{"id":1570,"date":"2008-10-08T04:05:57","date_gmt":"2008-10-08T06:05:57","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=1570"},"modified":"2008-10-08T04:05:57","modified_gmt":"2008-10-08T06:05:57","slug":"o-circulo-vermelho-jean-pierre-melville-1970","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/10\/08\/o-circulo-vermelho-jean-pierre-melville-1970\/","title":{"rendered":"O C\u00edrculo Vermelho (Jean-Pierre Melville, 1970)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px;\" src=\"http:\/\/img221.imageshack.us\/img221\/8254\/ocrculovermelhompoz5.jpg\" alt=\"\" width=\"468\" height=\"240\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A\u00a0atmosfera \u00e9pica de Le Cercle Rouge \u00e9 suficientemente vasta\u00a0para compreender tanto este neo-noir pintado pela \u00f3ptica met\u00f3dica de Melville quanto o pr\u00f3prio g\u00eanero de sombras e fuma\u00e7a fundado do outro lado do Atl\u00e2ntico. S\u00e3o mais de duas horas de eleg\u00e2ncia, beleza, emoldura\u00e7\u00f5es frame-a-frame com precis\u00e3o matem\u00e1tica e muito, muito pessimismo, assumido ali\u00e1s como discurso expl\u00edcito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 disse no post do Un Flic mas repetir n\u00e3o custa, at\u00e9 porque nenhum outro traz este elemento t\u00e3o evidente quanto O C\u00edrculo Vermelho: os personagens de Jean-Pierre Melville suplantam sua humanidade pelos dogmas e pela moral do seu trabalho, e \u00e9 exatamente pelas vias dessa mec\u00e2nica profissional que, sempre, ao fim de tudo, \u00e9 necess\u00e1rio o sangue incandescente, como apenas o homem possui, para mover essas engrenagens. Porque a maldade, a ambi\u00e7\u00e3o e as rotas da trai\u00e7\u00e3o acabam entregando que s\u00e3o apenas fracos e suscet\u00edveis seres humanos os que se escondem sob as m\u00e1quinas que desfilam sempre t\u00e3o imponentes de sobretudos ao longo dos noirs de Melville.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Levando a doutrina de Jules Dassin debaixo do bra\u00e7o, Melville volta a filmar o tempo real com lentes forjadas do hipnotismo. S\u00e3o 25 minutos de assalto a uma joalheria (e o estilo todo do diretor \u00e9 perpetrado pela contempla\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria \u00e0 a\u00e7\u00e3o da cena, mas este \u00e9 sempre o melhor exemplo) que, embora n\u00e3o tencionem reproduzir a mesma e quase insuport\u00e1vel tens\u00e3o dram\u00e1tica de Rififi, prendem o espectador com uma linha invis\u00edvel da pura m\u00e1gica que o mestre franc\u00eas faz com a c\u00e2mera e o som, amplificado aqui ao terreno de uma bem orquestrada sucess\u00e3o, simplesmente, de passos, portas fechando, ferramentas funcionando.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Admiro profundamente quem consegue fazer tanto com, aparentemente, t\u00e3o pouco. Com a quase inexist\u00eancia de artif\u00edcios aos quais um cineasta comodamente pode recorrer pra seq\u00fc\u00eancias bacanudas e planos ishpertos. O mesmo ocorre com Alain Delon, que sendo o mesmo Edouard Coleman ou Jeff Costello, ainda sem mover um m\u00fasculo do rosto, consegue ser simplesmente perfeito, insubstitu\u00edvel. Pode ser no modo de olhar, de se mover, de falar, pouco importa&#8230; Delon \u00e9 brilhante sem precisar de um mil\u00edmetro de esfor\u00e7o pra tanto, e insinuar que seja menor ator por isso \u00e9 qualquer coisa \u00e0 qual eu ainda darei nome no meio de um estado de f\u00faria durante uma pr\u00f3xima goleada que o meu time sofra no Gre-nal.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De qualquer forma, obra-prima (outra&#8230;) do franc\u00eas, embora menor que <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/o-samurai-jean-pierre-melville-1967\/\">O Samurai<\/a> e <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/10\/05\/expresso-para-bordeaux-jean-pierre-melville-1972\/\">Expresso Para Bordeaux<\/a>, mais pela inspira\u00e7\u00e3o encantada que os governa do que qualquer eventual dem\u00e9rito do Le Cercle Rouge. Mas algo \u00e9 preciso deixar claro: independente da ordem, o filme do c\u00edrculo \u00e9 o que at\u00e9 agora melhor representa este casamento entre o minimalismo de Melville e a depress\u00e3o do film noir cl\u00e1ssico pra composi\u00e7\u00e3o de uma identidade mais s\u00f3lida que nunca pro noir europeu, algo digno de ser documentado pra posterioridade, tratado ilustrativo de uma vis\u00e3o c\u00e9tica e talvez mais realista que pessimista sobre as motiva\u00e7\u00f5es humanas, porque, pra Melville, todos os homens, sem qualquer exce\u00e7\u00e3o, terminam sob o alvo iridescente de um c\u00edrculo vermelho.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00a0atmosfera \u00e9pica de Le Cercle Rouge \u00e9 suficientemente vasta\u00a0para compreender tanto este neo-noir pintado pela \u00f3ptica met\u00f3dica de Melville quanto o pr\u00f3prio g\u00eanero de sombras e fuma\u00e7a fundado do outro lado do Atl\u00e2ntico. 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