{"id":192,"date":"2008-05-16T18:55:58","date_gmt":"2008-05-16T20:55:58","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=192"},"modified":"2008-05-16T18:55:58","modified_gmt":"2008-05-16T20:55:58","slug":"de-volta-ao-vale-das-bonecas-russ-meyer-1970","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/de-volta-ao-vale-das-bonecas-russ-meyer-1970\/","title":{"rendered":"De Volta ao Vale das Bonecas (Russ Meyer, 1970)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.nicepics.blogger.com.br\/beyond_valley_dolls_xl_02.jpg\" alt=\"\" width=\"349\" height=\"233\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O ter\u00e7o final da d\u00e9cada de 1960 foi um per\u00edodo delirante na hist\u00f3ria da sociedade americana. Vivendo em meio ao culto da liberdade de express\u00e3o, do amor livre, carnal, sem quaisquer barreiras, da lisergia e do \u00e1pice do \u201crock n\u2019 roll\u201d, os jovens gastavam seus dias sem qualquer outra preocupa\u00e7\u00e3o al\u00e9m de&#8230; viver a vida em liberdade, transar, usar o m\u00e1ximo de drogas poss\u00edvel e ouvir rock n\u2019 roll. Era a fase da psicodelia, do movimento hippie, uma incandescente contracultura que chegaria tapeando com louvor a gorda face do conservadorismo que se moldou em todo o mundo com o t\u00e9rmino da segunda grande guerra \u2013 algo que, de certo modo, \u00e9 at\u00e9 compreens\u00edvel, ao passo que a aproxima\u00e7\u00e3o da sociedade com valores humanos mais \u201ccertinhos\u201d foi importante para reacender a esperan\u00e7a apagada pelos monstruosos carrascos do nazifascismo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esta loucura toda tamb\u00e9m teve reflexo no cinema, que j\u00e1 vivia h\u00e1 cerca de uma d\u00e9cada as conseq\u00fc\u00eancias proporcionadas pelo surgimento da Nouvelle Vague francesa, de Truffaut, Godard, Resnais e companhia \u2013 que quebrou com diversas caracter\u00edsticas convencionalistas do cinem\u00e3o hollywoodiano, tanto narrativamente quanto na decupagem das obras. E foi bebendo destas duas fontes que Russ Meyer (de Fast, Pussycat, Kill! Kill!), um dos precursores do cinema \u201cunderground\u201d estadunidense (que teve como sucessor o pol\u00eamico e exc\u00eantrico cineasta John Waters, de Pink Flamingos), realizou aquela que \u00e9 considerada por muitos a grande produ\u00e7\u00e3o de sua carreira: De Volta ao Vale das Bonecas (1970), uma obra de arte lis\u00e9rgica e totalmente inclassific\u00e1vel que se tornou uma das mais cultuadas e importantes j\u00e1 feitas nessa linha de cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Roteirizado por ningu\u00e9m mais ningu\u00e9m menos que Roger Ebert, atualmente o cr\u00edtico de cinema mais renomado em todo o mundo, De Volta ao Vale das Bonecas faz parte daquele vasto grupo de filmes que deveriam vir com os dizeres \u201came ou odeie\u201d rotulados na testa (caso os filmes tivessem testa, \u00e9 claro). Na verdade, \u00e9 algo t\u00e3o incomum, t\u00e3o diferente de tudo o que havia sido feito at\u00e9 ent\u00e3o, que provavelmente s\u00f3 conseguir\u00e1 ser apreciado por quem realmente estiver proposto a se doar completamente ao universo da obra. Sem preocupa\u00e7\u00e3o alguma com coer\u00eancia narrativa ou composi\u00e7\u00e3o de personagens, Meyer, em seu primeiro e \u00fanico trabalho realizado com aval financeiro de um grande est\u00fadio de cinema hollywoodiano, realiza um verdadeiro coquetel de sexo, drogas e rock n\u2019 roll, por\u00e9m muito mais voltado \u00e0 s\u00e1tira, ou melhor, \u00e0 caricatura deste estilo de vida, do que necessariamente ao seu retrato.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A hist\u00f3ria, como o pr\u00f3prio letreiro que abre o filme conta ao espectador, n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o alguma com O Vale das Bonecas, obra liter\u00e1ria de Jacquel Susann que havia sido transportada \u00e0s salas de cinema em 1967, tendo Sharon Tate como protagonista \u2013 pouco tempo antes de ser brutalmente assassinada, no famoso caso do man\u00edaco Charles Manson. Ali\u00e1s, originalmente, a inten\u00e7\u00e3o era mesmo de se realizar uma esp\u00e9cie de pseudocontinua\u00e7\u00e3o, mas a id\u00e9ia foi totalmente descartada ap\u00f3s alguns percal\u00e7os jur\u00eddicos \u2013 o que subverteu a inten\u00e7\u00e3o dos realizadores, transformando, assim, a id\u00e9ia de pseudocontinua\u00e7\u00e3o em s\u00e1tira mesmo, n\u00e3o necessariamente do filme em si, mas sim do universo em que ele foi desenvolvido. Para tanto, Ebert e Meyer pouco se preocupam em \u201ccontar uma hist\u00f3ria\u201d, criando diversas subtramas (ou melhor, realizando a obra apenas com subtramas, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 uma que ganhe qualquer destaque frente \u00e0s outras) que des\u00e1guam em situa\u00e7\u00f5es on\u00edricas, absurdas mesmo, sempre com muita m\u00fasica e humor sarc\u00e1stico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As protagonistas da obra, a princ\u00edpio, s\u00e3o um grupo de garotas que possuem uma banda de rock, que partem para Los Angeles em busca de fama e sucesso. Ao chegarem l\u00e1, s\u00e3o inseridas em um c\u00edrculo social bastante caricato, que brinca com essas caracter\u00edsticas principais da contracultura social da \u00e9poca: vivendo em um mundo de festas, glamour, muitas drogas e mulheres nuas (muitas, mas muitas mesmo!) saltando de um lado para outro da tela tal qual lebres no cio, elas iniciam um processo de reestrutura\u00e7\u00e3o idiossincr\u00e1tica, largando a vis\u00e3o do mundo que possu\u00edam em sua terra natal e se jogando gostosamente aos prazeres da vida. Com isso, v\u00e3o aparecendo diversos outros personagens, e um c\u00edrculo de situa\u00e7\u00f5es vertiginosamente exc\u00eantricas se fecha para n\u00e3o abrir mais \u2013 compondo um roteiro que vai, aos poucos, se auto-satirizando de maneira divertid\u00edssima, brincando tamb\u00e9m com diversos clich\u00eas cinematogr\u00e1ficos.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Analisando de forma mais profunda, \u00e9 constat\u00e1vel que uma obra dessas, que se fecha dentro de certo per\u00edodo hist\u00f3rico e \u00e9 montada exclusivamente acerca de suas caracter\u00edsticas, tem todas as chances de ser transformada automaticamente em um produto datado, visto que o tempo muitas vezes se encarrega de enterrar certos conceitos, n\u00e3o permitindo que gera\u00e7\u00f5es futuras compreendam-nos. N\u00e3o \u00e9 o caso de De Volta ao Vale das Bonecas. Mesmo que tenha sido feito exatamente dessa forma (por\u00e9m, com uma grande diferen\u00e7a, j\u00e1 que o tempo n\u00e3o tratou de acobertar a referida \u00e9poca \u2013 pelo contr\u00e1rio, trouxe uma nostalgia imensa a quem viveu e at\u00e9 mesmo a quem gostaria de ter vivido o per\u00edodo), diversas outras qualidades transformaram a amalucada empreitada de Meyer no submundo do rock n\u2019 roll e da lisergia em um produto cinematogr\u00e1fico maravilhoso.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Primeiramente, \u00e9 ineg\u00e1vel a impecabilidade t\u00e9cnica da produ\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, surpreendentemente ineg\u00e1vel, a quem esperava algo que fizesse jus \u00e0 tosquice n\u00e3o menos ineg\u00e1vel da hist\u00f3ria. Com uma verba relativamente grande dos est\u00fadios Fox \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, fato in\u00e9dito e \u00fanico em sua carreira, Meyer fez quest\u00e3o de exagerar no bom gosto da composi\u00e7\u00e3o c\u00eanica. A dire\u00e7\u00e3o de arte e a fotografia de De Volta ao Vale das Bonecas s\u00e3o excepcionais, dando uma verdadeira aula a muitos artistas cuja pretens\u00e3o \u00e9 seguir a linha \u201cs\u00e9ria\u201d do cinema. Desde a constru\u00e7\u00e3o dos cen\u00e1rios, apostando na diversidade abundante de cores, t\u00edpica do psicodelismo, at\u00e9 o trabalho bastante equilibrado no que tange ao controle de c\u00e2mera, tudo serve para apresentar ao espectador a grande diferen\u00e7a de talento que Meyer possu\u00eda em rela\u00e7\u00e3o a outros cineastas do estilo. \u00c9 trabalho de profissional mesmo, que comprova, a quem duvidava, a grande potencialidade t\u00e9cnica do diretor.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outro fator determinante para a boa funcionabilidade \u00e9 a montagem, que viria a ser revolucion\u00e1ria dentro do cinema comercial hollywoodiano (seguindo os passos dados pelos supracitados autores da Nouvelle Vague, em especial Jean-Luc Godard). Com cortes r\u00e1pidos, fren\u00e9ticos, e planos que raramente duram mais do que cinco ou dez segundos, o trabalho de edi\u00e7\u00e3o da obra, al\u00e9m de antecipar um estilo que viria a explodir d\u00e9cadas mais tarde no mundo cinematogr\u00e1fico (mais precisamente depois do surgimento do videoclipe, e que seria conhecido popularmente como o estilo \u201cMTV\u201d, pungente aos olhos mais conservadores), tamb\u00e9m foi de grandiosa import\u00e2ncia para que Meyer conseguisse acobertar a principal falha de seu trabalho: a inexpressividade e o amadorismo de seus atores e atrizes, que, como o pr\u00f3prio autor afirma, n\u00e3o foram escolhidos pela qualidade de suas atua\u00e7\u00f5es, mas sim pela \u201cgostosura\u201d de seus corpos, j\u00e1 que, constantemente, teriam de ficar nus em frente \u00e0s c\u00e2meras \u2013 o diretor, ali\u00e1s, foi um dos primeiros fot\u00f3grafos da revista Playboy, o que por si j\u00e1 explica a obsess\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ali\u00e1s, a grande ousadia de Meyer em De Volta ao Vale das Bonecas \u00e9 justamente esta: o diretor, j\u00e1 consagrado pelo grande desfile de peitos femininos que proporcionava em suas produ\u00e7\u00f5es independentes, manteve o esp\u00edrito e a ideologia caracter\u00edsticos em seu trabalho e construiu, mesmo em uma produ\u00e7\u00e3o de est\u00fadio, um verdadeiro mostru\u00e1rio de belos corpos nus (femininos, claro), permeando a obra com diversas cenas de forte cunho sexual e at\u00e9 mesmo uma seq\u00fc\u00eancia extremamente er\u00f3tica entre duas mulheres, uma ousadia tremenda para a \u00e9poca \u2013 que, por sinal, \u00e9 apresentada em um terceiro ato absurdamente genial, que subverte completamente o estilo da obra, acrescentando \u00e0 narrativa refer\u00eancias ao nazismo e ao caso de Charles Manson (embaladas por ironia completamente escrachada, por mais paradoxal que isso seja) que constituem um banho de sangue recheado de seq\u00fc\u00eancias de pura viol\u00eancia gr\u00e1fica. Um final fant\u00e1stico para um filme n\u00e3o menos sensacional. Cult movie do mais alto n\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ter\u00e7o final da d\u00e9cada de 1960 foi um per\u00edodo delirante na hist\u00f3ria da sociedade americana. Vivendo em meio ao culto da liberdade de express\u00e3o, do amor livre, carnal, sem quaisquer barreiras, da lisergia e do \u00e1pice do \u201crock n\u2019 &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/de-volta-ao-vale-das-bonecas-russ-meyer-1970\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[211,322,648,1341,1869,1891,2004,2030,2104],"class_list":["post-192","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-anos-60","tag-beyond-the-valley-of-dolls","tag-de-volta-ao-vale-das-bonecas","tag-lisergia","tag-playboy","tag-psicodelia","tag-rock","tag-russ-meyer","tag-sexo-drogas-e-rock-n-roll"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=192"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}