{"id":151,"date":"2008-05-14T21:10:44","date_gmt":"2008-05-14T23:10:44","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=151"},"modified":"2008-05-14T21:10:44","modified_gmt":"2008-05-14T23:10:44","slug":"o-selvagem-da-motocicleta-francis-ford-coppola-1983","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/14\/o-selvagem-da-motocicleta-francis-ford-coppola-1983\/","title":{"rendered":"O Selvagem da Motocicleta (Francis Ford Coppola, 1983)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/owlpellets.files.wordpress.com\/2007\/12\/rumble-fish.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mais do que uma obra extremamente pessoal, O Selvagem da Motocicleta, de Francis Ford Coppola, \u00e9 um bel\u00edssimo exerc\u00edcio de estilo com a marca registrada desse grande diretor. Preenchido por constantes simbolismos, normalmente perspicazes, o filme impressiona por conseguir captar com profunda energia e devo\u00e7\u00e3o, resultantes da proximidade emocional do diretor com a obra, os sonhos e a realidade de uma gera\u00e7\u00e3o de jovens que, embora vivesse em uma \u00e9poca distinta, avan\u00e7ada, mantinha o idealismo e as perspectivas (ou a falta delas) da gera\u00e7\u00e3o Beat dos anos 50, conhecida por revolucionar, atrav\u00e9s da literatura, a cultura mon\u00f3tona e conformista que vinha sendo estagnada at\u00e9 ent\u00e3o na sociedade p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No filme, Matt Dillon interpreta um jovem que, ap\u00f3s ser abandonado por seu irm\u00e3o e \u00eddolo, uma esp\u00e9cie de mito de sua cidade (\u201cMotorcycle Boy\u201d, interpretado com brilhantismo por Mickey Rourke), resolve tentar fazer sua fama em pequenas brigas de rua, na esperan\u00e7a de que os velhos tempos da gangue de seu irm\u00e3o retornem. Quem retorna, por\u00e9m, \u00e9 seu pr\u00f3prio irm\u00e3o, que havia deixado a cidade para conhecer a Calif\u00f3rnia, mergulhado em quest\u00f5es existenciais, e tendo que lidar com pequenos traumas de sua vida. Com isso, abre-se um leque de questionamentos entre os dois indiv\u00edduos, e todas as pessoas que os cercam, enquanto eles se divertem bebendo e transando livremente em seu submundo de sexo, drogas e rock n\u2019 roll.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Invariavelmente, a grande men\u00e7\u00e3o que se pode fazer ao melhor trabalho de Coppola em sua fase menos grandiloq\u00fcente, mais pessoal, diz respeito ao tratamento visual que d\u00e1 forma \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Fotografado em preto-e-branco, numa refer\u00eancia \u00e0 vis\u00e3o dalt\u00f4nica de \u201cMotorcycle Boy\u201d (apenas um dos diversos simbolismos aplicados por Coppola), O Selvagem da Motocicleta comprova que, ao criar uma liga\u00e7\u00e3o entre os truques e resolu\u00e7\u00f5es visuais adotados para a composi\u00e7\u00e3o de uma cena e o seu discurso, n\u00e3o s\u00f3 teremos uma maior complexidade narrativa como tamb\u00e9m, conseq\u00fcentemente, uma motiva\u00e7\u00e3o a mais para a exist\u00eancia de tal elemento estilizado, tornando-o, assim, indispens\u00e1vel para o resultado final \u2013 e n\u00e3o apenas um simples exerc\u00edcio de conceitos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Falo isso porque, ao comparar, por exemplo, os elementos coloridos inseridos nesse filme de Coppola (os \u201cpeixes de briga\u201d, utilizados como met\u00e1fora para definir a pr\u00f3pria personalidade do personagem de Matt Dillon, e a fant\u00e1stica cena na qual ele enxerga seu reflexo a cores no vidro traseiro da viatura, demonstra\u00e7\u00e3o mais interessante desse paralelo &#8211; a exemplo dos tais \u201cpeixes de briga\u201d, o personagem, ao ver-se refletido no vidro do carro, tenta brigar com seu pr\u00f3prio reflexo), com a garotinha de vestido vermelho do \u00e9pico \u201cA Lista de Schindler\u201d, de Steven Spielberg, \u00e9 ineg\u00e1vel a sensa\u00e7\u00e3o de frustra\u00e7\u00e3o sentida ao percebermos que, ao contr\u00e1rio dos citados significados presentes na obra de Coppola, a cena da obra de Spielberg n\u00e3o passa de um mero artif\u00edcio superficial que visa, \u00fanica e exclusivamente, provocar como\u00e7\u00e3o e l\u00e1grimas no espectador \u2013 ou cham\u00e1-lo de idiota.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas \u00e9 indispens\u00e1vel salientar que, apesar de todo o estiloso preciosismo t\u00e9cnico, Selvagem da Motocicleta ainda cont\u00e9m alguns pontos negativos. Talvez por ser sua obra mais pessoal, Coppola construiu um filme que pode provocar estranheza em muitas pessoas. Pouco antes de chegar ao seu maravilhoso terceiro ato, o ritmo da obra acaba oscilando, transformando algumas passagens em um verdadeiro concurso de t\u00e9dio. Al\u00e9m disso, outros aspectos, em especial a trilha sonora, vez por outra parecem soar relativamente deslocados dos outros elementos de cena (algumas m\u00fasicas d\u00e3o a impress\u00e3o de quem entrar\u00e3o constantemente em conflito com a imagem, deixando uma sensa\u00e7\u00e3o de que tenham sido inseridas por algu\u00e9m que nem havia tomado conhecimento de qual cena estava musicando).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Apesar de alguns pequenos descuidos, O Selvagem da Motocicleta tem seu lugar garantido entre as mais interessantes obras de Coppola &#8211; um diretor que vinha da revolu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica dos anos 70 e sempre arranja alguma forma de imprimir alguns cacoetes em seus filmes, e que, embora tenha uma carreira bastante irregular (\u00e9 inacredit\u00e1vel que seu p\u00e9ssimo segmento de Contos de Nova York e Apocalypse Now, a grande obra-prima do cinema de guerra, tenham sido filmados pela mesma pessoa), ter\u00e1 para sempre lugar garantido na hist\u00f3ria do cinema. O filme em quest\u00e3o \u00e9 o melhor de seus projetos menores, onde conseguiu unificar duas caracter\u00edsticas naturalmente opostas, por\u00e9m sempre interessantes quando andam juntas \u2013 e bem condensadas: simplicidade e complexidade. Resqu\u00edcios da genialidade em um diretor que, logo ap\u00f3s, viria a afundar sua carreira em um profundo po\u00e7o de fracasso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">3\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais do que uma obra extremamente pessoal, O Selvagem da Motocicleta, de Francis Ford Coppola, \u00e9 um bel\u00edssimo exerc\u00edcio de estilo com a marca registrada desse grande diretor. 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