{"id":193,"date":"2008-05-16T18:59:07","date_gmt":"2008-05-16T20:59:07","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=193"},"modified":"2008-05-16T18:59:07","modified_gmt":"2008-05-16T20:59:07","slug":"sonata-de-outono-ingmar-bergman-1978","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/sonata-de-outono-ingmar-bergman-1978\/","title":{"rendered":"Sonata de Outono (Ingmar Bergman, 1978)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/i14.photobucket.com\/albums\/a312\/Mamoulian\/Autumn06.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"254\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>&#8220;M\u00e3e e filha. Que mistura terr\u00edvel de sentimentos, confus\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/em><br \/>\n\u00a0<br \/>\nO outono \u00e9 a esta\u00e7\u00e3o do ano caracterizada pela queda das folhas e renova\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o; \u00e9 quando as \u00e1rvores se preparam para ganhar nova &#8220;cara&#8221;, novas folhas e frutos com a chegada da primavera. Mas enquanto n\u00e3o \u00e9 chegada a esta\u00e7\u00e3o das flores, as \u00e1rvores permanecem por um bom tempo na direta situa\u00e7\u00e3o de nudez aparente, onde podem ser vistas como s\u00e3o, sem enfeites, sem cores, sem m\u00e1scaras. Foi esta a esta\u00e7\u00e3o escolhida pelo cineasta sueco Ingmar Bergman para servir de pano de fundo para a hist\u00f3ria de duas mulheres que se preparam para deixar o que \u00e9 aparentemente belo de lado e mergulharem na crueza do feio _ e que, na maior parte das vezes, \u00e9 tamb\u00e9m mais verdadeiro. Sonata de Outono, a hist\u00f3ria do reencontro de m\u00e3e e filha ap\u00f3s um hiato de 7 anos que acaba convergindo para uma dura batalha de verdades e ressentimentos, \u00e9 mais um filme\/estudo de Bergman sobre as rela\u00e7\u00f5es do ser humano e a maneira como lidamos com n\u00f3s mesmos. Para retratar a atmosfera outonal, Bergman mais uma vez contou com o primoroso trabalho de Sven Nykvist, criando na fotografia um aspecto impressionista, ainda ressaltado pelos figurinos e a dire\u00e7\u00e3o de arte, baseados no vermelho, amarelo e verde, cores caracter\u00edsticas da esta\u00e7\u00e3o. Bergman assina aqui tamb\u00e9m os planos mais recorrentes de sua carreira pois Sonata de Outono, apesar do tom teatral e de se passar em basicamente um \u00fanico ambiente, \u00e9 cinema em sua forma mais pura, com os t\u00edpicos closes fechados nos rostos das atrizes e as tomadas de perfil que desvendam um tanto mais do que aquele personagem \u00e9. Mas s\u00e3o os assuntos abordados que fazem do filme uma esp\u00e9cie de resumo da obra de Bergman, j\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel encontrar aqui toda a gama de temas que sempre perturbaram e pontuaram a carreira do diretor e que fizeram de seus filmes uma eterna busca pela compreens\u00e3o de si mesmo. Da inf\u00e2ncia traum\u00e1tica, matriz de todos os problemas da vida adulta, \u00e0 cita\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia e import\u00e2ncia de Deus, Bergman pontua o drama de m\u00e3e e filha como todos seus dilemas pessoais e que, por sua vez, acabam tornando a hist\u00f3ria ainda mais densa e verdadeira. \u00c9 quando percebemos que estamos diante de uma narrativa baseada no sentimento do ser humano que clama por amor mas que acaba gerando _em si e nos outros_ uma dor quase irremedi\u00e1vel, capaz de acompanhar por toda uma vida, perpetuada pelo medo, a culpa e a busca pelo perd\u00e3o redentor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque Sonata de Outono \u00e9 sobre o amor. Aquele amor que todos dizemos ter e que, orgulhosos, usamos em palavras f\u00e1ceis e discursos calorosos, num auto-engano recorrente e gradativo. O amor que Charlotte (Ingrid Bergman) diz ter por sua filha Eva (Liv Ullmann), mas que soa t\u00e3o supercifial como em todas as vezes em que ela necessita ser reafirmada diante de quem est\u00e1 ao seu redor. Quando sua filha diz estar feliz dando aulas na par\u00f3quia local, Charlotte cita o fato de ter feito uma turn\u00ea de sucesso em escolas americanas, tocando para milhares de alunos, ressaltando o clima de competi\u00e7\u00e3o que estabelece com Eva. \u00c9 essa necessidade que faz dela um personagem forte e fraco ao mesmo tempo, sempre buscando uma fuga mais simples. Mostrar o que sente seria dif\u00edcil demais, portanto Charlotte acaba optando pela superficialidade de uma prov\u00e1vel alegria, por fingir diante dos outros o que estaria passando dentro dela. Como quando reencontra sua filha v\u00edtima de uma doen\u00e7a degenerativa, Helena, e se mostra capaz de fazer promessas que claramente n\u00e3o poder\u00e1 cumprir. E mesmo estando s\u00f3 em seu quarto, refletindo sobre o acontecimento, Charlotte se pega num paradoxal discurso de amor e raiva, ainda mais por Eva t\u00ea-la feito passar por tal constrangimento. Ela se v\u00ea incapaz de admitir um sentimento isento de raiva ou cobran\u00e7a por sua filha e acaba atribuindo a Eva sua maneria err\u00f4nea de agir. Sendo assim, para ela \u00e9 justific\u00e1vel seu sentimento d\u00fabio e acaba seguindo se enganando e tentando enganar os outros. Sorrisos s\u00e3o dados, olhares s\u00e3o lan\u00e7ados e palavras s\u00e3o caladas. Foi dessa maneira que Charlotte conduziu sua vida e &#8220;amou&#8221; as pessoas com quem convivia: Leonardo, seu amigo rec\u00e9m-falecido, foi digno de seus cuidados nos momentos finais mas n\u00e3o obteve uma l\u00e1grima sequer ao ser relembrado por ela; seu marido, complacente e compreensivo, recebeu palavras elogiosas em cada cita\u00e7\u00e3o, mesmo que durante a vida em comum s\u00f3 tenha sido presenteado com aus\u00eancia e trai\u00e7\u00e3o; Helena foi abandonada quando pequena mas ganhou um rel\u00f3gio de pulso da m\u00e3e quando do reencontro _certamente para contar todas as horas que lhe prendem a uma vida morta; e Eva, que sempre amou e admirou incondicionalmente a m\u00e3e quando crian\u00e7a mesmo recebendo em troca a mais completa indiferen\u00e7a, foi agraciada com uma inf\u00e2ncia imposs\u00edvel e nela a n\u00e3o emin\u00eancia do desenvolvimento. Foi em Eva que Charlotte mais despejou seu falso amor e dele fez nascer um \u00f3dio grandioso e assustador.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nPorque Sonata de Outono \u00e9 sobre o \u00f3dio. O \u00f3dio que Charlotte enxerga nas palavras de Eva quando esta finalmente se v\u00ea livre para dizer tudo que manteve guardado durante toda a vida. O \u00f3dio que acusa mas que, como Eva cita em determinado momento, n\u00e3o pode ser diminu\u00eddo diante do \u00f3dio da pr\u00f3pria Charlotte. Aquele que a fez tomar tantas medidas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 filha e machuc\u00e1-la quase que de maneira irrepar\u00e1vel. A constata\u00e7\u00e3o de Eva de que seria na sua infelicidade que a m\u00e3e encontrava seu triunfo n\u00e3o deixa de ser verdadeira _ e abomin\u00e1vel_\u00a0 levando-se em conta toda a necessidade de Charlotte de se sobressair diante da filha. No momento em que Eva se disp\u00f5e a tocar um prel\u00fadio de Chopin, admitindo de antem\u00e3o uma certa defici\u00eancia de t\u00e9cnica, \u00e9 imposs\u00edvel para Charlotte n\u00e3o viver um misto de sensa\u00e7\u00f5es: ao observar a filha tocando, ela n\u00e3o esconde no olhar a decep\u00e7\u00e3o diante da n\u00e3o-perfei\u00e7\u00e3o; mas ao olhar diretamente para o rosto de Eva, Charlotte acaba demonstrando certa compaix\u00e3o, ainda que isso n\u00e3o a esquive de citar todos os erros cometidos por Eva em sua interpreta\u00e7\u00e3o, mesmo que esteja ciente de ser a respons\u00e1vel por causar uma imensa dor na filha.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nPorque Sonata de Outono \u00e9 sobre a dor. \u00c9 sobre um prel\u00fadio de Chopin, interpretado de forma fria e racional por Charlotte, capaz de abdicar das sensa\u00e7\u00f5es diante da busca pela perfei\u00e7\u00e3o. Ela ensina para Eva: &#8220;H\u00e1 dor mas sem parecer. Depois um breve al\u00edvio. Mas ele some de repente, e a dor continua a mesma.&#8221; E ao come\u00e7ar a dedilhar no piano tem sobre intensa observa\u00e7\u00e3o o olhar de Eva, atenta \u00e0 t\u00e9cnica que a m\u00e3e esbanja e constatando assim sua aparente derrota em mais uma batalha emocional. Mas quando o olhar de Eva \u00e9 direcionado ao rosto da m\u00e3e (exatamente como aconteceu na cena anterior, s\u00f3 que em posi\u00e7\u00f5es opostas), o que percebemos \u00e9 toda a amargura reprimida por ela e que acabou gerando uma esp\u00e9cie de medo da figura da m\u00e3e.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nPorque Sonata de Outono \u00e9 sobre o medo. O medo que Eva tinha da m\u00e3e quando crian\u00e7a e que a fazia n\u00e3o dizer nada, mesmo quando desejava intensamente. E vindo desse medo, a incapacidade de comunica\u00e7\u00e3o, a dificuldade de express\u00e3o e a aceita\u00e7\u00e3o do que lhe era dado. Por conta disso, Eva acabou se tornando uma mulher incapaz de questionar muito as coisas que lhe aconteciam, sendo muito mais espectadora da pr\u00f3pria vida do que protagonista da mesma. E Bergman acaba dando a real dimens\u00e3o dessa situa\u00e7\u00e3o nos flashbacks que s\u00e3o inseridos ao longo do embate de Eva e Charlotte, quando somos transportados para a inf\u00e2ncia de Eva (volto a dizer, a origem de todos os problemas emocionais do ser humano, como em todo filme de Bergman) mas n\u00e3o participamos dos acontecimentos ativamente; o que \u00e9 dito n\u00e3o pode ser ouvido e acabamos mantendo, atrav\u00e9s da c\u00e2mera sempre parada e em plano aberto, uma dist\u00e2ncia consider\u00e1vel do que est\u00e1 sendo retratado. Como se aquilo realmente s\u00f3 pudesse ser visto e n\u00e3o reparado. E assim, numa bola de neve de impossibilidades, os personagens v\u00e3o se tornando cada vez mais incapazes de se comunicarem e sentirem. O marido de Eva n\u00e3o sabe como dizer para a mulher que a ama, Charlotte diz que sempre necessitou do carinho da filha mas que encarava o amor desta como exig\u00eancias, e Helena assume o papel aleg\u00f3rico da mais completa impossibilidade de comunica\u00e7\u00e3o, ficando isolada \u00e0 depend\u00eancia da irm\u00e3 para estabelecer qualquer contato com a m\u00e3e. E sendo a doen\u00e7a de Helena, mais que uma met\u00e1fora da destrui\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o familiar, a culpa incutida no futuro de Charlotte.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nPorque Sonata de Outono \u00e9 sobre a culpa. A culpa do ser humano em n\u00e3o perceber o que est\u00e1 ao seu redor, de deixar passar o que n\u00e3o tem mais retorno e que acaba abrindo caminho para uma \u00fanico desfecho aparente: a solid\u00e3o. A neglig\u00eanica de Charlotte com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia em detrimento da carreira, a levou a uma vida de sucesso e riquezas. Mas nem ela \u00e9 capaz de negar que sente falta de um lar quando est\u00e1 longe, ainda que n\u00e3o saiba o que poderia buscar l\u00e1. Talvez por Charlotte nunca ter tido um lar verdadeiro, seja ele f\u00edsico ou emocional. E a dor perene nas costas que acompanha a pianista acaba sendo reflexo da pr\u00f3pria culpa pelo abandono de si e dos outros. A perda do que lhe poderia ser caro desperta em Charlotte uma necessidade de reden\u00e7\u00e3o, a tentativa de algo que lhe isente da culpa eterna. E nesse \u00e2mbito, a perda dela poderia ser relativizada diante da perda de Eva: o pr\u00f3prio filho, morto num afogamento. Mas Eva se mant\u00e9m ligada ao filho (o que n\u00e3o deixa de ser interessante nessa fase de Bergman, mesmo depois de ele ter negado a exist\u00eancia de Deus, em Luz de Inverno) e acredita que ele continua vivo em algum tipo de plano paralelo. Em determinado momento ela diz para a m\u00e3e que: &#8220;\u00c9 medo e presun\u00e7\u00e3o acreditar em limites. N\u00e3o existem limites, nem para os pensamentos, nem para os sentimentos.&#8221; Resta a Charlotte realmente acreditar na exist\u00eancia de uma mudan\u00e7a que a possibilite o perd\u00e3o pelos erros cometidos.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nPorque Sonata de Outono \u00e9 sobre o perd\u00e3o. Ou sobre a n\u00e3o possibilidade dele, j\u00e1 que certas coisas n\u00e3o tem mais volta e algumas m\u00e1goas s\u00e3o eternas. A vida de Eva ou de Helena n\u00e3o poderia mais ser mudada por conta de um arrependimento da m\u00e3e, ainda que este fosse verdadeiro. E no caso de Charlotte, a necessidade de ser perdoada seria o que lhe restava para se manter ainda pr\u00f3xima de uma certa humanidade, mas at\u00e9 que ponto ela realmente estaria disposta a mudar? Todas as revela\u00e7\u00f5es e verdades s\u00e3o culminadas na mais dura fala de todo o longa, quando Eva diz \u00e1 m\u00e3e sobre o que aconteceu entre Helena e Leonardo e o estado daquela diante da partida deste, ocasionada por culpa de Charlotte e, obrigada a constatar a dura realidade, fulmina: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 desculpas. S\u00f3 h\u00e1 uma verdade e uma mentira. N\u00e3o pode haver perd\u00e3o.&#8221;<br \/>\n\u00a0<br \/>\nNo pragmatismo aparente se encerraria mais uma obra-prima de Ingmar Bergman, mas cabe lembrar que o filme \u00e9 sobre o outono, e que a esta\u00e7\u00e3o tem fim. Com a queda das folhas, as \u00e1rvores acabam sendo reveladas em sua ess\u00eancia mais crua e feia. Mas ainda que as folhas ca\u00eddas n\u00e3o possam mais retomar vida nas \u00e1rvores e fiquem perdidas no ch\u00e3o, em algum momento a primavera vir\u00e1 e com ela o nascimento de novas folhas e novas possibilidades de cores. Porque Sonata de Outono \u00e9 sobre a esperan\u00e7a.<br \/>\n\u00a0<br \/>\n<strong>Preste aten\u00e7\u00e3o:<\/strong> Em toda a intensidade da seq\u00fc\u00eancia de execu\u00e7\u00e3o do prel\u00fadio de Chopin, uma das mais belas _e fortes_ cenas de toda a hist\u00f3ria do cinema. Amparado pelas brilhantes interpreta\u00e7\u00f5es de Liv Ullmann e Ingrid Bergman, Ingmar Bergman permite que suas atrizes expressem com uma economia assustadora de gestos, faciais ou corporais, todo o turbilh\u00e3o de sentimentos que se passa com aquelas mulheres. E fora que Chopin \u00e9 Chopin&#8230;<br \/>\n\u00a0<br \/>\n<strong>Porque n\u00e3o perder:<\/strong> Primeiro e \u00fanico filme de Ingrid Bergman com seu compatriota Ingmar Bergman; a melhor interpreta\u00e7\u00e3o desta que foi uma das maiores estrelas da hist\u00f3ria do cinema; uma das maiores interpreta\u00e7\u00f5es da maior atriz da hist\u00f3ria do cinema (na minha opini\u00e3o), Liv Ullmann; o melhor (e olha que afirmar isso \u00e9 muito complicado) filme do maior diretor da hist\u00f3ria do cinema&#8230;\u00e9 muito &#8220;melhor da hist\u00f3ria&#8221; para perder, n\u00e3o concorda?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Thiago Mac\u00eado Correia<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;M\u00e3e e filha. 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