{"id":138,"date":"2008-05-14T00:30:59","date_gmt":"2008-05-14T02:30:59","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=138"},"modified":"2008-05-14T00:30:59","modified_gmt":"2008-05-14T02:30:59","slug":"bonnie-clyde-uma-rajada-de-balas-arthur-penn-1967","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/14\/bonnie-clyde-uma-rajada-de-balas-arthur-penn-1967\/","title":{"rendered":"Bonnie &#038; Clyde &#8211; Uma Rajada de Balas (Arthur Penn, 1967)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nervepop.com\/NerveBlog\/Images\/Entry\/12542_bonniegun.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um road-movie policial com clim\u00e3o western protagonizado por um casal de delinq\u00fcentes dotados de uma vis\u00e3o completamente surrealista de justi\u00e7a. Isto \u00e9, provavelmente, o mais pr\u00f3ximo que algu\u00e9m pode chegar de uma defini\u00e7\u00e3o que sintetize, ao mesmo passo, a simplicidade e a grandiosidade da salada de refer\u00eancias gen\u00e9ricas que constituem um dos principais cl\u00e1ssicos do cinema hollywoodiano da d\u00e9cada de 1960. Bonnie &amp; Clyde &#8211; Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, faz uso de elementos verdadeiramente distintos em prol de uma unidade final inquietante, que exala a cada frame a ideologia de toda uma gera\u00e7\u00e3o e se mant\u00e9m at\u00e9 hoje como um brilhante exponencial no que tange ao conjunto de filmes mais influentes de seu per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ambientada na \u00e9poca da depress\u00e3o estadunidense da d\u00e9cada de 1930, anos ap\u00f3s o estouro da bolsa de Nova York, que representou a fal\u00eancia do sistema econ\u00f4mico capitalista que vinha se condensando e expandindo na Am\u00e9rica, a obra trata do incomum senso de justi\u00e7a de um rec\u00e9m formado casal de marginais, quando decidem partir para uma infind\u00e1vel jornada de assaltos a bancos (que, por conseguinte \u00e0 crise, passaram a protagonizar uma verdadeira chacina residencial, despejando de seus lares milhares de fam\u00edlias de agricultores para se apossar das terras) e, subseq\u00fcentemente, de fuga da justi\u00e7a \u2013 auxiliados por outras tr\u00eas pessoas, um pequeno delinq\u00fcente que visa ao sucesso marginal e um casal formado pelo irm\u00e3o de Clyde e sua mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Inicialmente um projeto muito querido pelo franc\u00eas Fran\u00e7ois Truffaut, a inquietante saga de amor e viol\u00eancia foi parar nas m\u00e3os de um cineasta relativamente jovem e assumidamente estudioso da escola cinematogr\u00e1fica fundada por Truffaut, a nouvelle vague francesa. Esta aproxima\u00e7\u00e3o entre Hollywood e o cinema europeu, por sinal, mesmo sem ter sido dirigido por um genu\u00edno representante do cinema do velho mundo, resta forte como uma das mais importantes caracter\u00edsticas de Bonnie &amp; Clyde. A decupagem exagera nas refer\u00eancias ao charmoso cinema franc\u00eas e transborda um espiritualismo t\u00edpico de seus realizadores \u2013 evocando, muitas vezes, uma semelhan\u00e7a bem peculiar com as produ\u00e7\u00f5es de Godard, amante dos contos de crime estadunidenses.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O \u00e1pice deste referencialismo se encontra no principal momento de Bonnie &amp; Clyde, tanto narrativamente quanto qualificativamente: a amarga e ensurdecedora \u201crajada de balas\u201d proferida por membros da justi\u00e7a na seq\u00fc\u00eancia derradeira da obra. N\u00e3o tanto pelo trato visual da decupagem, composto por simples planos em closes e outro \u00e2ngulo aberto na a\u00e7\u00e3o, mas sim pela montagem em \u201cplano\/contra plano\u201d seq\u00fcencial que encerra com gosto de poesia r\u00edtmica toda a jornada f\u00edsica e emocional pela qual transitam ambos os protagonistas. A troca de olhares entre Bonnie e Clyde, momentos antes de serem alvejados por dezenas de proj\u00e9teis metralhados pelos oficiais, revela a verdadeira mutualidade rom\u00e2ntica que comp\u00f5e o cerne de toda a aventura &#8211; artif\u00edcio bastante surpreendente e perspicaz, por sinal.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o obstante, a jornada em sua plenitude, embora perca f\u00f4lego em algumas (poucas, \u00e9 verdade) seq\u00fc\u00eancias, que atrapalham o desenvolvimento \u00e1gil e il\u00edcito da narrativa, \u00e9 composta por momentos apaixonantes, empolgantes sob o ponto de vista da a\u00e7\u00e3o e auxiliados com deliciosas pitadas de com\u00e9dia e, como j\u00e1 dito, romance. Em alguns aspectos, Bonnie &amp; Clyde chega a dialogar com a grande obra-prima da arte cinematogr\u00e1fica, o godardiano O Dem\u00f4nio das Onze Horas, n\u00e3o apenas pela supracitada refer\u00eancia na decupagem, mas sim pela forma com a qual \u00e9 constru\u00edda a rela\u00e7\u00e3o entre o casal principal e todo o universo ficcional. Ainda assim, \u00e9 uma refer\u00eancia boba, talvez pescada apenas pelo lado rom\u00e2ntico com o qual vejo filmes depois de O Dem\u00f4nio das Onze Horas, mas a presen\u00e7a do esp\u00edrito inquietante do cinema de Godard \u00e9 bastante not\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Embora particularmente interessante, o meticuloso processo de cria\u00e7\u00e3o organizado por Penn ainda \u00e9 respaldado por atua\u00e7\u00f5es da mais alta classe, provindas de alguns dos principais nomes do cinema da \u00e9poca. Warren Beatty provavelmente consegue aqui sua caracteriza\u00e7\u00e3o mais inesquec\u00edvel, vencendo at\u00e9 mesmo seu trabalho de estr\u00e9ia na obra-prima m\u00e1xima do mestre Elia Kazan, o amargo e impressionante Clamor do Sexo. Clyde \u00e9 uma caricatura muito bem desenhada do famoso estere\u00f3tipo dur\u00e3o de \u201cjusticeiro hom\u00f4nimo\u201d dos westerns, enquanto Bonnie, vivida pela inebriante Faye Dunaway, extrapola qualquer vis\u00e3o preconceituada das personagens femininas e se estrutura como uma femme fatalle \u00e0s avessas \u2013 por mais estranho que isso soe.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ainda assim, toda a riqueza de sua composi\u00e7\u00e3o n\u00e3o necessariamente representa exagero quanto \u00e0 hermeticidade ou a uma suposta revolu\u00e7\u00e3o f\u00edlmica. O desenvolvimento \u00e9 linear, sem qualquer pretens\u00e3o de inova\u00e7\u00e3o narrativa, e o objetivo \u00e9 apenas um: divertir com classe e muito estilo, procurando beber de fontes variadas e transcender os estigmas mais conservadores da est\u00e9tica cinematogr\u00e1fica. Por final, \u00e9 o que Arthur Penn e sua equipe realmente conseguem transmitir com Bonnie &amp; Clyde, uma obra de arte classuda e recheada de viol\u00eancia, decupada nos moldes do cinema europeu de Godard e Truffaut e, com isso, levemente destitu\u00edda do estilo cl\u00e1ssico de Hollywood \u2013 com uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas atadas com muito charme, romantismo e empolga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um road-movie policial com clim\u00e3o western protagonizado por um casal de delinq\u00fcentes dotados de uma vis\u00e3o completamente surrealista de justi\u00e7a. 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