{"id":200,"date":"2008-05-16T20:57:16","date_gmt":"2008-05-16T22:57:16","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=200"},"modified":"2008-05-16T20:57:16","modified_gmt":"2008-05-16T22:57:16","slug":"era-uma-vez-no-oeste-sergio-leone-1968","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/era-uma-vez-no-oeste-sergio-leone-1968\/","title":{"rendered":"Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1968)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/img5.allocine.fr\/acmedia\/medias\/nmedia\/18\/35\/24\/15\/18823978.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"329\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>\u201cSe esse homem sobreviver, ele vir\u00e1 aqui, pegar\u00e1 suas coisas e vai dizer \u2018eu tenho que ir\u2019. Esses t\u00eam algo a ver com a morte\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Era Uma Vez no Oeste \u00e9 uma poesia de 165 minutos em homenagem a todos esses que t\u00eam algo a ver com a morte. \u00c0 violenta \u00e9poca dos xerifes e foras-da-lei, que j\u00e1 entraram imortalizados no imagin\u00e1rio popular pelo cinema. Esses mocinhos e bandidos que fizeram a festa nas salas de cinema durante mais de vinte anos, e que hoje, est\u00e3o ausentes. O g\u00eanero est\u00e1 desgastado e \u00e9 visto com maus olhos por parte da nova gera\u00e7\u00e3o. O filme se situa em uma \u00e9poca onde a civiliza\u00e7\u00e3o estava chegando ao violento Velho Oeste. E o arco dram\u00e1tico do filme \u00e9 centrado em tr\u00eas personagens que est\u00e3o cada vez mais desolados e deslocados devido \u00e0 esta mudan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esse \u00e9 um dos temas mais recorrentes na cinematografia mundial, sempre memor\u00e1vel por gerar obras-primas: o efeito destruidor que o tempo faz no ambiente que as pessoas vivem, e a dificuldade em se adaptar a isso. No caso, isto chega at\u00e9 a ser metaling\u00fc\u00edstico: enquanto no filme Charles Bronson, Jason Robards e Henry Fonda estavam sendo atropelados pelo trem do desenvolvimento e do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, John Ford, John Wayne e outros mitos do western americano tamb\u00e9m estavam sendo atropelados pelo trem da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, do g\u00eanero que estava se desgastando. O ciclo dos grandes filmes americanos de western se encerrou na passada da d\u00e9cada de 50 para a d\u00e9cada de 60. N\u00e3o que os filmes tenham se esgotado (at\u00e9 a d\u00e9cada de 70 ainda eram produzidos westerns, mas depois disso os t\u00edtulos s\u00e3o poss\u00edveis de se contar nos dedos), mas a produ\u00e7\u00e3o do g\u00eanero estava em decl\u00ednio. Foi quando Sergio Leone surgiu fazendo filmes estranh\u00edssimos, a vis\u00e3o italiana dos filmes de western. A famosa trilogia dos d\u00f3lares, composta por Por um Punhado de D\u00f3lares (1964), Por uns D\u00f3lares a Mais (1965) e Tr\u00eas Homens em Conflito (1966), produzida na It\u00e1lia e na Espanha, fez um sucesso imenso nos Estados Unidos no ano de 67 e animou os executivos da Paramount para fazer com que esse diretor arquivasse o projeto no qual estava desenvolvendo (que era Era Uma Vez na Am\u00e9rica, filme lan\u00e7ado em 1984) para gravar mais um western, com um or\u00e7amento alt\u00edssimo. N\u00e3o sei o que deve ter sido a cara dos executivos quando eles viram o filme pronto. O italiano apareceu com um \u00e9pico de quase tr\u00eas horas de dura\u00e7\u00e3o, muito lento at\u00e9 para os padr\u00f5es da \u00e9poca, que esperavam mais a\u00e7\u00e3o e um filme r\u00e1pido como Tr\u00eas Homens em Conflito (que, ironicamente, \u00e9 considerado lento hoje em dia).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Era Uma Vez no Oeste \u00e9 um dos filmes mais tristes de todos os tempos. Leone filmou uma \u00f3pera, uma poesia sobre o fim da \u00e9poca do western, no tempo em que os filmes de cowboys estavam escasseando. O filme \u00e9 centrado em cinco personagens: Harmonica (Charles Bronson), Cheyenne (Jason Robards), Jill (Claudia Cardinale), Frank (Henry Fonda) e Morton (Gabriele Ferzetti). Morton, um aleijado, \u00e9 o respons\u00e1vel pela ferrovia e os trens, um homem de neg\u00f3cios. Frank \u00e9 o pistoleiro que trabalha para Morton indo acertar contas (leia-se \u201cmatar\u201d) pelos eventuais trope\u00e7os aos tratos impostos pelo homem de neg\u00f3cios. Bronson \u00e9 um homem misterioso de ra\u00edzes ind\u00edgenas, que anda sempre tocando uma gaita. Quando Frank questiona seu nome, ele responde nomes \u201cde pessoas que estavam vivas at\u00e9 te encontrar, Frank\u201d. Jill \u00e9 uma mulher de New Orleans que se casou com um irland\u00eas e ia morar no campo. O irland\u00eas \u00e9 Brett McBain, e estava desenvolvendo terras no meio do nada, que pela localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, futuramente seriam uma esta\u00e7\u00e3o de trem. A esta\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava pronta no tempo prometido para Morton, ent\u00e3o Frank tornou Jill uma vi\u00fava (o massacre da fam\u00edlia, do marido e das crian\u00e7as e a revela\u00e7\u00e3o dos olhos azuis de Fonda no assassino \u00e9 uma das cenas mais terr\u00edveis j\u00e1 vistas em um filme). E Cheyenne \u00e9 um not\u00f3rio bandido que acaba envolvido nessa hist\u00f3ria por conta de evid\u00eancias falsas criadas por Frank. Toda essa hist\u00f3ria poderia se tornar um \u00f3timo western, por\u00e9m \u201cbanal\u201d, por assim dizer. Sem nenhum dem\u00e9rito, Tr\u00eas Homens em Conflito \u00e9 um western \u201cbanal\u201d. Mas Leone fez diferente aqui. O longa \u00e9 lento, l\u00edrico. Filmado na Espanha e nos Estados Unidos, o diretor capta paisagens como ningu\u00e9m. O tom lento da narrativa d\u00e1 uma caracter\u00edstica de despedida, de adeus, muito grande quando unido \u00e0 bel\u00edssima trilha de Ennio Morricone, obrigat\u00f3ria em qualquer lista de \u201c10 melhores trilhas de todos os tempos\u201d. As interpreta\u00e7\u00f5es dos atores est\u00e3o irretoc\u00e1veis, todos exibem express\u00f5es dos personagens com as nuances do estranhamento que todos percebem que est\u00e1 ocorrendo algo diferente com o mundo nesse per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o. S\u00f3 vendo o filme para perceber todo esse clima de despedida. Leone capta os sentimentos como ningu\u00e9m e fazia isso de maneira inusitada: solicitava a seu escudeiro, o compositor Ennio Morricone, que de prefer\u00eancia, terminasse a trilha antes do filme ser filmado. Para falar a verdade, Era Uma Vez no Oeste circula entre 3 e 5 melodias diferentes, cada uma relacionada a um personagem. E o diretor captava as express\u00f5es dos atores com a m\u00fasica pronta. Tanto isso que uma das marcas de Leone s\u00e3o os mega closes no rosto dos atores, facilmente reconhec\u00edveis e de apelo imenso. O resultado \u00e9 maravilhoso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A semente da disc\u00f3rdia: quem vai mexer com a vida de todos esses personagens? O trem. Que por sinal, n\u00e3o deixa de ser simb\u00f3lico. Grande avan\u00e7o tecnol\u00f3gico da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, foi um dos respons\u00e1veis por trazer a civiliza\u00e7\u00e3o para o Velho Oeste. Civiliza\u00e7\u00e3o da qual o Leste dos Estados Unidos j\u00e1 tinha em parte. Disse Leone: todos os personagens, exceto Claudia, t\u00eam consci\u00eancia de que n\u00e3o chegar\u00e3o vivos no fim. Sintomaticamente, ela viajou ao Oeste, mas n\u00e3o era de l\u00e1, veio da civiliza\u00e7\u00e3o do Leste. Civiliza\u00e7\u00e3o esta que invadiu o cinema e acabou por enterrar a era de homens como Frank, Cheyenne e Harmonica. O ritmo do filme \u00e9 terr\u00edvel, doloroso, uma dan\u00e7a da morte, como diz o diretor. Como j\u00e1 foi levantado, os atores captam o esp\u00edrito da \u00e9poca de mudan\u00e7as em que o filme se passa. A trilha e o ritmo lento selam todo o esp\u00edrito de despedida, de adeus do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 um filme muito nost\u00e1lgico. O grande confronto n\u00e3o parece ser apenas entre a nova civiliza\u00e7\u00e3o e os (anti)her\u00f3is do Velho Oeste, mas entre os \u00faltimos, se auto-destruindo. Morton, o representante da chegada da civiliza\u00e7\u00e3o, raramente p\u00f5e a m\u00e3o em um rev\u00f3lver. Ele contrata Frank, de natureza diametralmente oposta a dele, respons\u00e1vel por milhares de duelos, roubos e mortes entre foras-da-lei e cowboys. Frank se questiona em alguns momentos se poderia ser um homem de neg\u00f3cios como Morton. \u00c0s pr\u00f3prias custas, descobre que, apesar de matar crian\u00e7as sem piscar um olho, n\u00e3o tem o sangue frio necess\u00e1rio. O roteiro de Leone e Sergio Donati (baseado em id\u00e9ias dos diretores Bernardo Bertolucci e Dario Argento) levanta essas quest\u00f5es, costurando uma sub-trama de vingan\u00e7a pessoal com talento, refor\u00e7ando ainda mais a id\u00e9ia de que pessoas como Frank se auto-destroem. \u00c9 uma vis\u00e3o nost\u00e1lgica e paradoxalmente pessimista: o filme tem cheiro de morte e voc\u00ea sai correndo ca\u00e7ando os \u00faltimos suspiros desse cheiro. Digo mais uma vez: nada disso seria poss\u00edvel se a narrativa de Era Uma Vez no Oeste n\u00e3o fosse a narrativa de Era Uma Vez no Oeste; um ritmo lento que voc\u00ea deve aproveitar cada segundo por completo, o novo mundo se aproximando, o trem atropelando, o espectador correndo atr\u00e1s do cheiro de morte e a sensa\u00e7\u00e3o de estar aproveitando os \u00faltimos momentos da vida daqueles homens violentos. Os \u00faltimos momentos de uma terra sem lei. Os \u00faltimos momentos de uma era de filmes antol\u00f3gicos. A sensa\u00e7\u00e3o de despedida daquele mundo perigoso e de \u00edndole question\u00e1vel, mas que marcou a todos, seja no cinema ou na realidade. \u00c9 quase o fim de uma vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o obstante, a escolha dos atores n\u00e3o foi por acaso. Favorecido por estar na \u00e9poca do fim do western, os atores j\u00e1 demonstram experi\u00eancia e vivem personagens visivelmente calejados (Henry Fonda tinha 63 anos, por exemplo). E o mais importante: na categoriza\u00e7\u00e3o mais cl\u00e1ssica, Charles Bronson \u00e9 o mocinho e Henry Fonda \u00e9 o bandido. Isso \u00e9 relevante por dois motivos: o primeiro de brincar com a percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com Henry Fonda; ao que consta, esse \u00e9 o primeiro e \u00faltimo vil\u00e3o interpretado pelo ator no cinema. E, ele est\u00e1 chutando bundas no papel! Nem parece o mesmo ator do mocinho 12 Homens e Uma Senten\u00e7a, tamanho o poder da(s) interpreta\u00e7\u00e3o(\u00f5es). Deve ter sido engra\u00e7ado na \u00e9poca testemunhar tamanho contraste. O segundo motivo de escalar esses dois atores \u00e9 mais relevante: os olhos. Os olhos e as fei\u00e7\u00f5es de Charles Bronson s\u00e3o fatores decisivos para mostrar o quanto ele parece com um \u00edndio. E os olhos de Henry Fonda, azuis-brilhantes, s\u00e3o caracter\u00edsticos do por assim dizer, \u201chomem branco\u201d (j\u00e1 que o caucasiano de olhos castanhos pode se confundir com os outros devido \u00e0 pele queimada pelo sol). Geralmente os mocinhos de olhos azuis corriam atr\u00e1s de bandoleiros chicanos, ou de tribos ind\u00edgenas. Leone inverteu o jogo sem fazer nenhum manique\u00edsmo, o que soma mais pontos para Era Uma Vez no Oeste, um filme fora de s\u00e9rie.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O roteiro tem tiradas \u00f3timas que d\u00e3o aos personagens uma caracter\u00edstica ir\u00f4nica e at\u00e9 rancorosa. A montagem cria obras-primas pequenas, a seq\u00fc\u00eancia inicial que circunda entre os ladr\u00f5ezinhos com barulhos pitorescos, como de goteiras ou de moscas, com o som aumentado; outra cena mitol\u00f3gica \u00e9 o emocionante duelo girat\u00f3rio ao final, exaustivamente imitada, com a trilha de Morricone (GODDAMN HIM!), de arrepiar qualquer um. Outras sutilezas s\u00e3o not\u00e1veis, como quando Jill est\u00e1 chegando em casa para encontrar a futura fam\u00edlia morta usando um vestido preto. Ou quando um dono do lugar onde Claudia Cardinale p\u00e1ra durante a ida \u00e0 casa dos McBain, dizendo \u201ceu ia para New Orleans, mas estou contente aqui, com a vida no campo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Leone deita e rola para fazer sua obra-prima l\u00edrica sobre a \u00e9poca e a regi\u00e3o que marcaram profundamente o cinema. Na \u00e9poca do lan\u00e7amento, Era Uma Vez no Oeste foi um fiasco de p\u00fablico e cr\u00edtica em todos os lugares do mundo, exceto na Fran\u00e7a. Parece ser ir\u00f4nico que uma obra at\u00e9 saudosista fa\u00e7a sucesso na Fran\u00e7a da \u00e9poca dos protestos de Maio de 68, da liberta\u00e7\u00e3o dos costumes, liberta\u00e7\u00e3o sexual; mas o olhar que o filme oferece \u00e9 muito mais cr\u00edtico para ser chamado de saudosista. O que o resto do mundo n\u00e3o pareceu perceber foi que este filme ficaria marcado. Anos \u00e0 frente do seu tempo, \u00e9 um termo atribu\u00eddo a muitas obras. Um dos filmes em que essa express\u00e3o se aplica perfeitamente \u00e9 Era Uma Vez no Oeste.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>\u201cO ritmo do filme pretendeu criar a sensa\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos suspiros que a pessoa exala antes de morrer. Era Uma Vez no Oeste \u00e9, do come\u00e7o ao fim, uma dan\u00e7a da morte. Todos os personagens, exceto Claudia (Cardinale), t\u00eam consci\u00eancia de que n\u00e3o chegar\u00e3o vivos no fim.\u201d<\/em> \u2013 Sergio Leone<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Pedro Kerr<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe esse homem sobreviver, ele vir\u00e1 aqui, pegar\u00e1 suas coisas e vai dizer \u2018eu tenho que ir\u2019. 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