{"id":183,"date":"2008-05-16T11:28:51","date_gmt":"2008-05-16T13:28:51","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=183"},"modified":"2008-05-16T11:28:51","modified_gmt":"2008-05-16T13:28:51","slug":"crepusculo-dos-deuses-sunset-boulevard-1950","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/crepusculo-dos-deuses-sunset-boulevard-1950\/","title":{"rendered":"Crep\u00fasculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"vertical-align:text-top;\" src=\"http:\/\/img.photobucket.com\/albums\/v317\/ROQUENROL\/Sunset2520Boulevard_015B15D.jpg\" alt=\"Sunset Boulevard\" width=\"400\" height=\"316\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao longo dos seus mais de 100 anos, o cinema produziu incont\u00e1veis filmes. A maioria caiu no esquecimento, outros tiveram pequeno destaque, sendo esquecidos ao longo do tempo, e outros ainda sobreviveram razoavelmente \u00e0s vicissitudes do tempo. Mas apenas alguns pouqu\u00edssimos filmes tiveram o poder de, n\u00e3o apenas sobreviver ao longo do tempo, mas tamb\u00e9m de, ap\u00f3s v\u00e1rios anos desde a sua realiza\u00e7\u00e3o, se manterem mais atuais do que nunca. A esses filmes costumam dar o t\u00edtulo de \u201ccl\u00e1ssicos\u201d. \u201cCrep\u00fasculo dos Deuses\u201d, obra \u2013 prima de 1950 do diretor Billy Wilder, est\u00e1 entre esses cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas ele \u00e9 mais do que um cl\u00e1ssico: Billy Wilder, ao fazer esse filme, deixou como legado um dos mais \u00e1cidos, fortes e, por que n\u00e3o, verdadeiros retratos de Hollywood. \u00c9 o ve\u00edculo cinematogr\u00e1fico n\u00e3o s\u00f3 olhando para as suas pr\u00f3prias feridas, mas expondo \u2013 as, cutucando \u2013as, remoendo \u2013 as, espremendo \u2013 as, jogando sal nelas, enfim, fazendo com que tudo o que h\u00e1 de podre em Hollywood seja mostrado sem concess\u00f5es. Mais do que isso: Atrav\u00e9s de uma carga dram\u00e1tica mais do que intensa e de um sombrio e funesto clima noir, Billy Wilder aborda o fim de uma fase do cinema, e como essa mesma fase foi sepultada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esse retrato do fim de uma era \u00e9 mostrado, atrav\u00e9s dos anseios, das frustra\u00e7\u00f5es e das ang\u00fastias, enfim, dos dramas existenciais dos quatro personagens principais, que vivem ou viveram dentro ou fora das telas: atrav\u00e9s do roteirista Joe Gills (Willian Holden), temos representado aquele que chegou cheio de sonhos e ambi\u00e7\u00f5es ao mundo do cinema, mas que, por causa de certas circunst\u00e2ncias, acaba se desiludindo com a sua voracidade e sua falta de miseric\u00f3rdia contra \u00e0queles que n\u00e3o conseguem se firmar, e, por conta disso, acaba vivendo uma degrada\u00e7\u00e3o moral, ao se transformar em um aspirante a gigol\u00f4 de Norma Desmond (Gloria Swanson), que outrora, foi uma grande estrela do cinema mudo, mas que, agora, vive a solid\u00e3o e a eterna ang\u00fastia de quem um dia provou a fama e hoje vive no esquecimento, vivendo de seu passado glorioso, e, por conta dessas lembran\u00e7as que foram felizes, mas que agora se tornam apenas um fiapo de uma vida amargurada, acaba enlouquecendo dentro de sua glamourosa, mas tamb\u00e9m representativa de um passado agora cadav\u00e9rico, mans\u00e3o, junto com seu mordomo Max Von Mayerling (Erich Von Stroheim), que, outrora, foi um diretor promissor, tendo dirigido, entre outras estrelas, a uma inexperiente Norma Desmond, se apaixonando e casando por ela e que, por conta dessa paix\u00e3o, largou uma segura e promissora carreira de diretor para viver eternamente servindo \u2013 a, vestindo \u2013 se de uma imensa culpa de quem sacrificou toda uma vida alheia, al\u00e9m da pr\u00f3pria, alimentando a culpa de sua pupila atrav\u00e9s de cartas falsas de f\u00e3s, contribuindo ainda mais para a sua loucura. No meio desse furac\u00e3o de morbidez e decad\u00eancia, temos Betty Schaefer (Nancy Olson), nascida a tr\u00eas quarteir\u00f5es de Hollywood, preparada desde crian\u00e7a para ser mais uma artista de Hollywood, mas, ora pela falta de uma pl\u00e1stica perfeita (n\u00e3o gostaram do seu nariz), ora pela falta de aulas de atua\u00e7\u00e3o, acaba trabalhando como leitora e, ao conhecer e se apaixonar Joe Gills, v\u00ea a sua vida florescer por alguns poucos momentos, para, logo depois, sentir a frustra\u00e7\u00e3o de um amor castrado pela ambi\u00e7\u00e3o e pela inseguran\u00e7a. Todos esses fatores transparecem tal qual a podrid\u00e3o do mundo Hollywoodiano nos quase 110 minutos desse filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Toda essa rede entrela\u00e7ada de destinos n\u00e3o seria poss\u00edvel se n\u00e3o fossem a for\u00e7a de interpreta\u00e7\u00e3o dos quatro atores principais: Como um time perfeito que estra\u00e7alha qualquer advers\u00e1rio que aparece na frente, esse quarteto \u00e9 a for\u00e7a motriz do filme, onde os quatro atores incorporam de corpo e alma os seus personagens. Especialmente Gloria Swanson: transparecendo uma opul\u00eancia decadente e uma loucura intimidadora ao personagem, ela personifica o s\u00edmbolo de uma estrela do passado que sucumbe ao mundo cruel de Hollywood, atuando de uma maneira como nunca foi visto no cinema, permeando o filme de frases que se tornariam cl\u00e1ssicas (\u201cEu sou grande, os filmes \u00e9 que s\u00e3o pequenos\u201d; \u201cMr. DeMille, estou pronta para o meu close\u201d, entre outras), fazendo de sua Norma Desmond uma das personagens mais lend\u00e1rias do cinema. O filme ainda se permite a criar situa\u00e7\u00f5es e cenas aparentemente simples, mas que d\u00e3o todo um sentido para a trama, fazendo com que em nenhum momento nos sentirmos cansados ou desinteressados. Um exemplo disso \u00e9 quando Gills, nosso protagonista, j\u00e1 est\u00e1 meio de saco cheio de toda a escravid\u00e3o que estava vivendo (j\u00e1 que o emprego exigia que ele fosse viver na casa da atriz, proporcionando um relacionamento quase bizarro entre os dois) e tenta sair da casa, ficando por um momento preso pela corrente de sua roupa \u00e0 ma\u00e7aneta da porta de entrada, numa clara refer\u00eancia que ele estava preso \u00e0quele lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Coadjuvando tudo isso (mas n\u00e3o sendo menos importante), temos uma dire\u00e7\u00e3o de arte n\u00e3o menos que fant\u00e1stica, que praticamente d\u00e1 vida \u00e0 mans\u00e3o onde se passa boa parte do filme; uma trilha sonora magistral de Franz Waxman, que contribui para o clima de morbidez do filme; um roteiro que injeta ironia e sarcasmo, ingredientes que temperam com gosto essa salada m\u00f3rbida sobre o lado podre de Hollywood, e que distribui a torto e a direito frases que se tornaram cl\u00e1ssicas no cinema; a op\u00e7\u00e3o pela narra\u00e7\u00e3o em off feita por Joe Gills, que contribui ainda mais para o clima de morbidez e sarcasmo do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como se n\u00e3o bastasse tudo isso acontecendo na tela, temos tamb\u00e9m, apimentando ainda mais tudo que permeia esse filme, \u201ccoincid\u00eancias\u201d memor\u00e1veis, que me levam a crer que todas elas foram premeditadas pelo Billy Wilder. Vejamos: Ironicamente, a grande estrela do cinema mudo, Gloria Swanson, mesmo dando um show de interpreta\u00e7\u00e3o neste papel que simboliza o cl\u00edmax da sua carreira, depois deste filme, n\u00e3o conseguiu mais impulsion\u00e1-la, talvez por n\u00e3o se adaptar \u00e0s novas t\u00e9cnicas de filmagem e express\u00e3o. A atriz seguiu o seu pr\u00f3prio crep\u00fasculo a partir de ent\u00e3o, nunca mais voltando a sentir o prest\u00edgio do sucesso, s\u00f3 protagonizando filmes med\u00edocres at\u00e9 a sua morte; O ator que interpreta o mordomo Max; Erich Von Stroheim, iniciou a carreira na era do cinema mudo como diretor, dirigindo, entre outras atrizes, a pr\u00f3pria Gloria Swanson (inclusive, o filme que \u00e9 exibido na sala de cinema de Norma Desmond, onde a personagem reverencia a sua atua\u00e7\u00e3o no filme (sem precisar de di\u00e1logos, segundo a pr\u00f3pria), \u00e9 \u201cQueen Kelly\u201d, dirigido pelo pr\u00f3prio e estrelado pela Gloria Swanson); a apari\u00e7\u00e3o de astros e personalidades que viveram o seu auge no cinema mudo (entre eles, Buster Keaton); o fato de utilizar como uma das loca\u00e7\u00f5es o est\u00fadio 18 da Paramount, onde estava sendo filmado \u201cSans\u00e3o e\u00a0 Dalila\u201d, de Cecil B. DeMille (inclusive com participa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio e de parte do elenco e da equipe t\u00e9cnica).\u00a0 Todos esses fatores contribuem ainda mais para o clima m\u00f3rbido e pesado dessa obra \u2013 prima.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mais impressionante disso tudo \u00e9 que, apesar de todo o excesso dram\u00e1tico, e do fato de que mais de meio s\u00e9culo de cinema passaram desde sua produ\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria de Hollywood n\u00e3o mudou. \u00cddolos e super-astros continuam sendo feitos e desfeitos como se fossem olhas de papel que se inutilizam quando j\u00e1 preenchidas, hist\u00f3rias de morbidez como a retratada continuam acontecendo (e sendo registradas e publicadas a torto e a direito por jornalistas que avan\u00e7am diante uma estrela de outrora ou um fato constrangedor envolvendo uma pessoa da m\u00eddia tal qual aves de rapina voando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 carni\u00e7a). Isso prova ainda mais a for\u00e7a desse filme como um retrato de dentro para fora da pr\u00f3pria ind\u00fastria que a alimenta. Mais do que talento, \u00e9 preciso coragem para expor as pr\u00f3prias feridas. E isso Billy Wilder (vem como todos que participaram da produ\u00e7\u00e3o), mostrou que teve de sobra, sofrendo as conseq\u00fc\u00eancias dessa decis\u00e3o (v\u00e1rias pessoas, especialmente produtores e diretores de cinema, sa\u00edram extremamente revoltados das sess\u00f5es, al\u00e9m do pr\u00f3prio conte\u00fado do filme ter esfriado a sua campanha rumo aos Oscars principais de 1951, que foram para \u201cA Malvada\u201d, que aborda de maneira igualmente sarc\u00e1stica e pesada a Broadway), mas galgando o filme \u00e0 eternidade do cinema, lugar onde, provavelmente transcorridos mais de 50 anos depois da elabora\u00e7\u00e3o dessa resenha, esse filme ainda ser\u00e1 lembrado como o retrato fiel da ind\u00fastria de sonhos (e que os destr\u00f3i com a mesma facilidade) projetados numa tela dentro de uma sala escura, e mais do que isso, sendo vangloriada com a mesma devo\u00e7\u00e3o que \u00e9 hoje. E \u00e9 exatamente disso que \u00e9 feito um cl\u00e1ssico!<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Adney Silva<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo dos seus mais de 100 anos, o cinema produziu incont\u00e1veis filmes. A maioria caiu no esquecimento, outros tiveram pequeno destaque, sendo esquecidos ao longo do tempo, e outros ainda sobreviveram razoavelmente \u00e0s vicissitudes do tempo. 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