{"id":1403,"date":"2008-09-25T18:32:08","date_gmt":"2008-09-25T20:32:08","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=1403"},"modified":"2008-09-25T18:32:08","modified_gmt":"2008-09-25T20:32:08","slug":"decada-de-60-especial-james-dean","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/09\/25\/decada-de-60-especial-james-dean\/","title":{"rendered":"D\u00e9cada de 60 (Especial James Dean)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Rapidamente, quando falaram-me, pela primeira vez, que far\u00edamos um especial sobre mitologia e juventude, imediatamente, ap\u00f3s a imagem de James Dean em <em>Juventude Transviada<\/em>, veio a d\u00e9cada de 60 atrav\u00e9s da recente prova da UFRJ &#8211; ou UERJ, nunca sei. Quando estava procurando alguns filmes recomendados pelos colegas, al\u00e9m de procurar rever alguns que achava interessante, ou mesmo ler sobre, deparo-me com a edi\u00e7\u00e3o de 40 anos de certa revista\u00a0extremista de anti-esquerda. Independentemente de como cada\u00a0tratava a d\u00e9cada de 60, foi ineg\u00e1vel a influ\u00eancia e a import\u00e2ncia dadas, principalmente pelo quadrag\u00e9simo &#8221;anivers\u00e1rio&#8221; de 1968 &#8211; talvez o s\u00edmbolo da d\u00e9cada, que, at\u00e9 de forma saudosista \u00e9 lembrada pela imers\u00e3o da juventude participativa pela contracultura, pelo\u00a0anti-guerra e a apoliticagem. Rebeldes por ess\u00eancia, os anos 60 marcariam o questionamento da liberdade, atrav\u00e9s de exibi\u00e7\u00f5es sem censura com o sexo e as drogas\u00a0como principal m\u00e9todo de execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A esperan\u00e7a de um mundo melhor, pac\u00edfico e igualit\u00e1rio, n\u00e3o necessariamente afligia ou corria a algum lado da Guerra Fria intensificada. Enquanto os governos sovi\u00e9tico e norte-americano viviam um dos mais acirrados momentos do embate, com a Corrida ao Espa\u00e7o (que Kubrick levantaria apoteoticamente em <em>2001<\/em>), a Crise dos M\u00edsseis e, finalmente, a Guerra do Vietn\u00e3o; os jovens pareciam mais largados, mas, igualmente, mais participativos. Largados no conceito de que sua forma de express\u00e3o n\u00e3o assumia car\u00e1ter pol\u00edtico, contra algum regime exatamente, e sim contra o &#8220;sistema&#8221; (stablishment), usando-se das viagens alucin\u00f3genas e as confraterniza\u00e7\u00f5es cantadas. J\u00e1 o participativo refere-se aos porqu\u00eas de a d\u00e9cada ser t\u00e3o cultuada: por n\u00e3o temerem uma oposi\u00e7\u00e3o verdadeiramente radical, isto \u00e9, com outro jeito de dissemina\u00e7\u00e3o de ideal, defendendo-o com persevaran\u00e7a e inteiramente (sem discursos muito geniosos ou pegando em armas\u00a0&#8211; ainda que o Movimento Negro nos Estados Unidos tenha tido um Luther King bastante orat\u00f3rio e os Panteras Negras). A bem da verdade, houve, sim, uma certa posi\u00e7\u00e3o meio socialista &#8211; mas no utopismo da igualdade, e n\u00e3o num alinhamento \u00e0s posturas sovi\u00e9ticas\u00a0&#8211; e um certo anarquismo, como desfilariam algumas bandeiras nas grandes reuni\u00f5es nos parques. A luta era contra a aliena\u00e7\u00e3o e a falta do individualismo provocados pelo sistema em vigor. Com isso, tamb\u00e9m surgiram revoltas nos pa\u00edses vermelhos (Primavera de Praga e Reforma Cultural Chinesa).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em Paris, exatamente em 1968, a reuni\u00e3o estudantil e oper\u00e1ria tamb\u00e9m seria grande predicado para o ideal sujeito dos jovens da \u00e9poca. Com &#8220;a imagina\u00e7\u00e3o no poder&#8221; e &#8220;\u00e9 proibido probir&#8221; todo o mundo foi alertado, para desespero dos burocratas, que fechariam o poder, fosse nos pa\u00edses socialistas, em que o pr\u00f3prio Mao-Ts\u00e9 Tung voltaria sua posi\u00e7\u00e3o quando no poder, e St\u00e1lin derrubaria Kruschev; fosse nos pa\u00edses ao redor dos Estados Unidos, como a pr\u00f3pria Fran\u00e7a, e os pa\u00edses latino-americanos tomados por ditaduras militares. A despeito de qualquer ideologia pol\u00edtica que os ve\u00edculos comunicativos insistem em querer levantar para tirar o brilhantismo e o romantismo que se tem em torno da d\u00e9cada, os <em>hippies<\/em> ainda s\u00e3o valorizados quando se olha para a Guerra do Iraque e lembra-se da Guerra do Vietn\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se o mundo esteve em polvorosa, teria Hollywood demorado a acordar? Acho que n\u00e3o. Os movimentos conhecidos, a bem da verdade, foram mais sutis, como 2001; ainda que os <em>indies <\/em>tenham retratado paisagens como <em>Wodstock. <\/em>Dennis Hopper e Peter Fonda fariam o filme consagrador para o cen\u00e1rio: <em>Sem Destino<\/em>, um filme de menos de 400 mil d\u00f3lares, estourou ao colocar dois motoqueiros, que se drogam sem maiores conseq\u00fc\u00eancias aparentes, mas que passam por um terr\u00edvel preconceito &#8211; e num di\u00e1logo inspirador de Jack Nicholson, que d\u00e1 vida \u00e0 obra, com Dennis Hopper, o valor com o qual s\u00e3o tratadas coisas simb\u00f3licas no pa\u00eds americano \u00e9 comentado com bastante pertin\u00eancia. Antes disso, por\u00e9m, j\u00e1 havia <em>A Primeira Noite de um Homem<\/em>, com o graduado Dustin Hoffman visivelmente perdido no mundo cheio de cobran\u00e7as e expectativas frente a um futuro trabalhador e possivelmente enriquecedor. Godard, que eu n\u00e3o conhe\u00e7o, e o magistral\u00a0<em>Blowup <\/em>tamb\u00e9m s\u00e3o exemplares de outros pa\u00edses. De qualquer modo, nada melhor, pelo menos para mim, do que <em>Hair<\/em>, filmado somente em 1979 por Milos Forman, para lembrar o per\u00edodo. Por sinal, a data do filme tamb\u00e9m representa bastante coisa, como a tal nostalgia citada no comecinho. Ainda hoje v\u00e1rios filmes s\u00e3o feitos tentando resgatar o per\u00edodo ou contextualizados por volta de 1968, vide <em>Os Sonhadores<\/em>, de Bertolucci.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Hair (Milos Forman, 1979)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/img151.imageshack.us\/img151\/9804\/hairta2.jpg\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"394\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim que escolhi por <em>Hair<\/em> para filme da d\u00e9cada de 60, tinha certo receio ao tentar escrever algo sobre a obra. Ao contr\u00e1rio do que j\u00e1 fiz, inclusive com o texto de <em>Juventude Transviada<\/em>, n\u00e3o levantei t\u00f3picos ou fiquei imaginando algo a escrever durante a proje\u00e7\u00e3o. Isso porque o poder de <em>Hair<\/em>, com o perd\u00e3o do clich\u00ea, transcende qualquer coisa que eu tente escrever aqui. Todavia, acho que h\u00e1 algo v\u00e1lido a se dizer aqui: como pode ter ocorrido durante o texto da d\u00e9cada de 60, n\u00e3o sou, costumeiro, muito afei\u00e7oado ao ideal, aos <em>hippies<\/em>, sendo, \u00e0s vezes, at\u00e9 bastante contr\u00e1rio. E o diferencial de <em>Hair <\/em>reside em quebrar algumas barreiras, ao inserir pequenos tra\u00e7os durante a obra.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O grande fato \u00e9 que a m\u00fasica pode ser a maior virtude e a coisa mais irritante no filme &#8211; e eu acho &#8221;Let the Sunshine&#8221;\u00a0uma das mais belas coisas que h\u00e1, mesmo mandando algu\u00e9m \u00e0 merda dois minutos antes de come\u00e7ar a ver o filme -, at\u00e9 porque <em>Hair <\/em>quase n\u00e3o tem di\u00e1logos, mas as letras, al\u00e9m do forte ritmo e quase sempre cantadas em coro (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o de uma cantada por uma descendente asi\u00e1tica e a negra que aparece no meio do filme), transmitem tudo que h\u00e1 ali. A c\u00e2mera de Milos Forman consiste apenas em tentar achar as personagens e focalizar,\u00a0buscando o \u00edntimo de cada personagem quando nas can\u00e7\u00f5es mais dram\u00e1ticas, ou pegar grandes tomadas naquelas exigentes de coreografia ou coletivismo intenso. Em segundo lugar, o filme sabe colocar-se mesmo para os n\u00e3o adeptos \u00e0 cultura <em>hippie<\/em>, ali\u00e1s, talvez seja mais para eles, tanto que Claude, jovem que sai do interior dos EUA para servir ao Ex\u00e9rcito \u00e9 o personagem principal. Conhecendo o grupo &#8220;rebelde&#8221;, ele fica dos dias junto a eles provando de sua (contra)cultura, mas n\u00e3o vira as costas para a obriga\u00e7\u00e3o, indo para o Ex\u00e9rcito e tendo como amada uma jovem da alta burguesia &#8211; e o filme mostra que o interesse pelas drogas e pela fuga independe da condi\u00e7\u00e3o, ainda que se contraponha a pat\u00e9ticos como Steve, e at\u00e9 mesmo da idade, quando uma senhora, durante uma festa da nobreza, fica encantada com Berger, o &#8220;l\u00edder&#8221; do grupo, que tem as id\u00e9ias e n\u00e3o teme em as colocar em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Al\u00e9m de usar-se do canto e da dan\u00e7a, muito eficazes e simb\u00f3licos por natureza, essas pr\u00f3prias sofrem muta\u00e7\u00f5es interessant\u00edssimas: no canto que faz a ode ao Cabelo, um dos &#8216;problemas&#8217; dos jovens rebeldes, que n\u00e3o o queriam cortar, h\u00e1 uma pequena varia\u00e7\u00e3o da melodia do hino americano, numa leve ironia que seria estendida ao final do filme. Acima de tudo, existe um grande empreendorismo sentimental em <em>Hair<\/em>, que se permite a colocar uma alucina\u00e7\u00e3o de Claude para, ao fim, cantar que Timothy Leadry, que acreditava na fuga pelas drogas, estaria errado. Ou, ainda, momentos em que pessoas aleat\u00f3rias come\u00e7am a cantar, como no comparecimento ao Ex\u00e9rcito em que os inspetores ficariam supostamente com desejo pelos homens, sendo os brancos interessados nos negros e vice-versa (e as mulheres tamb\u00e9m, mostrando claro que n\u00e3o \u00e9 uma postura homossexual, assim como n\u00e3o h\u00e1 postura negra quando Hud &#8216;desafia&#8217; o loiro e chama-o de &#8216;branco azedo&#8217; e os dois saem numa boa).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sem medo de aparecer ufanisticamente ou ficar fora de grandes posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, <em>Hair <\/em>\u00e9 competente no entretenimento saud\u00e1vel e diversificado, n\u00e3o se dando a grandes interpreta\u00e7\u00f5es ou floreamentos. N\u00e3o diria que \u00e9 uma &#8220;mensagem&#8221; que o filme passa, apenas um sentimento, bastante acolhedor, por sinal, e que me deixa modificado ao final de cada sess\u00e3o. Mesmo que, se ao cruzar na esquina com algu\u00e9m cabeludo, a seguir,\u00a0eu tente escapulir do mesmo jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img217.imageshack.us\/img217\/5084\/boton1iu2hv3.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Cassius Abreu<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rapidamente, quando falaram-me, pela primeira vez, que far\u00edamos um especial sobre mitologia e juventude, imediatamente, ap\u00f3s a imagem de James Dean em Juventude Transviada, veio a d\u00e9cada de 60 atrav\u00e9s da recente prova da UFRJ &#8211; ou UERJ, nunca sei. &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/09\/25\/decada-de-60-especial-james-dean\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[19,38,211,2526,639,663,875,989,1021,1142,1230,1244,1245,1385,1497,2088],"class_list":["post-1403","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-19","tag-60s","tag-anos-60","tag-cinema","tag-decada-de-60","tag-dennis-hopper","tag-filmes","tag-hair","tag-hippies","tag-james-dean","tag-jovens","tag-juventude","tag-juventude-transviada","tag-maio-de-68","tag-milos-forman","tag-sem-destino"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1403","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1403"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1403\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1403"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1403"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1403"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}