{"id":197,"date":"2008-05-16T20:37:06","date_gmt":"2008-05-16T22:37:06","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=197"},"modified":"2008-05-16T20:37:06","modified_gmt":"2008-05-16T22:37:06","slug":"pistoleiros-do-entardecer-sam-peckinpah-1962","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/pistoleiros-do-entardecer-sam-peckinpah-1962\/","title":{"rendered":"Pistoleiros do Entardecer (Sam Peckinpah, 1962)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.dga.org\/news\/v28_4\/images\/craft_nov03\/dloc-3-f.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pistoleiros do Entardecer (Ride in the High Country, 1962) pode n\u00e3o ser o mais reconhecido, po\u00e9tico, violento ou preciosista faroeste da brilhante carreira do norte-americano Sam Peckinpah, autor de algumas das mais impressionantes obras do per\u00edodo de reformula\u00e7\u00e3o do cinema hollywoodiano no final dos anos 60. Pode n\u00e3o ser seu momento mais marcante, nem muito menos o mais complexo narrativamente, restando para alguns como um simples projeto no qual esbo\u00e7ara temas e caracter\u00edsticas a serem desenvolvidas subseq\u00fcentemente. Pode at\u00e9 ser encaixado nisso tudo, n\u00e3o nego, n\u00e3o ouso, mas de uma coisa podem ter certeza. \u00c9, provavelmente, um dos mais fundamentais pontos de transgress\u00e3o da curta hist\u00f3ria de um dos g\u00eaneros mais deliciosos do cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desde a seq\u00fc\u00eancia de abertura, uma esp\u00e9cie de registro da decad\u00eancia de dois dos maiores \u00edcones do faroeste norte-americano em d\u00e9cadas anteriores, Randolph Scott e Joel McCrea, ambos em atua\u00e7\u00f5es monstruosas que certamente merecem t\u00edtulo na posterioridade, a mais singela e outonal obra de Peckinpah fotografa os pen\u00faltimos suspiros e o rompimento incandescente do manto m\u00edstico que acobertava o universo do \u201cvelho-oeste\u201d, desenvolvendo estas caracter\u00edsticas sob a condi\u00e7\u00e3o de uma dupla de cawboys aposentados que retomam por um momento seu antigo of\u00edcio n\u00e3o apenas para resgatarem valores perdidos com o fim de sua profiss\u00e3o, mas para encontrarem uma forma de sobreviv\u00eancia dentro de um meio no qual n\u00e3o conseguem se inserir: a civiliza\u00e7\u00e3o moderna, que enterra por definitivo seus antigos conceitos.<br \/>\n.<br \/>\nOutros diretores viriam a retratar o tema posteriormente, incluindo o mestre italiano Sergio Leone, em sua obra-m\u00e1xima, Era Uma Vez no Oeste, mas o t\u00edtulo de precursor neste aspecto \u00e9 exclusivo de Peckinpah. Em todo o seu desenvolvimento, Pistoleiros do Entardecer nos transmite a amarga sensa\u00e7\u00e3o de estarmos vendo um conto f\u00fanebre sobre o g\u00eanero, fato que transforma a lenta e intrusiva jornada em um incr\u00edvel paradoxo multifacet\u00e1rio devido aos seus constantes momentos de humor, que n\u00e3o raramente fazem quest\u00e3o de ruir com a dimens\u00e3o em que se estabelecem, propulsionando uma rela\u00e7\u00e3o de ironia impag\u00e1vel, como na seq\u00fc\u00eancia da celebra\u00e7\u00e3o de um casamento dentro de um cabar\u00e9, no qual prostitutas s\u00e3o transformadas em damas de honra e b\u00eabados congra\u00e7am o matrim\u00f4nio \u2013 numa deliciosa e ousada subvers\u00e3o de conceitos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Devido a estes fatores extraordin\u00e1rios, destitu\u00eddos da habitual contempla\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero e perfumados com pequenas doses de lirismo e corros\u00e3o, Pistoleiros do Entardecer se transforma em uma obra absolutamente fora do comum, at\u00e9 mesmo em um marco cinematogr\u00e1fico \u2013 obscurecido pelas sombras da hist\u00f3ria. Peckinpah lan\u00e7a um olhar extremamente perspicaz sobre a constru\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica do g\u00eanero, desenvolvendo o quadro de personagens sem preestabelecer defini\u00e7\u00f5es de conduta (assim como no genial A Marca da Maldade, de Orson Welles) e condensando toda sua simbologia em um dos di\u00e1logos mais microc\u00f3smicos da hist\u00f3ria, quando a principal personagem feminina do filme volta-se ao seu par rom\u00e2ntico e questiona: \u201cMeu pai diz que h\u00e1 o certo e o errado, o bem e o mal. Que n\u00e3o h\u00e1 nada no meio. Mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim, \u00e9?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 no embalo desta d\u00favida que o diretor, popularmente conhecido como o \u201cPoeta da Viol\u00eancia\u201d, constr\u00f3i sua mais singela obra, e que vejo como um de seus melhores filmes \u2013 e um dos principais representantes da hist\u00f3ria do g\u00eanero. Flertando ainda com temas que seriam explorados com maior \u00eanfase em seus trabalhos seguintes (como a f\u00e9, discutida em uma antol\u00f3gica cena de jantar), Pistoleiros do Entardecer se estabelece de forma diferente a todos os outros projetos do diretor, sem as ruidosas c\u00e2meras lentas ou seq\u00fc\u00eancias explosivas e sangrentas (com exce\u00e7\u00e3o de um \u00fanico momento, pouco destacado), mas dando o pontap\u00e9 inicial ao cerrar da portinha dupla que funcionava como portal para o mundo \u00e1rido das pistolas empoeiradas. Peckinpah seria um filho da puta de primeira por causa disso, n\u00e3o fosse o fato de ter realizado uma obra-prima.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pistoleiros do Entardecer (Ride in the High Country, 1962) pode n\u00e3o ser o mais reconhecido, po\u00e9tico, violento ou preciosista faroeste da brilhante carreira do norte-americano Sam Peckinpah, autor de algumas das mais impressionantes obras do per\u00edodo de reformula\u00e7\u00e3o do cinema &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/pistoleiros-do-entardecer-sam-peckinpah-1962\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[1865,1975,2039,2481],"class_list":["post-197","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-pistoleiros-do-entardecer","tag-ride-in-the-high-country","tag-sam-peckinpah","tag-western"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/197","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=197"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/197\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}