{"id":1377,"date":"2008-09-22T21:07:45","date_gmt":"2008-09-22T23:07:45","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=1377"},"modified":"2008-09-22T21:07:45","modified_gmt":"2008-09-22T23:07:45","slug":"decada-de-70-especial-james-dean","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/09\/22\/decada-de-70-especial-james-dean\/","title":{"rendered":"D\u00e9cada de 70 (Especial James Dean)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Sentei em frente ao computador, encarando a p\u00e1gina em branco, pensando o que escrever sobre uma d\u00e9cada na qual nem mesmo havia nascido, da qual meu conhecimento se baseia \u00fanica e exclusivamente em heran\u00e7as, nos registros feitos atrav\u00e9s de m\u00fasicas, filmes, lembran\u00e7as transmitidas em conversas, leituras aleat\u00f3rias na internet, e foi quando percebi que deve ser muito mais f\u00e1cil lan\u00e7ar um olhar de fora sobre o per\u00edodo do que vivenci\u00e1-lo e tentar compreend\u00ea-lo ao mesmo tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">H\u00e1 um turbilh\u00e3o de sentimentos, acontecimentos e sensa\u00e7\u00f5es repartindo a esfera setentista. \u00c9, de certa forma, o in\u00edcio da contemporaneidade do s\u00e9culo passado, o princ\u00edpio daquilo que hoje temos como base social. \u00c9 tamb\u00e9m a extens\u00e3o de tudo o que as duas d\u00e9cadas anteriores come\u00e7aram a construir, ou destruir. Se a d\u00e9cada de 1950 reafirmou valores, a de 1960 chegou para rasg\u00e1-los. Se em 1950 estabeleceu-se um novo conceito de juventude, em 1960 coisas como conceitos s\u00e3o usadas pra fechar cigarros de maconha.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em 1970, o forte do radicalismo, a necessidade de transgredir, acaba. Ao mesmo passo em que as barreiras permanecem dilu\u00eddas, surge a capacidade de se olhar pra tr\u00e1s e aprender a resgatar, a ver o que h\u00e1 de interessante em tempos passados e lamentar perdas \u2013 A \u00daltima Sess\u00e3o de Cinema e Loucuras de Ver\u00e3o chegariam como propulsores dos registros nost\u00e1lgicos cinematogr\u00e1ficos, h\u00e1 em ambos uma paix\u00e3o muito forte pela inoc\u00eancia de se pegar o carro e ir paquerar em boliches, bebendo suco e comendo sandu\u00edches, uma arte j\u00e1 findada em tempos de tamanha liberdade sexual \u2013 na vida e nas telas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na realidade, fica dif\u00edcil definir algo t\u00e3o abstrato, ao mesmo tempo t\u00e3o livre e desiludido. O mundo se distanciou do trauma das grandes guerras, mas o principal disseminador cultural sofria com as feridas que restavam do Vietn\u00e3. O caos se desloca do f\u00edsico ao psicol\u00f3gico, as dores deixam de ser sentidas para serem refletidas. Surge o movimento punk e o culto ao trash, a produ\u00e7\u00e3o independente multiplica-se, abrem as portas para a liberdade de express\u00e3o. A juventude da \u00e9poca encarou a maior das transforma\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos tempos. Nada mais natural que seu registro no Cinema ser tamb\u00e9m o mais complexo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Analisando certas caracter\u00edsticas, pode-se conferir ao per\u00edodo um arco indissol\u00favel de pessimismo, reflexo da sujeira das ruas e resultado da implos\u00e3o da d\u00e9cada anterior \u2013 ainda que boa parte da produ\u00e7\u00e3o setentista seja voltada \u00e0 dilui\u00e7\u00e3o desse pessimismo. Se o existencialismo era proposto por Michelangelo Antonioni, Robert Bresson e Ingmar Bergman na d\u00e9cada de 1950, em 1970 refor\u00e7ava-se como grande valor de estudo cinematogr\u00e1fico, junto da pr\u00f3pria heran\u00e7a dos anos 60, toda reajustada sobre o desejo de mudan\u00e7a, sobre a insatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Surge uma avalanche de pequenos retratos dessa desola\u00e7\u00e3o, do desconforto com o social. Cada um Vive Como Quer, Corrida Sem Fim e Profiss\u00e3o: Rep\u00f3rter faziam uso do road movie &#8211; que n\u00e3o apenas recebeu maior destaque nos anos 70 como se tornou, talvez, a melhor maneira de ilustrar a pr\u00f3pria juventude do per\u00edodo, ainda que metaforicamente \u2013 para apresentar figuras deslocadas da conjuntura de sociedade, desiludidas com o mundo e com a vida, insatisfeitas, temerosas, sonhadoras, fugitivas \u2013 de si mesmo, muitas vezes -, grupo refor\u00e7ado por filmes como A Morte de um Bookmaker Chin\u00eas, Tragam-me a Cabe\u00e7a de Alfredo Garcia, A Primeira Noite de Tranq\u00fcilidade, \u00c2nsia de Amar, etc intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outros, como Sob o Dom\u00ednio do Medo, Laranja Mec\u00e2nica, Opera\u00e7\u00e3o Fran\u00e7a, Crime e Paix\u00e3o, Rabid Dogs, Assalto \u00e0 13\u00aa DP, Caminhos Perigosos, Taxi Driver, Rolling Thunder, O Assassino da Furadeira, entre outros filmes policiais ou voltados \u00e0 realidade das ruas, mostravam que a sociedade chegava a um n\u00edvel intoler\u00e1vel de viol\u00eancia e que, aos poucos, ia se anulando entre prazeres e perdi\u00e7\u00f5es, mem\u00f3rias e desejos \u2013 notando-se tamb\u00e9m grande influ\u00eancia da pr\u00f3pria guerra do Vietn\u00e3 na constru\u00e7\u00e3o dessa condi\u00e7\u00e3o. Boa parte dos filmes do per\u00edodo, em particular os que casem caracter\u00edsticas com estes a\u00ed, apresentavam jovens infratores, sem julg\u00e1-los, mas mostrando que tudo n\u00e3o passava de reflexo do que ocorrera e ocorria no momento, uma miscel\u00e2nia t\u00e3o intensa que havia transmitido a todos um grau quase irrevers\u00edvel de desorienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao mesmo tempo, e muito pela necessidade de se encontrar meios para evitar o caos desenfreado, fortificava-se no Cinema a condi\u00e7\u00e3o de fonte de escape \u2013 um exerc\u00edcio retratado com perfei\u00e7\u00e3o no espanhol O Esp\u00edrito da Colm\u00e9ia -, praticamente destru\u00edda com o engajamento do final da d\u00e9cada anterior e in\u00edcio da pr\u00f3pria d\u00e9cada de 1970, \u00e0queles que n\u00e3o conseguiam mais lidar com tantas incertezas. Era o in\u00edcio da fase dos blockbusters, das superprodu\u00e7\u00f5es centradas exclusivamente no desejo pelo entretenimento, uma arte imediatamente comprada pela juventude e que havia sido deixada de lado com a exclus\u00e3o dos musicais e das screwball comedies l\u00e1 no in\u00edcio da d\u00e9cada anterior. O tempo de Spielberg, George Lucas e Coppola, que ganhou tanta notoriedade a ponto de, na d\u00e9cada seguinte, ocultar tudo o que era feito al\u00e9m dele aos olhos mais desatentos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 tempo tamb\u00e9m da explos\u00e3o do Cinema indepentente, do exploitation, do porn\u00f4 constru\u00edndo-se enquanto ind\u00fastria, de Cassavetes fazer suas duas obras-primas m\u00e1ximas, de Andy Warhol, Mario Bava, Lucio Fulci, Brian De Palma, Dario Argento, David Lynch, David Cronenberg, John Carpenter, George Romero e Alejando Jodorowsky levarem aos jovens um Cinema do jeito que eles realmente queriam ver, ensandecido, surreal, de imaginatividade inviol\u00e1vel, ainda que sem se deslocar completamente do pessimismo que permeava a realidade, por que o desejo pelo retorno do ficcional, do aleat\u00f3rio, do imaginativo como principal meio de veicula\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica nunca foi t\u00e3o forte quanto o sentido durante a d\u00e9cada mais emblem\u00e1tica, visceral e realista de todo o Cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>O Assassino da Furadeira (Abel Ferrara, 1979)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/i279.photobucket.com\/albums\/kk140\/danielefou\/aaa.jpg?t=1222124732\" alt=\"aaa.jpg picture by danielefou\" width=\"461\" height=\"346\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">70 foi a d\u00e9cada da visceralidade. Foi tamb\u00e9m, como j\u00e1 afirmado, o momento em que as dores se transformaram no Cinema. Inicia-se ao mesmo tempo uma extens\u00e3o neo-realista do olhar cinematogr\u00e1fico por sobre a caoticidade urbana, \u00e9 verdade, mas o verdadeiro caos a ser retratado deixa de ser o f\u00edsico. O material deixa de ser objeto e a esfera toda se volta ao universo psicol\u00f3gico, \u00e0s feridas mentais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Poderia eu poupar a ess\u00eancia da juventude setentista, mas mais importante do que registrar a grande qualidade cultural do per\u00edodo \u00e9 observar que, sobretudo, e afora ao eixo Spielberg-Lucas-Coppola, havia muito de importante a se expor. \u00c9 contr\u00e1rio ao desejo de reafirma\u00e7\u00e3o? Com certeza. E fundamental tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Assassino da Furadeira n\u00e3o foi o primeiro estudo dos limites impostos pela implos\u00e3o cultural e, especialmente, pelas trevas que restaram do abafo daquela virtuosa expedi\u00e7\u00e3o liberal que se obteve em 60 &#8211; nem mesmo \u00e9 o mais popular filho deste modelo. Mas, embora filmes como Taxi Driver e Rolling Thunder tenham direito a todo e qualquer m\u00e9rito, n\u00e3o vejo pe\u00e7a t\u00e3o fundamental para sua compreens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Da est\u00e9tica ao discurso, o primeiro filme de Abel Ferrara \u00e9 um violento estudo sobre a viol\u00eancia, da influ\u00eancia do social sobre o pessoal e seu feedback, em contrapartida. Ao contr\u00e1rio de Scorsese, do qual extrai boa parte de seu material, Ferrara procura retratar a famigerada esc\u00f3ria &#8211; que nada mais era do que a pr\u00f3pria aliena\u00e7\u00e3o juvenil &#8211; sob seu pr\u00f3prio ponto de vista, em um misto de loucura e aberra\u00e7\u00e3o todo ligado \u00e0 ess\u00eancia do movimento punk, que fez a cabe\u00e7a da juventude da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Ferrara, vale muito mais investigar as causas. Se n\u00e3o existem her\u00f3is no particular universo em que centra seus filmes, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 vil\u00f5es. S\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es sociais que ditam a a\u00e7\u00e3o, ainda que coligadas \u00e0 natureza humana. \u00c9 o jovem desempregado e gradativamente ensandecendo de O Assassino da Furadeira \u2013 que em seu filme seguinte se transformaria em uma jovem in\u00f3cua transformada, em virtude de um trauma, em m\u00e1quina de vingan\u00e7a \u2013 um fruto do descontrole social, mas e de que forma poderia se gerir o pr\u00f3prio controle de algu\u00e9m que vive \u00e0 risca da loucura, cercado de mis\u00e9ria, sujeira e ru\u00eddos incontrol\u00e1veis?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o por qualquer brincadeira, antes mesmo de o filme iniciar h\u00e1 o letreiro \u201cThis Movie Should Be Played Loud\u201d \u2013 em portugu\u00eas, este \u201ceste filme deve ser tocado alto\u201d. H\u00e1 um grande exerc\u00edcio por detr\u00e1s de toda a est\u00e9tica, que muitos diriam ser tosca, suja ou depravada \u2013 e \u00e9, realmente, mas com prop\u00f3sito &#8211; apoiado tamb\u00e9m na encena\u00e7\u00e3o sonora que promove um dist\u00farbio t\u00e3o intenso quanto desconfort\u00e1vel na proje\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s dos sons amplificados da trilha punk, dos efeitos sonoros err\u00e1ticos, surtados. Ferrara filma a desconstru\u00e7\u00e3o do jovem, do homem, enquanto particular e tamb\u00e9m engrenagem do social, numa esp\u00e9cie de descida ao inferno ao melhor estilo polanskiano \u2013 existem ind\u00edcios de Repulsa ao Sexo e O Inquilino em cada canto de O Assassino da Furadeira.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 um mundo de d\u00favidas, incertezas e subvers\u00f5es. N\u00e3o se tem f\u00e9 no futuro \u2013 e os pesadelos e brincadeiras envolvendo o cristianismo, tema de grande recorr\u00eancia em toda a filmografia de Ferrara, somente evidenciam a condi\u00e7\u00e3o catalisadora do filme, feito em uma \u00e9poca que beiravam-se os limites \u2013 ou a necessidade deles &#8211; em tudo. Mais do que a base de todo o Cinema ferrariano, O Assassino da Furadeira \u00e9 um grande ensaio sobre a desconstru\u00e7\u00e3o do homem diante de uma sociedade dominada pelo caos. \u00c9 o registro mais direto e visceral da juventude setentista. De parte dela, mas que influencia todas as outras.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img217.imageshack.us\/img217\/5084\/boton1iu2hv3.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sentei em frente ao computador, encarando a p\u00e1gina em branco, pensando o que escrever sobre uma d\u00e9cada na qual nem mesmo havia nascido, da qual meu conhecimento se baseia \u00fanica e exclusivamente em heran\u00e7as, nos registros feitos atrav\u00e9s de m\u00fasicas, &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/09\/22\/decada-de-70-especial-james-dean\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[121,344,417,640,815,975,1424,1533,1610,1985,2183,2225,2460],"class_list":["post-1377","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-abel-ferrara","tag-blockbuster","tag-caos","tag-decada-de-70","tag-existencialismo","tag-guerra-do-vietna","tag-martin-scorsese","tag-movimento-punk","tag-o-assassino-da-furadeira","tag-road-movie","tag-steven-spielberg","tag-taxi-driver","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1377"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1377\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}