{"id":136,"date":"2008-05-13T19:43:18","date_gmt":"2008-05-13T21:43:18","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=136"},"modified":"2008-05-13T19:43:18","modified_gmt":"2008-05-13T21:43:18","slug":"a-crianca-jean-pierre-luc-dardenne-2005","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/13\/a-crianca-jean-pierre-luc-dardenne-2005\/","title":{"rendered":"A Crian\u00e7a (Jean-Pierre &#038; Luc Dardenne, 2005)"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/medias.lemonde.fr\/mmpub\/edt\/ill\/2005\/05\/18\/h_3_ill_651360_18425517.jpg\" alt=\"\" width=\"463\" height=\"309\" \/><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">A ado\u00e7\u00e3o ilegal de crian\u00e7as \u00e9 uma realidade que perdura em v\u00e1rios lugares do mundo. Seja na Fran\u00e7a, onde o filme \u201cA Crian\u00e7a\u201d se passa, seja no Brasil. Em territ\u00f3rio nacional, ali\u00e1s, tal procedimento \u00e9 chamado de \u201cado\u00e7\u00e3o \u00e0 brasileira\u201d e consiste na doa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as a pessoas com maiores condi\u00e7\u00f5es financeiras ou, simplesmente, na venda de crian\u00e7as a casais que desejem registrar uma crian\u00e7a em seu nome. De uma maneira ou de outra, tal pr\u00e1tica \u00e9 crime e pass\u00edvel de severas san\u00e7\u00f5es. Mesmo desconhecendo a Legisla\u00e7\u00e3o francesa, creio poder afirmar que tal pr\u00e1tica tamb\u00e9m n\u00e3o deve ser vista com bons olhos na terra dos irm\u00e3os Dardenne. Por\u00e9m, em \u201cA Crian\u00e7a\u201d, os Dardenne n\u00e3o est\u00e3o interessados em mostrar as terr\u00edveis conseq\u00fc\u00eancias legais que desabam sobre aquele que vende uma crian\u00e7a na Fran\u00e7a. Ao inv\u00e9s disso, eles preferem mostrar como um jovem \u00e0 margem da sociedade comete um erro que vai se emendando a outros at\u00e9 formar uma grande teia, da qual ele n\u00e3o tem a menor chance de escapar. O filme, totalmente merecedor da Palma de Ouro, com a qual foi agraciado, \u00e9 uma aula de observa\u00e7\u00e3o, onde os diretores n\u00e3o pretendem perdem seu tempo apontando fatores: \u00e9 um filme de a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o. A bel\u00edssima fotografia, a c\u00e2mera quase documental e a aus\u00eancia de trilha sonora instigam o espectador a querer saber o que realmente se passa pela cabe\u00e7a dos personagens e mostram que, para tanto, \u00e9 preciso acompanh\u00e1-los. Persigamos, portanto, os passos de Bruno, aquele que erra.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>PARTE I \u2013 Em Busca de Bruno<\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><span>Sonia acaba de sair do hospital e tem uma crian\u00e7a em seu colo. Ela e seu namorado, Bruno, resolveram chamar o beb\u00ea de Jimmy, mas ainda buscam um segundo nome para a crian\u00e7a. \u00c9 uma tarde de inverno franc\u00eas. Est\u00e1 ventando e Sonia protege Jimmy como pode. Indo at\u00e9 seu apartamento, ela descobre que este foi alugado para estranhos por seu namorado. Ela vai at\u00e9 um orelh\u00e3o e tenta ligar para o namorado, sem sucesso. A p\u00e9, carregando uma crian\u00e7a de oito dias, Sonia atravessa estradas onde os carros n\u00e3o fazem a menor men\u00e7\u00e3o de desacelerar para que uma jovem m\u00e3e possa chegar ao outro lado. A garota chega at\u00e9 a margem do rio, onde Bruno montou seu \u201cquartel general\u201d, por\u00e9m, ele n\u00e3o est\u00e1 ali. Ela tenta, novamente, telefonar para ele, mas n\u00e3o consegue contato. Ap\u00f3s pegar carona com um motoqueiro, ela enfim encontra o namorado. Bruno est\u00e1 na esquina de um restaurante, pedindo esmolas aos motoristas que param no sem\u00e1foro. O primeiro contato de Bruno com seu filho n\u00e3o s\u00f3 mostra a total falta de habilidade dele com beb\u00eas, como tamb\u00e9m exp\u00f5e o fato de que Bruno ainda n\u00e3o concebe a responsabilidade que recaiu sobre seus ombros. No momento, o rapaz est\u00e1 mais interessado em espreitar sua pr\u00f3xima v\u00edtima, que est\u00e1 no restaurante, do que demonstrar um pouco de aten\u00e7\u00e3o por seu filho. Ap\u00f3s o assalto ser realizado, voltam todos para o quartel-general de Bruno.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>PARTE II \u2013 O Universo de Bruno<\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><strong><\/strong><span>Bruno e seus dois pequenos comparsas dividem os resultados da pilhagem em propor\u00e7\u00f5es n\u00e3o exatamente justas: os dois garotos ficam com 10% cada um e Bruno, por ser o l\u00edder, embolsa o resto dos ganhos. O lugar onde eles est\u00e3o \u00e9 aquele por qual Sonia j\u00e1 passou anteriormente: \u00e0 beira de um rio, pr\u00f3ximo a uma grande ponte, existe uma pequena constru\u00e7\u00e3o, onde Bruno e seus pequenos capangas se escondem. Ap\u00f3s a divis\u00e3o, a qual Sonia observou pacientemente, os garotos v\u00e3o embora e Bruno volta para perto de Sonia. Ambos conversam brevemente sobre o parto e a garota pede para que seu companheiro toque sua barriga. Mesmo obedecendo, \u00e9 percept\u00edvel que tudo aquilo \u00e9 estranho para Bruno. Para evitar o embara\u00e7o de Sonia pedir-lhe para segurar o pequeno Jimmy mais uma vez, Bruno recomenda que eles v\u00e3o para um albergue, para passar a noite. Ele mostra a Sonia sua nova jaqueta e ela o interroga sobre como ele a conseguiu. \u201cEu n\u00e3o poderia ter roubado isso\u201d, ele responde. Antes de encaminharem-se ao albergue, Sonia derruba Bruno sobre as pedras e os dois iniciam uma brincadeira de arremessar pedras um contra o outro. Se ignorarmos o fato de que Sonia tinha um beb\u00ea em seu colo e que n\u00e3o \u00e9 exatamente recomend\u00e1vel brincadeiras desse g\u00eanero quando se carrega uma crian\u00e7a, podemos perceber que esta \u00e9 a segunda situa\u00e7\u00e3o onde podemos ver um Bruno totalmente concentrado naquilo que faz. No universo dele, os furtos e as brincadeiras inconseq\u00fcentes encontram abrigo. Por\u00e9m, Sonia e Jimmy tamb\u00e9m encontrariam? Enfim, chegando ao albergue, eles descobrem estar atrasados. Bruno argumenta com desculpas esfarrapadas sobre \u00f4nibus perdidos, mas a porta do albergue somente se abre quando Sonia declara estar carregando um beb\u00ea. O casal se despede na ala feminina (ap\u00f3s Sonia ter que lembrar Bruno sobre o beijo de boa noite em Jimmy) e Bruno, ap\u00f3s se recolher, recebe uma liga\u00e7\u00e3o: \u00e9 hora de vender os \u00faltimos itens que sobraram do assalto. Saindo no meio da noite, Bruno encontra-se com uma mulher em um bar e negocia com ela o pre\u00e7o de uma filmadora. Ap\u00f3s feitas as negocia\u00e7\u00f5es, a mulher pergunta sobre Jimmy&#8230; e sobre a possibilidade de Bruno vend\u00ea-lo. Como qualquer pessoa de bem que se preze, Bruno diz n\u00e3o. Jimmy faz parte do universo de Bruno. Ao menos, \u00e9 isso o que parece.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><span>No dia seguinte, a nova fam\u00edlia vai passear! Bruno aluga um carro e compra um carrinho de beb\u00ea para Jimmy. Os tr\u00eas passeam, se divertem (com mais algumas brincadeiras inconseq\u00fcentes) e Bruno mostra-se novamente desconfort\u00e1vel com a id\u00e9ia de terem de registrar Jimmy. Ap\u00f3s o breve passeio, eles voltam ao apartamento. Ap\u00f3s a visita da assistente social, Sonia discute com Bruno uma oferta de emprego. \u201cMil euros por m\u00eas!\u201d, diz ela. \u201cN\u00e3o quero trabalhar para babacas\u201d, diz ele. Para fugir da conversa inc\u00f4moda, Bruno compra uma jaqueta igual a sua para Sonia e ent\u00e3o v\u00e3o ao cart\u00f3rio. Jimmy est\u00e1 registrado. Na seq\u00fc\u00eancia, v\u00e3o ao banco. A fila est\u00e1 muito grande. Bruno sai passear com Jimmy, para matar um tempo. E ent\u00e3o percebe que o beb\u00ea, as despesas, a necessidade de um emprego e, principalmente, as cobran\u00e7as de Sonia n\u00e3o fazem parte de seu universo. Em uma atitude r\u00e1pida, Bruno liga para a mulher e diz que quer conversar com as pessoas que compram os beb\u00eas. Sonia ainda cabe em seu universo&#8230; Jimmy n\u00e3o&#8230;<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><strong><span>PARTE III &#8211; <\/span><\/strong><strong><span>Une <span>Femme Bless\u00e9e<\/span> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><span>Tentando ser o mais \u00e1gil poss\u00edvel, Bruno acerta os detalhes para a venda. Vai at\u00e9 um pr\u00e9dio, entra em um apartamento e deixa Jimmy deitado sobre sua jaqueta, em um canto do apartamento vazio. Vai at\u00e9 um outro c\u00f4modo e se fecha l\u00e1: faz parte do acordo que ele n\u00e3o veja os rostos das pessoas envolvidas na compra. Ap\u00f3s alguns momentos, ele ouve sons e, quando estes cessam, Bruno volta \u00e0 sala e encontra um envelope contendo aquilo que ele tanto almeja. Bruno \u00e9 inconseq\u00fcente. Ele sai do pr\u00e9dio empurrando o carrinho de beb\u00ea vazio e sequer sabe o que dizer a Sonia ainda. Ao encontrar-se com ela, o rapaz joga a verdade para sua namorada: \u201ceu vendi ele\u201d. Ainda incr\u00e9dula, Sonia continua a interrogar Bruno e este, vendo que n\u00e3o fora boa id\u00e9ia dizer a verdade, inventa que roubaram-lhe Jimmy durante o passeio no parque. N\u00e3o funcionou. Um grande erro pede uma grande desculpa esfarrapada: \u201cvamos fazer outro\u201d, diz Bruno. Sonia desmaia. Sem conseguir reanim\u00e1-la, Bruno a levanta e tenta carreg\u00e1-la at\u00e9 um hospital. Aqui reside uma met\u00e1fora sutil e bem empregada pelos Dardenne: Bruno, em v\u00e1rios momentos, precisa parar e \u201cajeitar\u201d Sonia em seu colo. Sonia \u00e9 o peso de seu erro. E Bruno, em sua imensa imaturidade, jamais parou para pensar se era capaz de aguentar o peso daquele erro.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><span>Uma vez no hospital, o medo toma conta de Bruno: Sonia poderia delat\u00e1-lo ap\u00f3s acordar! Desesperado com essa (\u00f3bvia) possibilidade, Bruno liga novamente para a mulher que o convencera a vender Jimmy e diz que quer desfazer o neg\u00f3cio. Jamais passara por sua mente que, talvez, Sonia preferisse a crian\u00e7a ao dinheiro. Jamais passara por sua mente que Sonia poderia vir a fazer as vezes da f\u00eamea ultrajada por terem lhe roubado a cria. Perder alguns milhares de euros ainda era melhor do que ir para a cadeia. Bruno agiliza-se novamente: desta vez para desfazer seu erro.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><strong>PARTE IV \u2013 Entrando numa Fria Maior Ainda<\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><span>Desta vez, o local combinado \u00e9 uma garagem abandonada. Bruno entra em uma das garagens, a fecha e aguarda instru\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s alguns instantes, uma voz vinda da garagem ao lado ordena que o rapaz devolva o dinheiro. Bruno alcan\u00e7a o dinheiro para o homem, que conta nota por nota. Ap\u00f3s a confirma\u00e7\u00e3o do valor, tal homem diz que Bruno pode sair da garagem ap\u00f3s ouvir o barulho do carro saindo. Bruno obedece, mas ainda guarda em si o temor de ter sido enganado: e se n\u00e3o tivessem deixado Jimmy? Felizmente, n\u00e3o era o caso. Bruno vai at\u00e9 a garagem ao lado e encontra a crian\u00e7a. Entretanto, mal sabia ele que problemas maiores estavam por vir: caminhando para longe daquelas garagens, \u00e9 abordado por um homem que informa que Bruno est\u00e1 em d\u00edvida com eles. \u201cEu devolvi o dinheiro\u201d, alega Bruno. \u201cN\u00f3s perdemos em dobro\u201d, anuncia o homem. A falta de vis\u00e3o de Bruno ao vender Jimmy o leva at\u00e9 essa complica\u00e7\u00e3o maior, mas isso \u00e9 apenas o come\u00e7o. Mesmo devolvendo Jimmy, Bruno ainda tem que prestar contas \u00e0 pol\u00edcia sobre onde estava a crian\u00e7a e Bruno, vendo-se sem sa\u00edda, corre justamente para aquele recurso que uma pessoa como ele detestaria usar: \u201cO beb\u00ea estava com minha m\u00e3e\u201d. Na seq\u00fc\u00eancia, Bruno n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 abandonado por Sonia, que n\u00e3o o quer mais por perto (\u201cJ\u00e1 pedi desculpas! Achei que poder\u00edamos ter feito outro&#8230;\u201d), como tamb\u00e9m nos revela que, talvez, ele n\u00e3o seja do jeito que \u00e9 apenas por sua pr\u00f3pria culpa. Ao nos apresentar \u00e0 sua m\u00e3e, ele nos mostra o poss\u00edvel motivo para que viva, praticamente, na rua: aparentemente, Bruno e o \u201cnamorado novo da mam\u00e3e\u201d se desentenderam e ele foi posto para fora de casa. Aparentemente, tamb\u00e9m, pelo tom com que Bruno fala com sua m\u00e3e, sua vida n\u00e3o deve ter sido f\u00e1cil. E \u00e9 a\u00ed que reside um dos pontos mais interessantes da obra dos Dardenne: eles, definitivamente, n\u00e3o querem nem saber das dificuldades pelas quais seu protagonista passou. N\u00e3o existe \u201cah, ele vendeu a crian\u00e7a porque teve uma vida dif\u00edcil\u201d, mas sim \u201cele vendeu a crian\u00e7a e agora VAI TER uma vida dif\u00edcil\u201d.<span> <\/span>A \u201cdivers\u00e3o\u201d est\u00e1 apenas come\u00e7ando. Na sucess\u00e3o dos fatos, vemos Bruno sendo espancado e \u201croubado\u201d pelos criminosos para os quais ele deve, implorando perd\u00e3o, mendigando centavos para poder comer e sendo rejeitado por Sonia mais uma vez. Bruno est\u00e1 enrascado e precisa achar uma sa\u00edda.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><strong>PARTE V \u2013 A Arte de Catalisar um Erro <\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><span>Envolvido em um grande problema, Bruno precisa de uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para levantar o dinheiro que os criminosos querem. Para tal fim, ele vai atr\u00e1s de um de seus \u201ccompanheiros trombadinhas\u201d, Steve. Munidos de uma scooter e de muita inconseq\u00fc\u00eancia, os dois roubam a bolsa de uma mulher e saem em disparada, por\u00e9m, s\u00e3o perseguidos de perto por um carro. Seria, de fato, uma \u00f3tima persegui\u00e7\u00e3o \u201ccinematogr\u00e1fica\u201d se os Dardenne n\u00e3o fizessem quest\u00e3o de nos mostrar o qu\u00e3o rid\u00edcula a situa\u00e7\u00e3o \u00e9. Ap\u00f3s algumas manobras arriscadas, Bruno e Steve enfim conseguem despistar o carro, mas, ao tentarem passar por tr\u00e1s de um conteiner a scooter enrosca em arames e n\u00e3o consegue passar. Deixando o ve\u00edculo para tr\u00e1s, nossos intr\u00e9pidos delinq\u00fcentes se escondem atr\u00e1s de uma pilha de vigas de metal e aproveitam para esconder o dinheiro que roubaram embaixo dela. Quando planejavam, enfim, sair do esconderijo, eles percebem que a barra n\u00e3o est\u00e1 limpa: o motorista daquele carro estava os alcan\u00e7ando. Bruno, ent\u00e3o, decide que a melhor forma de fugir \u00e9 entrando no rio. Os dois andam por uma estreita e danificada passarela e entram no rio, escondendo-se debaixo da mesma passarela. Seria, de fato, uma \u00f3tima sa\u00edda se eles n\u00e3o estivessem na Fran\u00e7a, onde o inverno \u00e9 rigoroso, o que faz com que a \u00e1gua fique bastante gelada. Ap\u00f3s alguns momentos imerso, Steve come\u00e7a a sofrer os efeitos da hipotermia e quase se afoga. Bruno o tira da \u00e1gua e o leva para uma pequena constru\u00e7\u00e3o abandonada, onde tenta reativar a circula\u00e7\u00e3o do garoto. Lembrando-se do dinheiro, Bruno pede para que Steve aguarde alguns instantes, para que ele busque o dinheiro embaixo das vigas. Contudo, esse breve instante em que Steve fica sozinho acaba resultando na sua captura. Sozinho, Bruno desenrosca a scooter e a empurra por algumas ruas, at\u00e9 chegar a um hospital. L\u00e1, ele pergunta por Steve e, ao encontr\u00e1-lo junto com uma assistente social, devolve o dinheiro do roubo e se entrega, assumindo a autoria do roubo. Bruno, enfim, chegara ao fundo do po\u00e7o: sua \u00faltima carta na manga falhara e ele j\u00e1 n\u00e3o via mais chances de conseguir saldar sua d\u00edvida com os bandidos que o atormentavam. Um erro levara a outro e, nessa \u00faltima tentativa, ele n\u00e3o s\u00f3 se prejudicara como quase levara Steve junto com ele.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><strong>PARTE VI \u2013 O Golpe de Miseric\u00f3rdia <\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><span>Bruno, enfim, est\u00e1 preso. E a \u00faltima cena dessa obra-prima dos Irm\u00e3os Dardenne \u00e9 justamente durante uma visita de Sonia a Bruno. Eles trocam algumas palavras e, ent\u00e3o, Bruno come\u00e7a a chorar. Ambos se abra\u00e7am, se tocam. \u00c9 essa cena silenciosa e aparentemente terna, que se concentra o \u00e1pice do filme: Bruno, enfim, admite-se como o personagem-t\u00edtulo. N\u00e3o \u00e9 de Jimmy, o pobre beb\u00ea vendido pelo pai, a \u201ccrian\u00e7a\u201d do t\u00edtulo, mas sim Bruno, uma pessoa de aproximadamente 20 anos que n\u00e3o consegue ter atitudes condizentes com sua pr\u00f3pria idade. Em diversos momentos do filme testemunhamos a infantilidade de Bruno, percebemos o qu\u00e3o imaturo ele \u00e9 (ressalto, principalmente, a cena em que Bruno est\u00e1 aguardando a liga\u00e7\u00e3o das pessoas que comprar\u00e3o Jimmy e, enquanto espera, brinca de pisar em po\u00e7as de lama e chutar uma parede, vendo o qu\u00e3o alto consegue alcan\u00e7ar). Por\u00e9m, faltava Bruno admitir sua imaturidade. Tudo o que ele fez descende da sua falta de seriedade com a vida e com o que o cerca. Provavelmente, existem alguns fatores sociais que deveriam ser analisados e que poderiam atenuar a culpa de Bruno. Mas, nenhum fator social ou de cria\u00e7\u00e3o justificaria a falta de maturidade de Bruno, uma vez que a partir de uma determinada idade, o respons\u00e1vel pelo seu crescimento \u00e9 ele mesmo! Em nome de uma falsa \u201cvida divertida\u201d, Bruno negligenciou seu amadurecimento e acabou envolvendo e influenciando muitas pessoas com suas atitudes egocentricas e infantis. Sonia e Steve podem at\u00e9 ser duas dessas pessoas, mas o filme n\u00e3o descarta a culpa que esses dois personagens tamb\u00e9m possuem. Sonia tamb\u00e9m reconhece sua pr\u00f3pria culpa ao chorar com Bruno. A \u00fanica verdadeira v\u00edtima de espectros sociais negativos \u00e9 o pequeno Jimmy: fruto da inconseq\u00fc\u00eancia de dois jovens, Jimmy poderia acabar trilhando exatamente o mesmo caminho que seu pai. Por\u00e9m, gra\u00e7as a Sonia (a \u00fanica personagem pass\u00edvel de receber atenua\u00e7\u00e3o por seus atos, uma vez que \u201cacordou para a vida\u201d ap\u00f3s o nascimento de Jimmy), que conseguiu abrir seus olhos a tempo, ele possui uma chance. Enfim, este \u00e9 o golpe de miseric\u00f3rdia em Bruno: ele desperta para seus erros e percebe que ningu\u00e9m ir\u00e1 \u201cpassar a m\u00e3o em sua cabe\u00e7a\u201d. O sofrimento est\u00e1 apenas come\u00e7ando. A culpa est\u00e1 apenas come\u00e7ando. E \u00e9 nesse momento final, tamb\u00e9m, que desvendamos o mist\u00e9rio do porqu\u00ea o filme n\u00e3o possuir m\u00fasica. N\u00e3o se trata de Bruno ter uma vida triste e, portanto, sem m\u00fasica. Muito pelo contr\u00e1rio! O filme n\u00e3o tem m\u00fasica porque Bruno n\u00e3o a merece.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"><span>4\/4<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:right;\"><span><em>Murilo Lopes de Oliveira<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ado\u00e7\u00e3o ilegal de crian\u00e7as \u00e9 uma realidade que perdura em v\u00e1rios lugares do mundo. Seja na Fran\u00e7a, onde o filme \u201cA Crian\u00e7a\u201d se passa, seja no Brasil. 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