{"id":139,"date":"2008-05-14T00:37:03","date_gmt":"2008-05-14T02:37:03","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=139"},"modified":"2008-05-14T00:37:03","modified_gmt":"2008-05-14T02:37:03","slug":"o-fantasma-da-liberdade-luis-bunuel-1974","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/14\/o-fantasma-da-liberdade-luis-bunuel-1974\/","title":{"rendered":"O Fantasma da Liberdade (Luis Bu\u00f1uel, 1974)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px;\" src=\"http:\/\/img368.imageshack.us\/img368\/6415\/fantasmaetcuu2.jpg\" alt=\"\" width=\"461\" height=\"270\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quem nunca sentiu um inebriante desejo de subverter todas as regras de conduta social, desligar-se daquele paradoxo enf\u00e1tico que distingue o certo do errado e experimentar sensa\u00e7\u00f5es que contrariam todo e qualquer padr\u00e3o ordin\u00e1rio de \u00e9tica? Garanto que, se este \u201cser\u201d existe, ele n\u00e3o \u00e9 nada, mas nada normal. O Fantasma da Liberdade, pen\u00faltima obra do mestre espanhol Luis Bu\u00f1uel, \u00e9 um filme que compactua \u201cpessoalmente\u201d com este tipo de sentimento. Ali\u00e1s, \u00e9 com ele que Bu\u00f1uel finalmente liberta de seu corpo aquele espectro maldito que lhe assombrara durante toda a vida, o pr\u00f3prio \u201cfantasma da liberdade\u201d; afinal, o diretor nunca estivera t\u00e3o livre para emaranhar o espectador em situa\u00e7\u00f5es de pura oniricidade surreal\u00edstica quanto agora, tendo como mote apenas aqueles supracitados questionamentos, entre algumas outras cositas m\u00e1s.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 por isso que, a grosso modo, O Fantasma da Liberdade n\u00e3o possui nem ao menos uma hist\u00f3ria. Ou melhor, at\u00e9 poder\u00edamos definir uma linha de condu\u00e7\u00e3o narrativa para este grande conjunto de situa\u00e7\u00f5es aparentemente desconexas que Bu\u00f1uel utiliza para a composi\u00e7\u00e3o da obra, mas ela passaria muito, mas muito longe de poder ser considerada uma trama, propriamente dita. N\u00e3o \u00e9 um filme que apresenta uma continuidade entre as seq\u00fc\u00eancias, mas todas elas, por mais que sejam cabalisticamente surreais, servem para estruturar e ilustrar a mensagem que Luis tenta transmitir ao espectador: de que a liberdade, em virtude das amarras sociais e de nossa pr\u00f3pria voluntariedade em segui-las, s\u00f3 pode ser experimentada por n\u00f3s na forma de arte, sonho ou de pura ilus\u00e3o. \u00c9 uma utopia que, infelizmente, ser\u00e1 irreversivelmente mantida como tal.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00e9m, mesmo com uma mensagem sutilmente amarga, Bu\u00f1uel constr\u00f3i em O Fantasma da Liberdade aquela que pode facilmente ser reconhecida como a obra mais hilariante de sua carreira \u2013 o que \u00e9 um inestim\u00e1vel elogio, j\u00e1 que, mesmo quando n\u00e3o tem realmente esta inten\u00e7\u00e3o, o diretor nos brinda com momentos de extrema intelig\u00eancia e sofistica\u00e7\u00e3o c\u00f4mica. \u00c9 um filme que se utiliza de absurdos, devaneios c\u00e1usticos da mente afiadamente genial de Bu\u00f1uel, que comp\u00f5em uma das maiores colet\u00e2neas surrealistas do cinema. Desde o in\u00edcio, passado na \u00e9poca das guerras napole\u00f4nicas, at\u00e9 o alucinado final, o que vemos \u00e9 uma colagem preciosa de seq\u00fc\u00eancias surtadas que apostam em uma sensacional invers\u00e3o de valores para criticar, sempre de maneira embasada e, claro, c\u00f4mica, os valores sociais mais desprezados pelo diretor \u2013 al\u00e9m, claro, de conter aquelas habituais alfinetadas na burguesia e no clericalismo (no caso do segundo, dessa vez, uma bela duma flechada, isso sim).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A maneira utilizada por Bu\u00f1uel para conectar uma seq\u00fc\u00eancia \u00e0 outra, por sinal, \u00e9 extremamente brilhante, e faz com que a mudan\u00e7a de situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorra de maneira t\u00e3o abrupta quanto se fossem divididas em simples esquetes \u2013 o que seria, certamente, a op\u00e7\u00e3o utilizada por um realizador mais ordin\u00e1rio. O diretor, em O Fantasma da Liberdade, sempre procura ligar os fatos atrav\u00e9s de uma personagem em comum entre as seq\u00fc\u00eancias, ou seja, o figurante de uma cena passa a ser o protagonista de outra, que por sua vez resulta em algum fato que sucede um encontro entre a c\u00e2mera e mais outro personagem, que vir\u00e1 a ter seu sonho relatado numa pr\u00f3xima seq\u00fc\u00eancia, e por ai vai. Tudo \u00e9 devidamente encaixado, passando uma sensa\u00e7\u00e3o de pseudo-conectividade que realmente faz sentido aos olhos do espectador &#8211; pseudo em virtude de n\u00e3o terem, na verdade, uma rela\u00e7\u00e3o entre si, a n\u00e3o ser esta que acabo de citar, forjada pelo diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um bom exemplo desta \u201cconectividade artificial\u201d (na verdade, todas as seq\u00fc\u00eancias poderiam ser citadas aqui, mas tive de escolher apenas uma) \u00e9 o momento em que, ap\u00f3s ter passado a noite em uma pousada de estrada (em um dos momentos mais hil\u00e1rios do filme, onde o diretor deixa a c\u00e2mera no corredor do hotel e passa a acompanhar as desventuras de uma gama de personagens exc\u00eantricos, desde padres viciados em jogatina at\u00e9 um casal sadomasoquista), uma personagem vai se preparar para prosseguir a viagem que realiza. A c\u00e2mera desce com ela at\u00e9 o sagu\u00e3o, onde acaba por filmar sua conversa com outro homem. Quando se separam, ao inv\u00e9s de prosseguir junto \u00e0 mo\u00e7a, Bu\u00f1uel passa a acompanhar os movimentos do segundo elemento, no caso, o homem, iniciando uma nova seq\u00fc\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esta seq\u00fc\u00eancia, ali\u00e1s, resulta em um dos momentos mais exc\u00eantricos e fant\u00e1sticos de todo o cinema. \u00c9 uma daquelas amostras completas da genialidade de um realizador, que n\u00e3o nos permitem desfrutar do benef\u00edcio da d\u00favida. Trato de uma hist\u00f3ria contada pelo professor de uma academia policial, na qual Bu\u00f1uel utiliza-se de uma ir\u00f4nica e fin\u00edssima invers\u00e3o de valores para refor\u00e7ar de maneira ainda mais expl\u00edcita suas id\u00e9ias contra as conven\u00e7\u00f5es pr\u00e9-estabelecidas da sociedade, for\u00e7ando seus personagens a protagonizarem uma descaracteriza\u00e7\u00e3o total de uma das pr\u00e1ticas burguesas mais caracter\u00edsticas (e bastante enfatizada pelo diretor): o jantar. \u00c9 o relato de uma sociedade onde as pessoas se re\u00fanem ao redor da mesa para defecar e, \u00e0s escondidas, no \u201cbanheiro\u201d, praticam o ato da alimenta\u00e7\u00e3o. Um momento de pura genialidade &#8211; reflexo da mente doentia de Luis Bu\u00f1uel -, que faz parte da conjuntura de um dos filmes mais singulares da carreira deste que fora um dos diretores mais autorais de toda a hist\u00f3ria. Uma verdadeira e imperd\u00edvel obra-de-arte surreal\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem nunca sentiu um inebriante desejo de subverter todas as regras de conduta social, desligar-se daquele paradoxo enf\u00e1tico que distingue o certo do errado e experimentar sensa\u00e7\u00f5es que contrariam todo e qualquer padr\u00e3o ordin\u00e1rio de \u00e9tica? 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