{"id":191,"date":"2008-05-16T18:46:02","date_gmt":"2008-05-16T20:46:02","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=191"},"modified":"2008-05-16T18:46:02","modified_gmt":"2008-05-16T20:46:02","slug":"sangue-negro-paul-thomas-anderson-2007","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/sangue-negro-paul-thomas-anderson-2007\/","title":{"rendered":"Sangue Negro (Paul Thomas Anderson, 2007)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.slashfilm.com\/wp\/wp-content\/images\/therewillbeblood.jpg\" alt=\"\" width=\"440\" height=\"330\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">At\u00e9 aquela troca de personagens mais pra metade da coisa, PTA passeava largamente por um caminho que o levaria a uma obra-prima. N\u00e3o sobre cobi\u00e7a, corros\u00e3o do poder, obsessividade auto-destrutiva e outras porras (uma porque n\u00e3o d\u00e1 pra rivalizar com Cidad\u00e3o Kane, Sierra Madre ou at\u00e9 Scarface, do Brian, e outra porque seria um rumo constrangedoramente f\u00e1cil), mas simplesmente sobre a incomunicabilidade de um homem trancafiado no pr\u00f3prio corpo (vi\u00e9s evocado e desenvolvido magistral e surpreendentemente pelo Van Sant em Paranoid Park), que segue reto, num t\u00fanel isolado do mundo, com a esperan\u00e7a de encontrar na luz a chave pra escurid\u00e3o da alma (que se n\u00f3s n\u00e3o conhecemos, Daniel tampouco). Temos at\u00e9 o famigerado ponto um cinema invasivo, laminal, e pela primeira vez no caso do PTA, gigantesco por si mesmo. A cena do Daniel deitado e abra\u00e7ado ao filho \u00e9 de bem longe, pra mim, a melhor do filme. Depois que o mundo bate a porta na cara de Daniel, ele a esmurra e implora para entrar de volta, num misto de \u00f3dio, de pena e compaix\u00e3o, protegendo aquele menino como se buscasse a prote\u00e7\u00e3o de si mesmo, abra\u00e7ando-o como se se abra\u00e7asse, fazendo com que (at\u00e9 o momento) se torne imposs\u00edvel determinar se a dist\u00e2ncia entre ele e o filho \u00e9 medida em mil\u00edmetros ou quil\u00f4metros.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Eu n\u00e3o sabia bem o que tanto me incomodava at\u00e9 ler o excelente texto do Thiago (que defende brilhantemente o filme, da\u00ed a dimens\u00e3o de se ler a respeito, principalmente opini\u00f5es que v\u00e3o de encontro \u00e0s nossas). Quando o Thiago cita essa quebra como passaporte de entrada no mundo individual de Daniel Plainview, percebi que todo aquele v\u00e1cuo entre mim e o PTA havia retornado por inteiro. Estranhamente, aproximando-me do personagem, ele terminou me afastando de tudo. A partir da\u00ed, as pretens\u00f5es v\u00e3o tentando universos, retornando ao espectador muito pouco do que haviam projetado. O filme quer crescer, inflar, explodir e acaba mirrando, atrofiando, implodindo. Daniel, que era at\u00e9 ent\u00e3o um horizonte inexplorado (e inexplor\u00e1vel), \u00e9 trancado numa 3&#215;4. \u00c9 s\u00e9rio, a impress\u00e3o \u00e9 de que o filme foi pulverizado, restando apenas cacos e escombros do monumento que se estava construindo.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contribu\u00edram muito pra esta conclus\u00e3o aquelas investidas irrespons\u00e1veis de humor. A coisa pode muito bem ser resumida na cena do batismo, a que eu mais esperei durante o filme, aquela com que mais vibrei pelo in\u00edcio promissor e que mais me decepcionou pelo desfecho imbecil (parece at\u00e9 que falava do filme todo agora, hehe). Eu estava eletrificado pelo close no Day-Lewys, pela virul\u00eancia no ato do Eli, pela tortura e destrui\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do personagem, at\u00e9 que isso tudo desaparece num riso que me atacou primeiro pelo rid\u00edculo depois pelo desespero de contemplar a rasura irrepar\u00e1vel de uma verdadeira obra de arte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E foi um elemento que teria dado certo na cena final n\u00e3o fosse a inseguran\u00e7a do Paul Thomas Anderson em rela\u00e7\u00e3o ao potencial do Dano, do Day-Lewys e, acima de tudo, do seu pr\u00f3prio. N\u00e3o precisava de nenhum &#8220;i drink your milkshake&#8221;, n\u00e3o precisava de caricatura, n\u00e3o precisava nivelar no subterr\u00e2neo. A divers\u00e3o meio ing\u00eanua (apesar do fundo s\u00e1dico, mas ainda ing\u00eanua) do in\u00edcio (alicer\u00e7ada em especial por um gosto de vingan\u00e7a sobre Eli) confrontada com o choque final poderia ter gerado um contraste de riso e catatonia no espectador. Acredito at\u00e9 que tenha sido este o objetivo, mas \u00e9 aquela coisa de pretens\u00f5es mal realizadas. E teria sido maravilhoso, \u00fanico, inenarr\u00e1vel. No entanto, a \u00fanica coisa indiz\u00edvel aqui \u00e9 o embranco triste do que poderia ter sido e n\u00e3o foi.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Preciso rever Magn\u00f3lia (n\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o cedo), mas creio que fica Embriagado de Amor no topo e este logo abaixo. N\u00e3o t\u00e3o &#8220;logo&#8221;, na verdade. Acho que eu gostava mais do filme antes de come\u00e7ar a escrever, maldi\u00e7\u00e3o, hahaha. Mas tem umas coisas geniais. At\u00e9 o abandono na esta\u00e7\u00e3o tudo corria orgasmicamente, e n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m que a continuidade do filme seja o excremento radioativo maior do cinema, mas diante do que a primeira hora preparou (o palco de uma obra-prima moderna), a pretensa apoteose n\u00e3o apenas decepcionou como decepou a base. No mais, Daniel Day-Lewys absurdo (durante todo o filme, preciso dizer) e aquela trilha (de)composta de arranjos mec\u00e2nicos e acordes de metais toma conta de tudo, transportando a cena da explos\u00e3o da bolsa de g\u00e1s para um plano intermedi\u00e1rio, entre os olhos e a tela do cinema. Houve quem tomou cuidado pra n\u00e3o se respingar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">2\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 aquela troca de personagens mais pra metade da coisa, PTA passeava largamente por um caminho que o levaria a uma obra-prima. 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