Isso se de fato come\u00e7a, ou ainda se est\u00e1 ali desde o in\u00edcio\u2026 assim como Bergman n\u00e3o deixa nenhum detalhe que decida derradeiramente que Alma viva apenas na imagina\u00e7\u00e3o de Johan, ou que Johan s\u00f3 exista na inconsci\u00eancia de Alma (cujo nome, ali\u00e1s \u2013 tamb\u00e9m utilizado na obra-prima Persona \u2013 j\u00e1 pressup\u00f5e a subdivis\u00e3o de uma \u00fanica pessoa em duas, ou se considerarmos os moradores do castelo, v\u00e1rias).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Basicamente tudo se esclareceria se soub\u00e9ssemos quem, afinal, escreveu aquele di\u00e1rio. Mas acontece que por natureza A Hora do Lobo \u00e9 um filme de sombras, e Bergman est\u00e1 sempre interessado em perguntas, n\u00e3o em respostas, de modo que a resume grosseiramente a mera pretens\u00e3o de \u2018decifrar\u2019 a obra (e na verdade qualquer outro filme, porque cinema \u00e9 feito pra se sentir, n\u00e3o para se decompor como a uma equa\u00e7\u00e3o). Respostas, neste caso, s\u00e3o a mais s\u00f3lida e imperme\u00e1vel imposi\u00e7\u00e3o de limites; cercanias num terreno onde a imagina\u00e7\u00e3o deve ser livre para se alastrar a galopes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De todo modo (e se j\u00e1 levemente percorrida at\u00e9 aqui por varizes de trincos), a identidade deste protagonista secreto se estilha\u00e7a no momento em que Alma p\u00f5e os olhos no caderno de Johan (com a ajuda da velha do chap\u00e9u, originalmente um dos dem\u00f4nios do seu marido), e \u00e9 precisamente quando a manipula\u00e7\u00e3o do tempo (este deus absoluto) \u00e9 disparada numa pot\u00eancia at\u00e9 hoje desconhecida e talvez irrepet\u00edvel na hist\u00f3ria do cinema (apesar de David Lynch ter feito um trabalho inexplic\u00e1vel em Imp\u00e9rio dos Sonhos, mas isso \u00e9 outra coisa). Porque A Hora do Lobo \u00e9 todo sobre o tempo projetado na l\u00e2mina da mente e refratado em uma nuvem de peda\u00e7os. Tax\u00e1-lo simplesmente de \u201cn\u00e3o-linear\u201d, ali\u00e1s, \u00e9 quase um insulto, como pedir para que o pr\u00f3prio Bergman des\u00e7a e lhe assombre \u00e0 noite, e quem conhece sabe que o diretor sueco \u00e9 um fantasma eterno e onipresente sobre quem o assiste (alguns momentos do pr\u00f3prio A Hora do Lobo s\u00e3o especialmente traum\u00e1ticos).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mesmo que n\u00e3o esteja saliente como mais tarde, uma delicada n\u00e9voa de pesadelo j\u00e1 pesa sobre o filme desde o in\u00edcio, mostrando-se mais forte durante a cena do jantar. De cara Bergman entorpece o espectador numa ciranda ao redor da mesa, deformando e diluindo os rostos como se uma pintura ainda fresca de Johan (o que, por um lado, n\u00e3o deixa de ser literalmente verdade) fosse girada sobre o pr\u00f3prio eixo. A partir da\u00ed, a imagem quase sempre se solvendo \u00e9 uma preven\u00e7\u00e3o de que os sentidos e os valores baseados num mundo concreto come\u00e7am a se desmanchar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 assim pela cad\u00eancia c\u00e9lere dos di\u00e1logos, dos movimentos de c\u00e2mera abruptos e dos closes opressivos, resultando num efeito de quase vertigem como que a noite vista detr\u00e1s dos olhos de Johan (embora a c\u00e2mera n\u00e3o seja propriamente subjetiva). O que se segue \u00e9 uma madrugada envolta num manto surrealista todo baseado no comportamento bizarro dos moradores do castelo. O teatro de marionetes inclusive brinca com as no\u00e7\u00f5es do espectador de at\u00e9 quando as proje\u00e7\u00f5es da mente invadem o terreno do concreto, e neste caso \u00e9 o pr\u00f3prio Bergman que comp\u00f5e esta cena assumidamente ficcional, na luz que se apaga sozinha como por ordem do \u2018diretor\u2019, na marionete viva, na m\u00fasica de uma banda ou aparelho inexistente (de novo, o pr\u00f3prio Lynch faria algo semelhante \u2013 mas bem mais evidente \u2013 no clube do sil\u00eancio de Cidade dos Sonhos). \u00c9 ele quem convida a nos soltarmos de quaisquer amarras ao sobrepor o n\u00edvel \u2018cinema\u2019 ao n\u00edvel do sonho e da imagina\u00e7\u00e3o, forjando-os indissoci\u00e1veis a partir daqui. Ou se cr\u00ea no cinema como extens\u00e3o do imagin\u00e1rio, ou se abandona A Hora do Lobo.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Vargtimmen<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E o filme \u00e9 intensamente perpetrado de um feiti\u00e7o, como que cercado de bruxos, c\u00edrios e pentagramas. Porque, sob a luz encantada da hora lupina, as coisas mudam de cor, de forma, a densidade das massas toma outros valores, as liga\u00e7\u00f5es com o mundo real s\u00e3o corrompidas. Quando \u201cVargtimmen\u201d se acende na tela, um \u00faltimo resto de sanidade se apaga.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Perdidos na escurid\u00e3o dessa hora, Alma e Johan conversam e conflitam traumas como se mem\u00f3rias perigosas fossem todas trazidas de volta pondo a mente \u00e0 beira de uma eclos\u00e3o. A cena catal\u00edtica de A Hora do Lobo envolve exatamente o pior dos fantasmas de Johan: a inf\u00e2ncia, tamb\u00e9m angular em toda produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica do pr\u00f3prio Ingmar Bergman (sabe-se que Bergman sofreu demais nas m\u00e3os do pai, um pastor luterano fan\u00e1tico). A confiss\u00e3o do epis\u00f3dio do arm\u00e1rio \u00e9 uma confiss\u00e3o do diretor, e a morte do garoto, uma tentativa de exorcismo (o que j\u00e1 \u00e9 praticamente um resumo do que guiaria sua filmografia).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cena em quest\u00e3o \u00e9 das coisas mais perturbadoras e insuportavelmente tensas j\u00e1 filmadas. E \u00e9 lindo. Pescando num golfo, Johan se v\u00ea extremamente incomodado pela presen\u00e7a de uma crian\u00e7a. O garoto se aproxima, observa o quadro e o cavalete com certa curiosidade, conta os peixes fisgados, mexe nas botas, troca olhares indecifr\u00e1veis com o pintor. Quando ele simplesmente p\u00e1ra nas costas de Johan, o crescente de um zumbido laminal estoura na trilha. O contraste entre a imobilidade dos dois e a acelera\u00e7\u00e3o sonora j\u00e1 quase navalhando os ouvidos apenas torna tudo ainda mais inc\u00f4modo, angustiante, nocivo. E a seq\u00fc\u00eancia da luta \u00e9 especialmente t\u00f3xica para os sentidos. H\u00e1 toda uma harmonia perfeitamente sincronizada entre a a\u00e7\u00e3o e a trilha, que golpeia os ouvidos conforme Bergman agride nossas retinas. Mas o teor realmente assombroso de toda a cena \u00e9 a vis\u00e3o inexplic\u00e1vel do garoto afundando e emergindo na \u00e1gua igualmente morta e com um aspecto grotesco de \u00f3leo diesel (a fotografia do lend\u00e1rio Sven Nykvist joga a maior parte dos tons de cinza no lixo). E o sueco decreta: os por\u00f5es da mem\u00f3ria s\u00e3o sempre os piores cadafalsos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir de ent\u00e3o Johan submerge-se totalmente, embebe-se no visgo dos pr\u00f3prios traumatismos e afoga-se na saliva dos seus dem\u00f4nios, reencontrados, ali\u00e1s, um a um pelo seu percurso doentio atrav\u00e9s do castelo. E \u00e9 impressionante a precis\u00e3o de como a l\u00f3gica torpe de um pesadelo tenha sido representada. As peculiaridades dos seres, a r\u00e9gia toda deformada dos di\u00e1logos e o sopro medi\u00fanico do lugar s\u00e3o pilares de uma constru\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica sem nenhum paralelo, transformando o ter\u00e7o final de A Hora do Lobo numa das experi\u00eancias cinematogr\u00e1ficas mais intensas e absurdas \u00e0s quais algu\u00e9m pode ser submetido.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E a imagem, a partir daqui, toma uma propor\u00e7\u00e3o imperativa, mostrando-se inesquec\u00edvel durante v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es criadas pelo diretor. A sucess\u00e3o de a\u00e7\u00f5es no limiar do t\u00e9trico e do divertido, do repulsivo e do sedutor, do melanc\u00f3lico ao col\u00e9rico (e Bergman realmente patrola as fronteiras das sensa\u00e7\u00f5es; aproxima, mistura e dissolve os extremos numa massa homog\u00eanea) termina por compor uma tatuagem na pele da mem\u00f3ria, e o sentimento evocado ao se olhar para este painel \u00e9 qualquer coisa \u00e0 qual ningu\u00e9m p\u00f4de, ainda, nomear.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que se segue \u00e9 uma queda livre e irrevers\u00edvel no abismo interior. E no fio do v\u00e9rtice, aparentemente morta sobre uma mesa, nua e linda, iluminada apenas por uma l\u00e2mpada incandescente, est\u00e1 uma mulher. O olho do v\u00f3rtex, o ponto de uni\u00e3o do verso e antiverso desta mente que se encontra em pleno desmoronamento. Ver\u00f4nica Vogler \u00e9 um portal, uma passagem s\u00f3 de ida para outro mundo. E partindo da esquizofrenia do pr\u00f3prio filme, n\u00e3o se sabe ao certo se \u00e9 a op\u00e7\u00e3o definitiva de Johan pelo pesadelo ou finalmente sua fuga dele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 lindo, apesar de todo o horror, da viol\u00eancia, de toda tristeza impl\u00edcita na contempla\u00e7\u00e3o quase s\u00e1dica deste m\u00f3rbido espet\u00e1culo do colapso de uma constela\u00e7\u00e3o mental; \u00e9 lindo pensar que um filme que comece e termine num tom documental tenha sido inteiro concebido no interior de um sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">ou: <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/06\/11\/a-hora-do-lobo-ingmar-bergman-1968-2\/\">Hora do Lobo, A<\/a> (Ingmar Bergman, 1968) &#8211; S\u00edlvio Tavares &#8211; 4\/4<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOs antigos a chamavam de \u2018a hora do lobo\u2019. \u00c9 a hora em que a maioria das pessoas morre\u2026 e a maioria nasce. 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