{"id":140,"date":"2008-05-14T00:45:16","date_gmt":"2008-05-14T02:45:16","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=140"},"modified":"2008-05-14T00:45:16","modified_gmt":"2008-05-14T02:45:16","slug":"fitzcarraldo-werner-herzog-1982","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/14\/fitzcarraldo-werner-herzog-1982\/","title":{"rendered":"Fitzcarraldo (Werner Herzog, 1982)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.filmspotting.net\/images\/fitzcarraldo.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"220\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201c<em>N\u00f3s somos feitos do tecido de que s\u00e3o feitos os sonhos<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Come\u00e7o este artigo sobre Fitzcarraldo citando um dos mais famosos pensamentos do dramaturgo ingl\u00eas William Shakespeare, autor de in\u00fameros cl\u00e1ssicos da literatura mundial. Mas, afinal, o que teria Shakespeare a ver com Werner Herzog, diretor da obra em quest\u00e3o? Tudo e nada, ao\u00a0mesmo tempo.\u00a0O exc\u00eantrico cineasta alem\u00e3o jamais utiliza qualquer pensamento shakespeariano ao longo desta grandiosa e megal\u00f4mana produ\u00e7\u00e3o (ali\u00e1s, a senten\u00e7a acima \u00e9 referenciada na obra-prima inigual\u00e1vel O Dem\u00f4nio das Onze Horas, de Jean-Luc Godard, em meio a outras tantas refer\u00eancias art\u00edsticas e filos\u00f3ficas que emolduram um dos maiores feitos da humanidade \u2013 e n\u00e3o apenas artisticamente falando), mas, parece que evoca e reflete a supracitada frase do finado pensador a cada segundo deste impressionante, po\u00e9tico e reflexivo \u00e9pico sobre o combust\u00edvel que move a exist\u00eancia humana: os sonhos.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Afinal, de nada mais trata Fitzcarraldo se n\u00e3o de sonhos, n\u00e3o importando a origem, a imensurabilidade, a signific\u00e2ncia, a plausibilidade ou nenhum outro fator externo que possa interferir, tanto para auxiliar quanto para dificultar sua realiza\u00e7\u00e3o. E \u00e9 de sonhos que se constitui a ess\u00eancia de Brian Sweeney Fitzgerald, ou, como o pr\u00f3prio prefere se chamar, Fitzcarraldo (nome cuja origem se d\u00e1 na linguagem nativa da regi\u00e3o em que \u00e9 ambientada a obra), protagonista deste filme. Irreverente, endiabrado e com constantes del\u00edrios de grandeza, Fitzcarraldo, ap\u00f3s desistir da constru\u00e7\u00e3o de uma linha f\u00e9rrea em meio \u00e0 floresta, parte para um novo desafio: agora, quer, a todo o custo, construir o maior teatro de \u00f3pera que a selva amaz\u00f4nica j\u00e1 vira em todos os tempos, em um lugar completamente isolado do mundo, no meio da mata nativa. Para tanto, n\u00e3o mede esfor\u00e7os nem muito menos dimens\u00f5es, tentando fazer do imposs\u00edvel seu mais fiel aliado e, ademais, o que \u00e9 pior, o verdadeiro e \u00fanico objetivo a ser alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Interpretado com maestria e muita, mas muita intensidade por Klaus Klinski (que j\u00e1 havia trabalhado com Herzog em outras produ\u00e7\u00f5es, tais como a obra-prima do diretor, Aguirre, a C\u00f3lera dos Deuses, e o interessante Nosferatu \u2013 O Vampiro da Noite), Fitzcarraldo \u00e9 a caricatura art\u00edstica de certa parte obscura da personalidade humana: aquela que, acima de tudo, trabalha com a necess\u00e1ria alimenta\u00e7\u00e3o dos sonhos e, principalmente, com a \u00e2nsia de realiz\u00e1-los. Ao longo de toda a narrativa, vemos o protagonista xingar, chiar, bufar, berrar, mover montanhas (acho que, neste caso, literalmente mesmo) e qualquer outro elemento &#8211; natural ou n\u00e3o &#8211; que venha a obstruir seu \u201cpreestabelecido\u201d destino, desenvolvendo uma efusiva obsess\u00e3o com tra\u00e7os fortes e realistas de um fato que podemos constatar diariamente, a cada minuto de nossas vidas: n\u00e3o somos nada sem nossos sonhos, desde a vontade de ir at\u00e9 a cozinha pegar uma x\u00edcara de caf\u00e9 at\u00e9 o desejo de ser o mais famoso cineasta de Hollywood.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No caso de Fitzcarraldo, o filme, desejo, sonho e realiza\u00e7\u00e3o se fundem em um delicioso processo de intersec\u00e7\u00e3o entre obra e criador. Ao mesmo passo que restava grandiloq\u00fcente a meta do protagonista, quando desenvolvido o argumento, apresentava-se praticamente irrealiz\u00e1vel o processo de filmagem planejado por Herzog, irrevogavelmente um dos cineastas mais ambiciosos e doidivanos da hist\u00f3ria. A id\u00e9ia, a princ\u00edpio, \u00e9 realmente ousada, caso seja analisada a situa\u00e7\u00e3o com olhos frios e cl\u00ednicos de um cirurgi\u00e3o, mas ainda conceb\u00edvel: emaranhar uma grande equipe de produ\u00e7\u00e3o, junto de um bando de nativos, no cora\u00e7\u00e3o da parte peruana da floresta amaz\u00f4nica, para registrar a odiss\u00e9ia de um homem em busca da realiza\u00e7\u00e3o de seu sonho imposs\u00edvel (o que, na verdade, conhecendo Herzog, n\u00e3o parece nada improv\u00e1vel, visto que, para uma de suas primeiras produ\u00e7\u00f5es, Aguirre, j\u00e1 havia feito a mesma coisa, ap\u00f3s furtar uma c\u00e2mera da escola de cinema em que estudava, na Alemanha).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0A maneira com a qual o cineasta se armara para realiz\u00e1-la, por\u00e9m, torna a concep\u00e7\u00e3o desta saga algo particularmente lim\u00edtrofe, no que concerne \u00e0 capacidade humana. \u00c0 \u00e9poca da produ\u00e7\u00e3o, Herzog, em um ato n\u00e3o muito surpreendente ao ser levado em conta seu protagonista, rasgara o contrato feito com os est\u00fadios Fox para a produ\u00e7\u00e3o do longa, devido a um conflito de ideologias referente a certa seq\u00fc\u00eancia da obra: enquanto os executivos que financiariam a produ\u00e7\u00e3o queriam que fosse reproduzida em est\u00fadio cenogr\u00e1fico, o alem\u00e3o ressaltava que deveria ser feita exclusivamente em loca\u00e7\u00e3o real. Qual \u00e9 a cena em quest\u00e3o? \u201cMuito simples\u201d, deve ter afirmado Herzog ao engravatado com a caneta em punhos: um bando de nativos, munidos com algumas cordas e roldanas, elevando at\u00e9 o topo de uma montanha um navio com cerca de cento e trinta metros de comprimento, cento e sessenta toneladas de madeira e ferro do mais resistente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao largar a parceria com o est\u00fadio e acertar com seu pr\u00f3prio irm\u00e3o para tocar em frente a produ\u00e7\u00e3o, Werner Herzog se dirigiu para o centro da floresta amaz\u00f4nica a fim de rodar a t\u00e3o sonhada seq\u00fc\u00eancia. E assim o fez. O resultado dessa empreitada praticamente inconceb\u00edvel, no momento, o grande sonho do cineasta (e \u00e9 aqui que se encontra o n\u00facleo do processo de intersec\u00e7\u00e3o entre obra e realizador, referido par\u00e1grafos acima), pode ser vislumbrado em uma magn\u00edfica e impressionante seq\u00fc\u00eancia, marcada por alguns percal\u00e7os e muitos acertos, mas, acima de tudo, transpirando um ar que jamais seria inal\u00e1vel caso tivesse optado pela maneira mais f\u00e1cil de se fazer. Podemos sentir o odor das folhas molhadas da selva \u00famida, o peso leve do ar puro e oxigenado pelas plantas in\u00fameras que rondam a a\u00e7\u00e3o. Transformamo-nos em mais um dos diversos homens presos ao sonho de Fitzcarraldo. E passamos a admir\u00e1-lo. Tanto a cria, quanto seu criador. \u00c9 um momento sublime, impec\u00e1vel, que poderia ser transposto \u00e0 tela apenas por algu\u00e9m como Herzog.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, n\u00e3o \u00e9 somente neste espa\u00e7o de tempo f\u00edlmico que brilha a estrela exc\u00eantrica de Herzog. Ao longo dos mais de cento e cinq\u00fcenta minutos de proje\u00e7\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o entrar em estado de completa admira\u00e7\u00e3o com a impressionante per\u00edcia t\u00e9cnica apresentada, com a manipula\u00e7\u00e3o da natureza realizada pelo diretor. \u00c0s vezes, as imagens parecem denunciar uma rela\u00e7\u00e3o de cumplicidade, uma parceria sobre-humana que entorna a c\u00e2mera que capta a a\u00e7\u00e3o. Cada plano constitui um conjunto de imagens bel\u00edssimas, realizadas em tom praticamente documental, que apresentam ao mundo a vasta verdid\u00e3o das folhas das \u00e1rvores, a aglomera\u00e7\u00e3o cristalina das \u00e1guas dos rios, o respirar pesado dos animais da selva \u2013 tudo isso, ainda, embalado por uma trilha sonora bel\u00edssima, com \u00f3peras europ\u00e9ias que rompem os sons da natureza de forma admir\u00e1vel. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos vendo uma inusitada mistura de filme delinq\u00fcente, existencialismo humano, drama de personagem, retrato hist\u00f3rico e document\u00e1rio do Discovery Channel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A mistura, embora completamente inusitada, define bem a indefini\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica desta obra de arte. Tudo \u00e9 muito grandioso para que fiquemos presos a conceitos predefinidos. Werner Herzog, em seu projeto mais ambicioso e pretensioso, realiza um trabalho de exatid\u00e3o, um ex\u00edmio reflexo e, porque n\u00e3o, estudo da import\u00e2ncia dos sonhos na vida de todos n\u00f3s. Contando ainda com um elenco de qualidade, do qual fazem parte a bela Claudia Cardinale (Era Uma Vez no Oeste) e um vasto grupo de figurantes sul-americanos (alguns, inclusive, brasileiros), Fitzcarraldo comprova sua narrativa po\u00e9tica tanto pelas imagens filmadas com maestria oper\u00edstica quanto pela bel\u00edssima mensagem que nos deixa ap\u00f3s um final de impressionante sensibilidade, no qual a simplicidade de um \u00fanico momento contrasta com a megalomania que rege todo o desenrolar da aventura, mostrando que a descoberta de um sonho pode ocorrer da forma mais singela e natural poss\u00edvel: pela sinceridade de um sorriso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00f3s somos feitos do tecido de que s\u00e3o feitos os sonhos\u201d. 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