{"id":154,"date":"2008-05-15T12:19:33","date_gmt":"2008-05-15T14:19:33","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=154"},"modified":"2008-05-15T12:19:33","modified_gmt":"2008-05-15T14:19:33","slug":"no-rastro-da-bala-wayne-kramer-2006","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/15\/no-rastro-da-bala-wayne-kramer-2006\/","title":{"rendered":"No Rastro da Bala (Wayne Kramer, 2006)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img240.imageshack.us\/img240\/8605\/rnnscrd10bv9.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Lembra daqueles lindos contos que voc\u00ea lia quando crian\u00e7a, embutidos em bel\u00edssimos livros de capas coloridas e repleto de fotos agrad\u00e1veis? De um mundo encantado composto por bruxas malvadas, bichos pap\u00f5es, animaizinhos mal\u00e9ficos, duendes com faces horripilantes que nunca conseguiam vencer os cavaleiros com armaduras cintilantes ou as crian\u00e7as arrependidas por n\u00e3o terem obedecido a seus pais? Hoje voc\u00ea acha essas inten\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter moral ut\u00f3picas? Ou mais ainda, que essas historinhas &#8220;inocentes&#8221; muitas vezes moldam um mundo totalmente distinto da realidade que o cerca, xen\u00f3foba, e na qual n\u00e3o existem her\u00f3is, o mal por muitas vezes triunfa, o senso de justi\u00e7a \u00e9 obstru\u00eddo e question\u00e1vel e o machismo extremo predomina como ponto de vista ideal na sociedade? Ou por vezes come\u00e7a a perceber que, vez ou outra, elas na realidade at\u00e9 se aproveitavam para estimular o consumo de doces e outras guloseimas atrav\u00e9s de sedu\u00e7\u00f5es visuais (ou voc\u00ea acha que apesar de defenderem uma postura oposta e moralista n\u00e3o temos vontade de devorar um delicioso chocolate ap\u00f3s lermos algumas delas?).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Agora imagine que voc\u00ea tenha um aparato cinematogr\u00e1fico e o poder de sua criatividade para desconstruir esse mundo, usando desde a elabora\u00e7\u00e3o dos personagens at\u00e9 as montagens e ilumina\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio para ilustrar isso. Uma de suas op\u00e7\u00f5es \u00e9 exagerar algumas caracter\u00edsticas dessas estorinhas mantendo o moralismo para justamente mostrar o quanto s\u00e3o ut\u00f3picas e absurdas (nesse caso, no filme as v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es absurdas de risco de morte e o final do personagem de Paul Walker s\u00e3o rid\u00edculos justamente por isso, de acordo com esse ponto de vista) e uma outra \u00e9 voc\u00ea utilizar meios mais expl\u00edcitos para criticar a sociedade predat\u00f3ria cujos mecanismos de controle e sustenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais sofisticados e praticamente irrevers\u00edveis (por exemplo, substituindo os personagens das est\u00f3rias infantis por outros mais representativos da sociedade e colocando-os em situa\u00e7\u00f5es onde a moral \u00e9 um pouco mais complexa e tortuosa que a normalmente discutida).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No meu ponto de vista, esses s\u00e3o alguns elementos explorados em <em>No Rastro da Bala (Running Scared)<\/em>, cuja atmosfera m\u00f3rbida e pesada transmuta o universo de fantasia infantil em algo pertencente a um universo do ideal masculino adulto e machista. \u00c9 esse o universo na qual a atmosfera cr\u00edtica reside, contemplando seus mais variados absurdos, que bradam construindo seus pilares nas reflex\u00f5es de situa\u00e7\u00f5es t\u00e3o irreais que fazem o espectador pensar for\u00e7osamente em suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De in\u00edcio analisemos os personagens&#8230; h\u00e1 v\u00e1rios pontos interessantes a se observar.. vemos que a mulher \u00e9 sexualizada, objetizada ou adota postura masculinizada agressiva a fim de sobreviver a situa\u00e7\u00f5es de risco (a esposa de Gazelle) ou fr\u00e1gil e submissa (a m\u00e3e de Oleg) ou instrumento principal de &#8220;destrui\u00e7\u00e3o&#8221; atrav\u00e9s de seu car\u00e1ter mais sereno e sentimental. Note, por exemplo,  a postura de Adelle perante as crian\u00e7as, at\u00e9 mesmo seus cabelos amarrados e suas roupas inocentes..embora o casal seja ped\u00f3filo, \u00e9 sempre ela quem est\u00e1 presente nas abordagens e controle porque a figura feminina inspira um car\u00e1ter que a masculina n\u00e3o possui. Quando vemos uma mulher pr\u00f3xima a uma crian\u00e7a certamente n\u00e3o pensamos os horrores que passam por nossas cabe\u00e7as quando vemos um homem desconhecido na mesma situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os outros personagens s\u00e3o indiv\u00edduos pertencentes a nosso meio social, assustadoramente cada vez mais comuns &#8211; s\u00e3o g\u00e2ngsteres, assassinos, sequestradores, xen\u00f3fobos, policiais corruptos, ped\u00f3filos, prostitutas, gigol\u00f4s, pais que batem em suas crian\u00e7as e esposas, m\u00e3es que vivem sob a \u00e9gide do medo, filhos revoltados e assustados. ESSE \u00e9 o mundo em que vivemos. Se n\u00e3o for o seu, certamente voc\u00ea conhece algum desses indiv\u00edduos simbolizados a\u00ed, ou algu\u00e9m bem pr\u00f3ximo que conhece.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No mundo de Kramer prostitutas se tornam protetoras (fadas, como expressas nos cr\u00e9ditos finais), ped\u00f3filos se tornam sombras sobrenaturais na parede (ou algo parecido com ogres, que s\u00f3 na escurid\u00e3o das sombras revelam seu verdadeiro car\u00e1ter), gigantes malvados que aprisionam nossos her\u00f3is em gaiolas se tornam g\u00e2ngsteres e policiais corruptos..e por fim, nossos her\u00f3is tem caracter\u00edsticas assustadoras (Oleg porta uma arma potente e a manipula, Gazelle parece n\u00e3o se importar com isso pois tem interesses ego\u00edstas mais importantes e talvez esteja anestesiado com o mundo que tem contato; Gazelle mata, sangra, abate, tortura e tem uma postura machista e xen\u00f3foba; seu filho mente, tem contato com um universo criminoso e muitas vezes nem \u00e9 notado pelo pai em ambientes perigosos; mesmo a &#8220;inocente&#8221; Teresa mata duas pessoas). Estudar os personagens \u00e9 tarefa muito interessante e que exige reflex\u00e3o, material que podemos discutir bastante por aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma est\u00f3ria t\u00e3o simples esconde tamb\u00e9m muitos outros elementos interessantes. A montagem e a fotografia de Kramer s\u00e3o simplesmente extraordin\u00e1rias. Por vezes at\u00e9 revelam um interessante paradoxo entre uma estrutura que parece um livro de est\u00f3rias aberto (daqueles que as figuras s\u00e3o montadas na vertical quando abrimos a p\u00e1gina, dando maior realismo ao livro) mas ao mesmo tempo refletem um universo distorcido e fren\u00e9tico despertado por algum tipo de entorpecente ou situa\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o extrema do personagem a qual corresponde a vis\u00e3o que quer retratar. A ambienta\u00e7\u00e3o \u00e9 um outro ponto alto. As loca\u00e7\u00f5es s\u00e3o filmadas de forma escura, \u00e0s vezes com predom\u00ednio de algumas cores sobre as outras (mas normalmente escuras e tristes, o azul escuro, o vermelho, o amarelo, etc), sempre de forma a parecer sombrias, inquietantes, de forma a nos causar arrepios involunt\u00e1rios e nos sugar para a atmosfera do filme. Destaque para a cena em que Oleg e Joey conversam no carro. A ilumina\u00e7\u00e3o dos diversos elementos das ruas provocam uma altern\u00e2ncia entre o escuro e o claro no rosto de Oleg, captado de forma eficiente pelo diretor, de modo que seu car\u00e1ter amb\u00edguo (embora obviamente seja predominantemente positivo) se torna evidente simplesmente por sua express\u00e3o facial.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As atua\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito boas, especialmente o papel dif\u00edcil de Oleg (Cameron Bright), que reflete em sua face sentimentos de inseguran\u00e7a, revolta, coragem, horror, medo, tristeza e muitas outras de forma excepcional, com o odiado por muitos Paul Walker desempenhando o papel de forma muito correta e interessante (Walker lembra bastante um indiv\u00edduo marginalizado com seu modo de agir e falar) e os excelentes Palminteri e Johnny Messer. Nas mulheres, destaque para a excelente interpreta\u00e7\u00e3o da ped\u00f3fila Edelle por Elizabeth Mitchell.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Preste aten\u00e7\u00e3o: Uma das poucas refer\u00eancias expl\u00edcitas da est\u00f3ria: Na cena em que Oleg est\u00e1 no banheiro da casa de Dex e Edelle, sombras sinistras de car\u00e1ter e forma sobrenaturais podem ser visualizadas na parede durante toda a conversa no telefone com a Mrs. Gazelle, como se estivessem \u00e0 espreita.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque n\u00e3o perder: Um filme muito interessante na qual n\u00e3o importa muito se voc\u00ea quer ver algo extremamente complexo ou simplesmente divertido, cheio de a\u00e7\u00e3o ou repleto de met\u00e1foras e simbologias, cheio de cr\u00edticas sociais ou curtir uma pipoca enquanto assiste. \u00c9 poss\u00edvel compreender o filme em v\u00e1rias inst\u00e2ncias e chegamos a conclus\u00e3o de que todos esses gostos s\u00e3o atendidos de forma muito satisfat\u00f3ria e inteligente. Assista sem medo, voc\u00ea n\u00e3o vai se arrepender.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em> S\u00edlvio Tavares<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembra daqueles lindos contos que voc\u00ea lia quando crian\u00e7a, embutidos em bel\u00edssimos livros de capas coloridas e repleto de fotos agrad\u00e1veis? 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