{"id":199,"date":"2008-05-16T20:48:48","date_gmt":"2008-05-16T22:48:48","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=199"},"modified":"2008-05-16T20:48:48","modified_gmt":"2008-05-16T22:48:48","slug":"trilogia-dos-dolares-sergio-leone-196419651966","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/trilogia-dos-dolares-sergio-leone-196419651966\/","title":{"rendered":"Trilogia dos D\u00f3lares (Sergio Leone, 1964\/1965\/1966)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px;\" src=\"http:\/\/img353.imageshack.us\/img353\/9153\/35487541lo9.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se, h\u00e1 mais de quarenta anos, um italiano doido n\u00e3o tivesse resolvido realizar seu grande sonho de filmar westerns no velho continente, talvez, hoje, Ennio Morricone n\u00e3o tivesse uma poltrona almofadada na hist\u00f3ria da m\u00fasica, Clint Eastwood passaria de \u00edcone e diretor oscarizado a limpador de piscinas em S\u00e3o Francisco, o spaghetti western seria uma p\u00e1gina de curiosidades m\u00f3rbidas no livro secular do cinema, e, certamente, o mundo teria perdido uma das maiores trilogias e mais belas odes \u00e0 viol\u00eancia j\u00e1 vistas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sergio Leone, o italiano em quest\u00e3o, diretor tamb\u00e9m da absurda Trilogia da Am\u00e9rica, mudou a hist\u00f3ria da 7\u00aa arte ao amplificar o mais \u00ednfimo detalhe de cena ou linhas de express\u00e3o em elementos fundamentais do seu soneto visual. Poucos compreenderam t\u00e3o bem quanto ele o poder de um rosto na tela. A Trilogia dos D\u00f3lares, bem mais que um desconhecido metendo bala e levando grana pra cima e pra baixo, \u00e9 o grande quadro de um velho oeste nunca visto at\u00e9 ent\u00e3o. T\u00e3o violento e sujo como antes, mas nunca, nunca t\u00e3o detalhado, t\u00e3o cultuado, t\u00e3o inesquec\u00edvel. Leone saiu da Velha Bota disposto a mostrar ao mundo que resplandecente beleza pode haver na morte de uns vagabundos por algumas moedas.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Por um Punhado de D\u00f3lares<\/strong> <em>(Per um Pugno di Dollari, 1964)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O come\u00e7o, apesar de modesto, d\u00e1 bons sinais do que poderia se esperar de Sergio Leone. Por um Punhado de D\u00f3lares \u00e9 o \u201cpior\u201d filme do diretor (sem contar O Colosso de Rodes, de 1961), e mesmo assim, \u00e9 fant\u00e1stico. Xerocando na cara dura Yojimbo (Akira Kurosawa, 1960), e desenhando uns pares de chap\u00e9us de aba larga e rev\u00f3lveres no lugar das espadas, Leone exercitava seu famigerado estilo de tomadas longas, contempla\u00e7\u00e3o quase tribut\u00e1ria \u00e0 poeira do Oeste, e close-ups que invadiam a alma dos personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No filme, Clint Eastwood d\u00e1 vida pela primeira vez ao \u201cpistoleiro sem nome\u201d (chamado em dado momento de \u201cJoe\u201d pelo agente funer\u00e1rio do lugar, o que pouco importa), que chega (montado numa mula e com uma roupa se desmanchando de curtida) \u00e0 remota cidadela mexicana de San Miguel, um povoado repartido por dois grupos rivais, os Rojo e os Baxter. O Sem Nome (que, como bem diz Tuco no final de Tr\u00eas Homens em Conflito, \u00e9 um grandess\u00edssimo filho da m\u00e3e) percebe que pode ganhar um bom dinheiro com a situa\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, ele encontra em Ram\u00f3n (o \u00f3timo Gian Maria Volont\u00e9) um pistoleiro \u00e0 altura no grupo dos Rojo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sem Nome serve apenas a seus pr\u00f3prios interesses, algo com que as pessoas teriam que se acostumar at\u00e9 os dois filmes seguintes. O Velho Oeste est\u00e1 esquecido por Deus, e quem tem um rev\u00f3lver carregado na m\u00e3o \u00e9 o detentor da palavra sagrada, usando-a como bem entender. Assim, o protagonista n\u00e3o tem receio em mudar de lado na luta entre os dois grupos quando melhor lhe convir. No entanto, ainda h\u00e1 (neste primeiro filme) uma preocupa\u00e7\u00e3o no estabelecimento de pap\u00e9is entre o pistoleiro e Ram\u00f3n (no sentido de her\u00f3i x vil\u00e3o), quando o personagem de Volont\u00e9 d\u00e1 as caras logo executando uma chacina, e o de Eastwood demonstra certa humanidade ao ajudar uma fam\u00edlia a fugir da cidade (ali\u00e1s, este \u00e9 o \u00fanico fato que d\u00e1 pistas do seu passado ao longo de toda trilogia, o que viria a ser confirmado mais tarde no terceiro filme, presumindo, \u00e9 claro, que se trate do mesmo homem).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por um Punhado de D\u00f3lares \u00e9 sem d\u00favida o filme mais s\u00e9rio e violento da trilogia. Al\u00e9m da longa surra que Sem Nome leva, o exterm\u00ednio de uma fam\u00edlia inteira n\u00e3o \u00e9 algo simplesmente pr\u00e1tico (e tamb\u00e9m chocante) como em Era uma Vez no Oeste (muit\u00edssimo bem representado, neste especial, pelo Pedro Kerr), mas verdadeiramente terr\u00edvel e com um alto n\u00edvel de crueldade. Ram\u00f3n taca fogo na casa com todos l\u00e1 dentro e os espera sair para mat\u00e1-los como gado, visivelmente se divertindo demais com tudo. As cenas impressionam e podem causar repulsa em algumas pessoas ainda hoje, mas s\u00e3o fundamentais para instaurar um clamor de vingan\u00e7a no espectador, amplificado lentamente durante o per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o do personagem de Clint Eastwood. Deste modo, talvez n\u00e3o se admita, mas os mesmos que se viram enojados \u00e0 viol\u00eancia da chacina, saboreiam a morte de cada um dos assassinos nas m\u00e3os do Sem Nome, adotado pelo espectador como instrumento de retalia\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o importando mais qual a conduta ou os objetivos do personagem, tampouco que seja t\u00e3o assassino quanto os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O cl\u00edmax (homenageado por Robert Zemeckis na Trilogia De Volta Para o Futuro) \u00e9 exuberante, e demonstra o talento inquestion\u00e1vel de Leone com a c\u00e2mera, tanto na arte de ampliar detalhes, como na de criar uma atmosfera de tens\u00e3o e expectativa quase insuport\u00e1vel. A quem n\u00e3o conhece, a seq\u00fc\u00eancia do Sem Nome levando tiro sobre tiro de rifle, caindo, e se levantando sempre, pode ser perturbadora, em v\u00e1rios sentidos. O melhor momento do filme (e talvez o melhor close de toda esta trilogia) \u00e9 precisamente quando o personagem de Eastwood revela a Ram\u00f3n o segredo da sua aparente invulnerabilidade. Leone, sem qualquer aviso pr\u00e9vio, nos joga em cima de Gian Maria Volont\u00e9. N\u00f3s, (no limite do poss\u00edvel) calmos, sentados em nossos sof\u00e1s atr\u00e1s da blindagem de vidro da televis\u00e3o, de repente despencamos adentro de Ram\u00f3n, assimilando imediatamente tudo que o personagem sente no momento. Com uma imagem, um movimento, Leone consegue o que certos diretores n\u00e3o atingem em toda carreira, e que, em s\u00edntese, \u00e9 a raz\u00e3o de existir do cinema: despertar uma pilha de emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mesmo que visivelmente inferior aos outros dois exemplares da trilogia, Por um Punhado de D\u00f3lares merece todo respeito do mundo por ter posto no mapa Sergio Leone, Clint Eastwood e Ennio Morricone, relevando ainda que o spaghetti western pedia licen\u00e7a para ser notado.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Por uns D\u00f3lares a Mais<\/strong> <em>(Per Qualche Dollaro in Pi\u00f9, 1965)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cOs olhos dele fazem buracos na tela\u201d. Assim Sergio Leone definiu Lee Van Cleef, o homem na pele do Coronel Douglas Mortimer e protagonista efetivo de Por uns D\u00f3lares a Mais. Van Cleef \u00e9 um achado. Depois de tentar Henry Fonda no papel (que recusou pela ainda relativa obscuridade do diretor. Os dois trabalhariam juntos mais tarde, em 1968, na obra-prima Era uma Vez no Oeste), Leone resolveu apostar (assim como fez anteriormente com Clint Eastwood) num desconhecido, acostumado a pap\u00e9is discretos, incluindo pequenas participa\u00e7\u00f5es em Matar ou Morrer (Fred Zinnemann, 1952), e em O Homem Que Matou o Fac\u00ednora (John Ford, 1962). N\u00e3o se pode dizer exatamente que Van Cleef atua. Quem interpreta seu personagem \u00e9 a lente da c\u00e2mera de Sergio Leone. Para ele, resta emprestar o rosto ao personagem. Com fei\u00e7\u00f5es extremamente marcantes, um olhar que \u201cfaz buracos na tela\u201d, e um sorriso entre o esc\u00e1rnio e a arrog\u00e2ncia, Lee Van Cleef seria tatuado na hist\u00f3ria do cinema, tanto aqui, como no filme seguinte, Tr\u00eas Homens em Conflito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em Por uns D\u00f3lares a Mais, o Coronel Douglas Mortimer, um ca\u00e7ador de recompensas, chega na cidade de El Paso na esperan\u00e7a de capturar El \u00cdndio (Gian Maria Volont\u00e9, outra vez, e ainda melhor), um conhecido bandido com carimbo de dez mil d\u00f3lares na testa, que planeja um assalto ao banco do lugar. No entanto, Sem Nome (desta vez apelidado de \u201cMonco\u201d por editores de jornal) se hospeda no hotel em frente ao do Coronel, tamb\u00e9m em busca das cabe\u00e7as de El Indio e seu bando.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O relacionamento dos personagens de Eastwood e Van Cleef \u00e9 sem d\u00favida o ponto de gravidade de Por uns D\u00f3lares a Mais. Tangenciando entre a rivalidade e um paralelo \u201cpupilo x mestre\u201d, os dois usam um ao outro at\u00e9 o fim. O encontro, na rua principal de El Paso, em frente aos hot\u00e9is, \u00e9 o melhor momento do filme, superando at\u00e9 mesmo o duelo final com El \u00cdndio. \u00c9 um choque, acima de tudo, elegante, de dois personagens muito admirados pelas lentes de Leone at\u00e9 ent\u00e3o. E o jogo dos tiros nos chap\u00e9us \u00e9 algo fant\u00e1stico, literalmente, assim como o tom agrad\u00e1vel em que a noite acaba.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Leone ainda flerta aqui com um tema que renderia uma obra de arte tr\u00eas anos mais tarde, em Era uma Vez no Oeste. Quando Sem Nome conversa com o \u201cprofeta\u201d em busca de informa\u00e7\u00f5es sobre seu rival, ouve do velho homem que sua vida fora destru\u00edda pelos \u201cmalditos trens\u201d, assim como a do Coronel Douglas Mortimer, outrora um valoroso soldado, hoje, reduzido a um carniceiro mercen\u00e1rio. Como no filme de 68, os novos tempos chegam atropelando a calmaria dos antigos, roubando os espa\u00e7os de homens como os dois no mundo, e enterrando-os, assim como a todo um g\u00eanero saturado e gradativamente abandonado no cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Da\u00ed a conex\u00e3o com a revela\u00e7\u00e3o do passado de Mortimer e El \u00cdndio (e Volont\u00e9 expressa uma dor na gravidade do olhar talvez s\u00f3 compar\u00e1vel a Humphrey Bogart em No Sil\u00eancio da Noite), ampliando-se, ainda, numa reflex\u00e3o quanto ao destino n\u00e3o apenas destes dois e de Sem Nome, mas do resto dos personagens de toda trilogia, talvez n\u00e3o apenas estrita e deliberadamente o que s\u00e3o pelo que s\u00e3o, mas levados ao gatilho do rev\u00f3lver como \u00fanico meio de sobreviv\u00eancia. Como revela a conversa de Tuco com o irm\u00e3o, em Tr\u00eas Homens em Conflito, quando diz a ele que o que restava para eles era abra\u00e7ar ou uma arma ou a b\u00edblia, e que seu irm\u00e3o escolheu o segundo caminho apenas por n\u00e3o ter coragem de optar pelo primeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No Velho Oeste de Sergio Leone, os homens ou ca\u00e7avam uns aos outros, ou se enclausuravam numa sacristia, ou morriam de fome.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Tr\u00eas Homens em Conflito<\/strong> <em>(Il Buono, il Brutto, il Cattivo, 1966)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cO Bom, O Mau e o Feio\u201d, conforme tradu\u00e7\u00e3o literal do t\u00edtulo italiano, \u00e9 uma grande brincadeira e uma senten\u00e7a final de Sergio Leone quanto a defini\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter: n\u00e3o h\u00e1 defini\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter. Todos s\u00e3o iguais perante Deus, todos s\u00e3o iguais perante o ouro. Assim como quando Sem Nome (aqui apelidado de \u201cBlondie\u201d, mas que continua podendo tranq\u00fcilamente ser chamado de \u201cgrandess\u00edssimo filho da m\u00e3e\u201d) deixa Tuco amarrado pra morrer no deserto sem qualquer motivo expl\u00edcito, este devolve na mesma moeda saboreando a vingan\u00e7a enquanto arrasta o homem por 200 km de sol e areia, e que, por sua vez, quase morre de pancada nas m\u00e3os do \u201cAngel Eyes\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No filme, \u201cAngel Eyes\/O Mau\u201d (Lee Van Cleef), em mais um dia duro de trabalho, descobre a pista de uma fortuna em ouro. Tudo que ele tem \u00e9 um nome, e vai cruzar um solo americano crestado pela Guerra Civil atr\u00e1s dele. Neste meio tempo, enquanto \u201cTuco\/O Feio\u201d (Eli Wallach) arrasta \u201cSem Nome\/O Bom\u201d (Clint Eastwood) por um deserto, o primeiro descobre que o ouro est\u00e1 enterrado num cemit\u00e9rio, mas apenas o segundo sabe o nome da tumba onde ele est\u00e1. Com uma metade do segredo cada um, os dois n\u00e3o t\u00eam outra alternativa a n\u00e3o ser partirem juntos em busca do ouro. No entanto, fatalmente encontram Angel Eyes pelo caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Embora o filme mais politizado de Leone seja mesmo Quando Explode a Vingan\u00e7a, em Tr\u00eas Homens em Conflito ele faz quest\u00e3o de opinar sobre a guerra (o mesmo erro fotocopiado atrav\u00e9s da hist\u00f3ria e por todo sempre), quando a coisa no Vietnam j\u00e1 comia adoidada. Algumas falas s\u00e3o hist\u00f3ricas. \u201cA \u00fanica coisa em comum entre os do lado de c\u00e1, e os do lado de l\u00e1, \u00e9 o cheiro do \u00e1lcool\u201d, segundo o capit\u00e3o na batalha pela ponte. Ou ainda: \u201cnunca vi tantos bons homens desperdi\u00e7ados\u201d, numa rara emiss\u00e3o de opini\u00e3o do Sem Nome sobre o que se passa a sua volta. Ainda que os pistoleiros do faroeste perdessem suas vidas a troco de umas moedas ou um par de botas, os homens na ponte e os homens no Vietnam perdiam as suas a troco de nada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 muito \u00e0 vontade no seu terceiro western, Leone esbanja humor negro. Tr\u00eas Homens em Conflito \u00e9 quase uma com\u00e9dia. At\u00e9 Sem Nome carrega na ironia ao abandonar Tuco no deserto. \u201cQuanta ingratid\u00e3o depois de todas as vezes que eu salvei a sua vida\u201d. No final, ao jogar os objetos de um morto junto com ele pra cova, e ainda quando Tuco \u00e9 focado atrav\u00e9s do n\u00f3 da corda no cemit\u00e9rio. A primeira apari\u00e7\u00e3o de Tuco na tela, ali\u00e1s, \u00e9 algo fora de s\u00e9rie. O grande momento sem d\u00favida \u00e9 dele, ao proferir uma frase que poderia jogar por terra metade dos filmes com vil\u00f5es prolixos e megal\u00f4manos que discursam ou armam parafern\u00e1lias absurdas que sempre d\u00e3o o tempo exato para o her\u00f3i se salvar. \u201cQuando tiver que atirar, atire, n\u00e3o fale\u201d. Ora, reparem, isso \u00e9 uma filosofia de vida, quase uma religi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mais interessante, especialmente na cena citada, \u00e9 que apesar de Tuco ser um desgra\u00e7ado impiedoso, acabamos de certo modo torcendo por ele (ou talvez eu que seja um s\u00e1dico doentio, mas prefiro acreditar na simpatia do personagem). Algo que se deve muito ao desempenho magn\u00edfico de Eli Wallach no papel. E o mais fant\u00e1stico, o oposto do \u201cBom\u201d, na vis\u00e3o de Leone, n\u00e3o \u00e9 o \u201cMau\u201d, mas o \u201cFeio\u201d. Assassinos s\u00e3o todos, em maior ou menor grau (se \u00e9 que \u00e9 certo estabelecer gradua\u00e7\u00e3o), mas o Sem Nome com aquele jeit\u00e3o mitificado de quem s\u00f3 fala quando precisa, encontra no Tuco uma personalidade absolutamente contr\u00e1ria (al\u00e9m da disparidade f\u00edsica). Tuco e Sem Nome, pessoas t\u00e3o diferentes, terminaram afunilados no mesmo rastilho de sangue do velho oeste, quando em outro contexto (lembrando novamente da conversa que o personagem de Wallach tem com seu irm\u00e3o) estariam livres para seguirem caminhos dispersos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Muitos consideram este o auge de Ennio Morricone (que est\u00e1 prestes a completar 80 anos de idade). Apesar de eu pessoalmente preferir a trilha de Era uma Vez no Oeste, \u00e9 ineg\u00e1vel que em Tr\u00eas Homens em Conflito ele estivesse t\u00e3o arrepiante quanto, muito disso porque Sergio Leone sabia exatamente o que fazer para dar a estrela da cena \u00e0 m\u00fasica do maestro italiano, seguramente o compositor mais genial que j\u00e1 serviu ao cinema. Como quando Tuco corre pelo cemit\u00e9rio em busca da cova de Arch Stanton com L&#8217;estasi Dell&#8217;oro estourando; cena que invade, arranca e arrasta o esp\u00edrito de quem assiste. E talvez nem fosse necess\u00e1rio, mas falar de Morricone sem citar a m\u00fasica-tema \u00e9 n\u00e3o falar coisa alguma. Este \u00e9 um daqueles casos em que a can\u00e7\u00e3o \u00e9 assoviada por gente que nunca passou nem perto de assistir Tr\u00eas Homens em Conflito, quando o poder e o mist\u00e9rio de uma melodia ultrapassam tudo, at\u00e9 mesmo o filme para o qual ela foi composta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O truelo final \u00e9 um absurdo. E muito did\u00e1tico tamb\u00e9m. \u00c9 quando todo aquele talento sobrenatural do Leone de manipular pequenos detalhes e criar um ambiente de tens\u00e3o insuport\u00e1vel, do qual eu falava l\u00e1 em cima, dispensa todas as palavras. S\u00e3o cinco minutos de Eli Wallach, Lee Van Cleef e Clint Eastwood. Ou melhor. S\u00e3o cinco minutos de gestos, olhos, dedos, dedos inteiros, rev\u00f3lveres e coldres de Eli Wallach, Lee Van Cleef e Clint Eastwood. Tudo em fun\u00e7\u00e3o de criar uma bolha de expectativa que vai se comprimindo sobre o espectador at\u00e9 quase esmag\u00e1-lo. E o mais incr\u00edvel \u00e9 que o desfecho \u00e9 rel\u00e2mpago: quem piscou, n\u00e3o viu.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tr\u00eas Homens em Conflito \u00e9 indiscutivelmente o pico da Trilogia dos D\u00f3lares. \u00c9 um \u00e9pico. O filme que resgatou toda uma gera\u00e7\u00e3o de passar a inf\u00e2ncia sonhando com duplas de tiras e motores V8. Talvez, o filme m\u00e1ximo para quem buscou no western uma viagem no tempo de umas fant\u00e1sticas tr\u00eas horas de muito mais do que divers\u00e3o, mas de hist\u00f3ria sendo feita.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que mais impressiona na filmografia de Sergio Leone, \u00e9 a espetacular evolu\u00e7\u00e3o de um filme para outro. Cada um representa um salto (embora eu n\u00e3o possa representa-lo nas notas abaixo \u2013 isto para quem se importa com notas), ascend\u00eancia que se mant\u00e9m inviol\u00e1vel de Por um Punhado de D\u00f3lares (1963) a Era uma Vez no Oeste (1968), primeiro cap\u00edtulo da Trilogia da Am\u00e9rica, composta ainda pelo sobrenatural Quando Explode a Vingan\u00e7a, de 1971 (cujos primeiros vinte minutos s\u00e3o das coisas mais geniais j\u00e1 feitas, e que possui ainda uma ruptura maravilhosamente chocante por volta da metade) e Era uma Vez na Am\u00e9rica, de 1984 (obra-prima absoluta, melhor filme de m\u00e1fia que existe, e quase t\u00e3o perfeito quanto Era uma Vez no Oeste).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A Trilogia dos D\u00f3lares \u00e9, inteira, uma poesia \u00e9pica em homenagem \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 imoralidade, \u00e0 aus\u00eancia de escr\u00fapulos, \u00e0 gan\u00e2ncia e a um dos tempos e lugares mais selvagens de toda hist\u00f3ria. Primeira metade da grande e definitiva \u00f3pera de sangue composta atrav\u00e9s da filmografia do mestre italiano. Quem nunca brincou de meter bala em traseiro de gringo safado, portanto, que atire a primeira pedra. Mas se atirar, ahhh, amigo&#8230; \u00e9 bom que acerte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>\u201cQuando tiver que atirar, atire, n\u00e3o fale\u201d<\/em> \u2013 Tuco\/Il Brutto, em Tr\u00eas Homens em Conflito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por um Punhado de D\u00f3lares &#8211; 3\/4<br \/>\nPor uns D\u00f3lares a Mais &#8211; 4\/4<br \/>\nTr\u00eas Homens em Conflito &#8211; 4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se, h\u00e1 mais de quarenta anos, um italiano doido n\u00e3o tivesse resolvido realizar seu grande sonho de filmar westerns no velho continente, talvez, hoje, Ennio Morricone n\u00e3o tivesse uma poltrona almofadada na hist\u00f3ria da m\u00fasica, Clint Eastwood passaria de \u00edcone &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/trilogia-dos-dolares-sergio-leone-196419651966\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[2526,535,706,875,1068,1069,1070,1315,1874,1875,2093,2371,2379,2481],"class_list":["post-199","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-cinema","tag-clint-eastwood","tag-dollars-trilogy","tag-filmes","tag-il-brutto","tag-il-buono","tag-il-cattivo","tag-lee-van-cleef","tag-por-um-punhado-de-dolares","tag-por-uns-dolares-a-mais","tag-sergio-leone","tag-tres-homens-em-conflito","tag-trilogia-dos-dolares","tag-western"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=199"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}