{"id":198,"date":"2008-05-16T20:42:13","date_gmt":"2008-05-16T22:42:13","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=198"},"modified":"2008-05-16T20:42:13","modified_gmt":"2008-05-16T22:42:13","slug":"el-dorado-howard-hawks-1966","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/el-dorado-howard-hawks-1966\/","title":{"rendered":"El Dorado (Howard Hawks, 1966)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cinemaretro.com\/uploads\/CAANDORADO.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"323\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aproximadamente cinco anos separam o dia de hoje da primeira vez em que vi El Dorado, num VHS surrado, com chiado, cores esmaecidas e tudo aquilo que transforma o filme em fita em uma experi\u00eancia inusitada \u2013 e divertida \u2013 como nenhuma outra. Ali\u00e1s, pouco recordava do enredo em si, tanto \u00e9 que nem guardava na mem\u00f3ria o fato de que se tratava, superficialmente, de uma releitura completa[mente diferente] de uma das maiores obras-primas do western, o microcosmo do estilo hawskiano por excel\u00eancia, Onde Come\u00e7a o Inferno \u2013 o que inclusive gerou uma pequena surpresa depois daquele pr\u00f3logo maldito de quase uma hora de dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">El Dorado \u00e9 um dos \u00faltimos filmes do maior g\u00eanio do cinema norte-americano, Howard Hawks, feito depois de ele ter finalmente compreendido a queda da ideologia pragm\u00e1tica e situada em um universo retr\u00f3grado e apol\u00edtico que procurava utilizar como reg\u00eancia da grande maioria de seus filmes \u2013 principalmente daqueles em que seu c\u00f3digo de honra e \u00e9tica pessoal, transportado quase sempre para o velho oeste, era posto em prova ou simplesmente evocado de certa forma. E \u00e9 justamente por isso que o filme todo \u00e9 permeado por uma atmosfera de auto-s\u00e1tira, auto-homenagem, auto-releitura. N\u00e3o apenas ao seu pr\u00f3prio universo, mas ao cinema cl\u00e1ssico, de uma forma geral.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Alguns especialistas consideram Hatari! como o divisor de \u00e1guas entre o Hawks cl\u00e1ssico e o Hawks moderno. N\u00e3o discordo. A aventura africana protagonizada pelo seu talism\u00e3 John Wayne talvez seja o filme em que o diretor mais se desloca, ou realmente de desprende, por definitivo, da sociedade em que vivia. \u00c9 um filme de universo pr\u00f3prio, fechado em sua teoria de conduta particular, constru\u00eddo exclusivamente para que Hawks desfilasse boa parte de suas principais tem\u00e1ticas e interligando-as em um mesmo ponto de converg\u00eancia \u2013 ali\u00e1s, Hatari! \u00e9 outro dos filmes que preciso rever com urg\u00eancia, j\u00e1 que fazem uns quatro anos que assisti.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O El Dorado, portanto, faz parte da segunda fase, j\u00e1 que foi feito depois (n\u00e9). E tamb\u00e9m n\u00e3o discorda. A primeira hora do filme, que talvez seja o que o pr\u00f3logo mais extenso de toda a hist\u00f3ria do cinema que eu conhe\u00e7o at\u00e9 o momento, nada mais \u00e9 do que uma pequena homenagem de Hawks a um g\u00eanero que, como ele mesmo j\u00e1 previa anteriormente, junto de Peckinpah (vide Pistoleiros do Entardecer) e alguns outros realizadores, estava terminando de cavar sua pr\u00f3pria cova \u2013 que levaria junto consigo outras grandes figuras da primeira metade do s\u00e9culo XX, como o cinema insinuante de Billy Wilder e os musicais embebidos de alegria da velha Hollywood.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A pequena viagem do personagem de John Wayne, um pistoleiro de encomenda, evoca, separadamente, filmes como Por um Punhado de D\u00f3lares, de Sergio Leone \u2013 o homem que surge em meio a uma guerra entre duas fam\u00edlias, mas que, diferentemente do filme do italiano, n\u00e3o se apega a ela antes de encontrar uma necessidade particular -; Parceiros de Morte, de Sam Peckinpah, em especial pelo senso de justi\u00e7a e de \u00e9tica que fazem com que o remorso sobreviva como conseq\u00fc\u00eancia da trag\u00e9dia mesmo em meio a um mundo regido invariavelmente pela frieza individualista \u2013 personificada na figura do pai e sua rea\u00e7\u00e3o \u00e0 morte do filho; e O Homem Que Matou o Fac\u00ednora, de John Ford, que tem por base o estudo do mito, explorado na magn\u00edfica seq\u00fc\u00eancia do bar; entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ali\u00e1s, o curioso \u00e9 que Hawks, em El Dorado, joga com o cl\u00e1ssico de maneira bastante inusitada, de certa forma at\u00e9 mesmo transgressora, estruturando a primeira parte do filme em elipses carregadas de inexatid\u00e3o e sem previs\u00e3o de rumo, em um processo de quase improviso. E pelo menos dois elementos, desta feita n\u00e3o narrativos, mas visuais, demonstram a vig\u00eancia da modernidade que em breve seria ainda mais explorada em um de seus mais maltratados \u2013 pela cr\u00edtica &#8211; e surtados filmes, Rio Lobo: um zoom no rosto do personagem de Wayne, em momento determinante, e um corte descont\u00ednuo entre um e outro plano de uma mesma a\u00e7\u00e3o, escancarando na tela o processo de montagem do filme \u2013 coisa que na \u00e9poca j\u00e1 havia se tornado comum, depois de ser explorado \u00e0 exaust\u00e3o pelo seu pr\u00f3prio criador, Jean-Luc Godard, mas que eram incomuns para o cinema classicista do diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas \u00e9 na segunda metade de El Dorado que Hawks finalmente apresenta sua carta-escondida-na-manga, determinando a propuls\u00e3o de um filme j\u00e1 espetacular ao mais sincero patamar de obra-prima. \u00c9 o inicio da \u2018trama\u2019 principal, quando John Wayne retorna a El Dorado, \u00e0 briga entre fam\u00edlias, para auxiliar seu amigo, interpretado com a habitual intensidade de um dos maiores atores de todos os tempos, Robert Mitchum, atualmente xerife desiludido por uma mulher e cada vez mais afogado no alcoolismo \u2013 uma das primeiras brincadeiras de Hawks com seu pr\u00f3prio Rio Bravo, constru\u00eddo acerca de um extremo oposto, onde o xerife era auxiliado por um alco\u00f3latra na mesma condi\u00e7\u00e3o. \u00c9 a decad\u00eancia do velho oeste sob forma de uma cidade sem lei, mas o mais interessante \u00e9 que o principal foco continua sendo Wayne e a desconstru\u00e7\u00e3o do mito. Porque John Wayne, no caso, \u00e9 o velho oeste, e sua condi\u00e7\u00e3o \u00e9 determinante para o tom de mortalidade que impregna em cada frame de El Dorado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E a genialidade de Hawks chega a um n\u00edvel t\u00e3o forte, t\u00e3o ousado, t\u00e3o imortal, que fica imposs\u00edvel n\u00e3o se impressionar com a versatilidade inquestion\u00e1vel com a qual ele trata do material, que nada mais \u00e9 do que uma releitura-refilmagem-uer\u00e9ver de seu principal faroeste \u2013 e quando se diz releitura \u00e9 releitura mesmo, \u00e9 o pr\u00f3prio Rio Bravo, em seu esqueleto, transposto para a tela, em alguns casos com seq\u00fc\u00eancias id\u00eanticas, mas que terminam por ser o extremo oposto das originais em virtude da altern\u00e2ncia de um simples elemento. \u00c9 o mesmo filme, s\u00f3 que em um tom assustadoramente diferente, atrav\u00e9s do qual Hawks comprova que, com a troca de uma pequena coisinha da cena, pode-se alcan\u00e7ar um resultado final inimagin\u00e1vel, surpreendente \u2013 pequenas escolhas e suas conseq\u00fc\u00eancias, hein.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 assim que Hawks constr\u00f3i seu conto definitivo sobre a chegada do fim do cinema cl\u00e1ssico, em especial do ciclo do faroeste. Porque, quando vemos John Wayne fracassar em meio a uma cena de a\u00e7\u00e3o devido a uma bala n\u00e3o removida de suas costas \u2013 e que foi projetada por, vejam s\u00f3, uma mulher \u2013 dentro de um filme que, em sua primeira metade, trata exclusivamente do potencial ic\u00f4nico que sua figura mitol\u00f3gica transmite a um filme do estilo, pode-se dizer que o fim j\u00e1 era sem tempo. E \u00e9 por isso que El Dorado \u00e9 a maior refilmagem do cinema, caso seja encarado dessa forma. Destruir o que o primeiro filme, um cl\u00e1ssico ineg\u00e1vel, trabalhou para construir, e ainda assim ser uma das principais obras-primas \u2013 apesar de isso ser pessoal &#8211; do g\u00eanero que est\u00e1 servindo de alvo para a brincadeira o tempo todo, s\u00f3 poderia ser coisa de um filho da m\u00e3e como Hawks.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aproximadamente cinco anos separam o dia de hoje da primeira vez em que vi El Dorado, num VHS surrado, com chiado, cores esmaecidas e tudo aquilo que transforma o filme em fita em uma experi\u00eancia inusitada \u2013 e divertida \u2013 &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/el-dorado-howard-hawks-1966\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[754,1033,1048,1210,1945,1993,2481],"class_list":["post-198","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-el-dorado","tag-homenagem","tag-howard-hawks","tag-john-wayne","tag-refilmagem","tag-robert-mitchum","tag-western"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=198"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}