{"id":201,"date":"2008-05-16T21:01:55","date_gmt":"2008-05-16T23:01:55","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=201"},"modified":"2008-05-16T21:01:55","modified_gmt":"2008-05-16T23:01:55","slug":"os-indomaveis-james-mangold-2007","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/os-indomaveis-james-mangold-2007\/","title":{"rendered":"Os Indom\u00e1veis (James Mangold, 2007)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.iwatchstuff.com\/2007\/04\/20\/yuma-2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"299\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Vou lhe confiar um segredo: tenho um problema seri\u00edssimo com filmes. Nem sei se poderia falar disso assim, vai que se espalhe? Mas preciso dizer a algu\u00e9m. Tenho um problema realmente grave com filmes. Na grande maioria das vezes, sinto-me tomado de um desejo torpe de ver espalhadas pelo ch\u00e3o as v\u00edsceras daquele personagem doce e ing\u00eanuo, quase sempre idealizado como meio quilo de uns retalhos ensang\u00fcentados, enquanto o pretenso a\u00e7ougueiro em quest\u00e3o, a quem eu devia ter odiado, deixa a cena com um brilho no olhar, um sorriso no rosto, e uns peda\u00e7os viscosos de massa encef\u00e1lica agarrados aos vincos das solas dos seus sapatos, produzindo um hipnotizante som de esguicho enquanto se afastam. Revoltante, eu sei. Imagine voc\u00ea a baixeza, a sordidez subterr\u00e2nea que me castra. \u00c9 desumano, \u00e9 doentio, este meu problema com filmes. Afinal, d\u00e1 pra acreditar que isso nunca acontece?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os Indom\u00e1veis (3:10 to Yuma) \u00e9 um remake de Galante e Sanguin\u00e1rio (Delmer Daves, 1957), dirigido por James Mangold (Johnny &amp; June), com um roteiro a tr\u00eas baseado num conto de Elmore Leonard. No filme, Daniel Evans (Christian Bale), sob o n\u00f3 de uma d\u00edvida que pode lhe tirar a casa, aceita, por 200 d\u00f3lares, integrar a escolta do perigoso Ben Wade (Russel Crowe), um assaltante de dilig\u00eancias que precisa pegar o trem das 3:10 s\u00f3 de ida para Yuma, onde ser\u00e1 enforcado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O primeiro elemento que chama a aten\u00e7\u00e3o em Os Indom\u00e1veis \u00e9 o aprisionamento do espectador no personagem de William (Logan Lerman), filho mais velho de Dan Evans. William \u00e9 um tipo extremamente comum em westerns: o adolescente impulsivo que se sente esmagado pelo quase dever de se tornar homem, no caso, com dois modelos distintos entre os quais acha que precisa escolher: seu pai, e o assassino. O diferencial, aqui, \u00e9 o modo como James Mangold usa William, colocando seus olhos entre a lente da c\u00e2mera e o deserto. Atrav\u00e9s deste filtro, Evans \u00e9 um rancheiro miser\u00e1vel, aleijado e numa posi\u00e7\u00e3o de autoridade sobre a fam\u00edlia que simplesmente n\u00e3o deveria ser dele. Ben Wade, por sua vez, \u00e9 livre, gentil e fascinante por esconder sob si hist\u00f3rias de tudo que William imagina existir al\u00e9m dos limites do peda\u00e7o de terra do seu pai. Evans \u00e9 digno de pena, Wade, de admira\u00e7\u00e3o. O fato de Evans ser um pobre coitado, por\u00e9m, pouco ajuda para que o espectador se compade\u00e7a por ele, mas \u00e9 muito eficiente em causar uma repulsa, em catalisar um asco que se conecta a um sentimento de piedade de que teria sido melhor, pobre diabo, se ele tivesse morrido ainda na Guerra Civil. O pr\u00f3prio Ben Wade diz, em refer\u00eancia a um de seus homens mortos no assalto: \u201cTommy era um fraco. Tommy era est\u00fapido. Tommy est\u00e1 morto\u201d. N\u00e3o h\u00e1 lugar para fracos no Oeste e \u00e9 por esta mesma cren\u00e7a que William amaldi\u00e7oa o teto sob o qual nasceu e jura a si mesmo ser um homem muito melhor que o pai, nem que este homem seja Ben Wade, o criminoso, o assassino, o que tem duas pernas, o que pode alimentar sua m\u00e3e e seu irm\u00e3o. O efeito de Wade sobre William come\u00e7a logo quando o primeiro mata duas pessoas no fim do assalto \u00e0 dilig\u00eancia, e este \u00faltimo, ignorando a ordem do seu pai para que recue, observa-o como se estivesse sob efeito de um feiti\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pode-se estabelecer tamb\u00e9m uma conex\u00e3o interessante entre William e Charlie Prince (Ben Foster), o bra\u00e7o direito de Ben Wade no bando. Prince, literalmente, mata e morre por Wade. Nota-se a admira\u00e7\u00e3o pelo seu chefe em v\u00e1rios momentos, e \u00e9 quase latente ao longo do filme. Como quando ele avisa do assalto, na cidade: \u201cacho que uma dilig\u00eancia foi assaltada a uns 16 km. Pelo senhor Ben Wade em pessoa\u201d. Ou quando ele e Evans se encontram pela primeira vez: \u201cCuidado, rancheiro, est\u00e1 falando com Ben Wade\u201d. O respeito e a subservi\u00eancia de Charlie Prince por Wade nada mais \u00e9 que uma evolu\u00e7\u00e3o do fasc\u00ednio e encantamento que agem sobre William, provavelmente os mesmos que um dia agiram sobre Prince. Repare no ar de menino do personagem. Muito leve, um tanto distante, como se a perplexidade do impacto causado por Wade ainda existisse, mas sem a inoc\u00eancia, e um resto de inf\u00e2ncia (vivo no \u00edmpeto adolescente de William) que ainda poderia ser notado, transparece fossilizado, crispado e petrificado pelo sol e a areia do Velho Oeste. Prince \u00e9 uma crian\u00e7a insegura, de barba para parecer mais velho, e calejado pelas aventuras com Wade, as mesmas com as que William sonha no cercado da sua casa, sob as ordens do seu pai.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas Prince \u00e9 mec\u00e2nico no que faz. Cada movimento, cada instante em que tira a arma do coldre parece estudado e sem margem a falhas. A frieza do personagem (tal como a cena em que deixa algu\u00e9m para queimar vivo) revela a inten\u00e7\u00e3o do diretor de desviar o curso do \u00f3dio do espectador do caminho de Wade, para que des\u00e1g\u00fce inteiro sobre Charlie Prince. Deste modo, Mangold estabelece dois lados bem claros no filme: um, de Prince e seu bando, destinado \u00e0 antipatia do p\u00fablico; e o outro, de Evans e Wade, o mesmo lado, por sua vez, aben\u00e7oado com a simpatia do espectador. Ao polarizar seu filme deste modo, Mangold praticamente canta o prel\u00fadio da cena final, infelizmente, a ru\u00edna de Os Indom\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tudo at\u00e9 aqui esteve sob a influ\u00eancia de Ben Wade, que domina o filme, seus personagens e seu p\u00fablico, usando sangue e o lado s\u00e1dico de todos n\u00f3s como componentes essenciais de sua sedu\u00e7\u00e3o. A imoralidade absoluta e uns vest\u00edgios turvos de algo como um c\u00f3digo de honra se misturam e se confundem num espiral que invariavelmente leva \u00e0 morte de algum personagem. Pense bem, e n\u00e3o ir\u00e1 t\u00e3o longe para descobrir que Wade n\u00e3o mata ningu\u00e9m durante o filme sem que tenha um motivo concreto, e quando o faz, n\u00e3o consegue esconder o tom cruel mas divertido com que mede seus atos. Um dos elementos que torna, a princ\u00edpio, o personagem t\u00e3o forte, \u00e9 a dificuldade do espectador em se estabelecer em rela\u00e7\u00e3o a ele, ora desenhando bichinhos, ora matando, ora sendo agrad\u00e1vel \u00e0 mesa, ora matando, ora recitando a B\u00edblia, ora matando de novo, ora salvando a todos, ora matando mais uma vez. E isso, principalmente, por j\u00e1 existirem dois grandes halos para os quais se dirigem os sentimentos distintos de quem assiste: Evans e Prince. Wade, por\u00e9m, tanto \u00e9 um meio termo entre os dois, quanto n\u00e3o h\u00e1 termo nenhum que o me\u00e7a. Tanto tem os dois dentro de si, quanto \u00e9 muito maior do que eles. \u00c9 esta dubiedade que abre fronteiras do personagem, que faz o espectador se incomodar consigo mesmo conforme o que sente por ele, e que James Mangold erra ao quebrar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cena final \u00e9 a resposta para uma s\u00e9rie de acontecimentos estranhos com o roteiro, como se estivesse, nas \u00faltimas trinta ou quarenta p\u00e1ginas, rabiscado e cheio de observa\u00e7\u00f5es. A incoer\u00eancia do personagem de Wade, um dos motivos do grande problema, levaram, ao que parece, a uma cascata de adapta\u00e7\u00f5es que claramente n\u00e3o faziam parte do rumo \u201cideal\u201d das coisas. A partir da\u00ed, voc\u00ea ver\u00e1 com freq\u00fc\u00eancia tentativas frustradas de justificar a mudan\u00e7a brusca de comportamento do personagem. A verdade \u00e9 que n\u00e3o havia como simplesmente preparar o terreno para um desvio t\u00e3o violento. Para que desse certo, todo o filme merecia ser trabalhado em torno disso. No entanto, se espera que a plausibilidade dos acontecimentos seja atestada por frases como \u201cvoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o mau\u201d e uma revela\u00e7\u00e3o sobre o passado de Wade que constrange \u00e0 medida que sua fun\u00e7\u00e3o dentro do filme se esclarece. Isto n\u00e3o era necess\u00e1rio. O que realmente me incomoda nem \u00e9 a esquizofrenia do personagem, mas como o filme deixa claro que quer me enfiar o final goela a baixo, percebendo que ele n\u00e3o se sustenta, baseando-se na possibilidade de eu ser burro demais para perceber o mesmo. \u201cJimmy, ligaram do est\u00fadio. O final vai ter que ser assim, \u00f3\u201d. \u201cAh, nem d\u00e1 nada, s\u00f3 muda isto aqui, aqui e aqui, que a galera sai do cinema com um sorriso deste tamanho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No ch\u00e3o sujo de um dos estabelecimentos de Abiline, poucos minutos antes da partida do trem para Yuma, Dan Evans fala de suas ingl\u00f3rias e de sua imagem como pai. Ben Wade, ent\u00e3o, escolhe um lado. Escolhe ajud\u00e1-lo. Os motivos n\u00e3o s\u00e3o claros. N\u00e3o se sabe se por respeito (dep\u00f5e a favor desta vers\u00e3o o desenho que Wade faz de Evans na sua B\u00edblia e todo o tempo que passam naquele quarto) ou por pena (a favor deste toda a constru\u00e7\u00e3o do personagem de Evans e da principal subtrama envolvendo ele e sua imagem aos olhos de William, pesando no momento exato em que Wade finalmente toma sua decis\u00e3o, com Evans no ch\u00e3o daquele lugar, contando de como n\u00e3o era \u201cnenhum her\u00f3i\u201d, com a corrente das algemas de Wade em torno do seu pesco\u00e7o). Ou, na verdade, pelas duas raz\u00f5es (mais certo que, constru\u00edda sobre uma base movedi\u00e7a, termina n\u00e3o havendo raz\u00e3o alguma nos seus atos). Mas repito, a verdade \u00e9 que isso nem me incomoda como deveria. Wade poderia ter feito tudo o que fez sem raz\u00e3o nenhuma mesmo (a quem se preocupa com o que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 plaus\u00edvel em uma fic\u00e7\u00e3o), a imprevisibilidade era uma de suas caracter\u00edsticas. O problema est\u00e1 em diretor e roteiristas (sei l\u00e1 de quem \u00e9 a responsabilidade) acharem que ele precisava de um motivo e acabarem colocando o filme num caminho auto-destrutivo. A preocupa\u00e7\u00e3o por delimitar extremos de \u201cbom\u201d e \u201cmau\u201d pode ser vista em toda sua mediocridade na cena em que William tem Wade sob sua mira, no final do filme, como se os dois \u00fanicos rumos de sua vida estivessem no limiar daquele gatilho (quase d\u00e1 pra ver Jim Cuanninghman saindo direto de Donnie Darko e baixando entre penas e plumas sobre a terra rubra de Abiline).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, mesmo que Wade fizesse tudo o que fez sem tentativas de se justificar, ainda permaneceria o problema (pra mim \u00e9 um problema) de ele ter escolhido um lado, dissolvendo a ambig\u00fcidade em rela\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico, for\u00e7ando-o a tomar um partido definitivo quanto a seu personagem. Apenas a virada instant\u00e2nea de car\u00e1ter n\u00e3o determinaria sua personalidade, o que acontece se somado \u00e0quela frase de William e o trecho em que ele narra como foi abandonado pela m\u00e3e aos oito anos. E esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual comecei este texto como um psic\u00f3tico com sangue nos olhos (e rezo para que voc\u00ea tenha chegado at\u00e9 aqui antes de ligar para um hosp\u00edcio, sem que antes recomendasse uma lobotomia frontal pra in\u00edcio de tratamento), principalmente, para que minha decep\u00e7\u00e3o com o final de Os Indom\u00e1veis ficasse mais clara. O cinema \u00e9 m\u00e1gico exatamente por nos permitir, de vez em quando, entrar na pele de personagens absolutamente livres no seu mundo, capazes de coisas que simplesmente n\u00e3o poder\u00edamos fazer na palidez do lado de c\u00e1 da tela. Ben Wade \u00e9 um personagem fascinante at\u00e9 o momento em que come\u00e7a a chorar sua inf\u00e2ncia desgra\u00e7ada. N\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o se divertir ao ouv\u00ed-lo cantar a musiquinha sobre seu enforcamento, e como v\u00ea-lo destripando o filho da m\u00e3e que ficou com o seu cavalo \u00e9 agrad\u00e1vel, ainda que perturbador por ser agrad\u00e1vel, efeitos conhecidos, como nos finais de Laranja Mec\u00e2nica e Dogville. Se acho um disparate Ben Wade ter matado todo seu bando? Claro que n\u00e3o. Al\u00e9m de ter matado o bando, ele deveria ter matado o Evans, o William, os cavalos e alguns arbustos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os Indom\u00e1veis n\u00e3o deixa de ser um bom filme, apesar desta minha vis\u00e3o sobre as coisas. A tens\u00e3o da meia hora final \u00e9 eletrizante (especialmente pra quem se importar com o personagem do Bale), Charlie Prince consegue ser um vil\u00e3o arrepiante mesmo franzino, com meio metro de altura e voz de menina, e Ben Wade, at\u00e9 certo momento, \u00e9 um dos personagens mais fascinantes dos \u00faltimos anos. Vale a pena ser conferido, por ser um bom filme, por ser um representante de respeito de um g\u00eanero pelo qual eu daria tudo para que voltasse em definitivo, e por ser, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um gosto de sangue guardado na raiz da garganta, e pedindo por mais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">2\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vou lhe confiar um segredo: tenho um problema seri\u00edssimo com filmes. Nem sei se poderia falar disso assim, vai que se espalhe? Mas preciso dizer a algu\u00e9m. Tenho um problema realmente grave com filmes. 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