{"id":135,"date":"2008-05-13T18:15:53","date_gmt":"2008-05-13T20:15:53","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=135"},"modified":"2008-05-13T18:15:53","modified_gmt":"2008-05-13T20:15:53","slug":"inverno-de-sangue-em-veneza-nicholas-roeg-1973","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/13\/inverno-de-sangue-em-veneza-nicholas-roeg-1973\/","title":{"rendered":"Inverno de Sangue em Veneza (Nicholas Roeg, 1973)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/cineptarquivo.no.sapo.pt\/DontLookTwo.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Poucos cineastas conseguiram alcan\u00e7ar um tom de desconforto t\u00e3o impressionante quanto o empregado por Nicholas Roeg \u00e0 atormentada viagem de meia-esta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Baxter pelo terreno \u00famido e escuro de uma Veneza sem o menor brilho \u2013 esque\u00e7am as paisagens a la Grimm de Noites Brancas; esque\u00e7am. O desenvolvimento esquizofr\u00eanico e extremamente sensorial deste drama de horror soturno e devastador, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 nada, nada gratuito. Trata-se da jornada introspectiva de um casal que acabou de perder a filha em um terr\u00edvel acidente, e a forma com a qual ambos lidam com a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os primeiros cinco minutos do filme, ali\u00e1s, que apresentam justamente o momento que d\u00e1 in\u00edcio ao desenvolvimento da trama, mostram tamb\u00e9m o dom\u00ednio absurdo de Roeg sobre a linguagem utilizada para causar esta imprescind\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de estranhamento no espectador. Atrav\u00e9s da montagem de duas a\u00e7\u00f5es paralelas, uma envolvendo os filhos brincando no p\u00e1tio e outra com os pais trabalhando na sala de casa, o diretor arma um jogo de rea\u00e7\u00f5es impec\u00e1vel, construindo uma atmosfera de liga\u00e7\u00e3o espiritual entre os quatro elementos da fam\u00edlia, sem precisar de qualquer palavra \u2013 que culmina na sensa\u00e7\u00e3o do pai de que algo havia acontecido com uma das crian\u00e7as, o que de fato era verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A montagem alucinada, descont\u00ednua, truncada, atira o espectador dentro de um universo pr\u00f3prio, de linguagem singular. N\u00e3o se pode esperar de Inverno de Sangue em Veneza algo que ele n\u00e3o est\u00e1 disposto a oferecer: uma sess\u00e3o de cinema confort\u00e1vel e banal. \u00c9 um filme, acima de tudo, sensorial, uma experi\u00eancia atormentada e atormentadora, na mesma medida. N\u00e3o existe propriamente uma continuidade dieg\u00e9tica, uma preocupa\u00e7\u00e3o com a organicidade, nem nada parecido, mas sim um controle absoluto sobre o trauma desenvolvido pelos patriarcas da fam\u00edlia e o tormento que lhes cerca diante da realidade incontrol\u00e1vel da vida que levam.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 quando a personagem de Julie Christie, fabulosa, charmosa e tudo o mais, resolve utilizar-se dos servi\u00e7os de uma cega m\u00e9dium, com a \u201csegunda vis\u00e3o\u201d, que coisas come\u00e7am a acontecer. Dizendo ter uma \u201cmensagem do al\u00e9m\u201d enviada pela filha, ela acaba despertando a curiosidade (e propulsionando uma obsess\u00e3o desmedida, al\u00e9m de uma mudan\u00e7a radical em seu comportamento) da mulher, dando in\u00edcio ao desenvolvimento de uma jornada f\u00fanebre de reinstala\u00e7\u00e3o dentro de seu pr\u00f3prio universo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E, quando chega ao final da \u201cest\u00f3ria\u201d (entre aspas mesmo), pol\u00eamico, surtado, absurdo, Roeg mostra pra n\u00f3s o qu\u00e3o genial conseguiu ser, concluindo a obra sem amarrar nada e, al\u00e9m do mais, deixando uma sensa\u00e7\u00e3o estranha, desconfortante, elevada \u00e0 estratosfera pela revela\u00e7\u00e3o do significado de uma das mais emblem\u00e1ticas imagens atiradas na tela durante o desenvolvimento \u2013 e, puta que o pariu, como aquilo deixa um gosto amargo na boca.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 um filme fora de s\u00e9rie, fora de padr\u00f5es, feito com uma naturalidade absurda e dono de algumas das seq\u00fc\u00eancias mais sinceras que eu j\u00e1 vi serem filmadas \u2013 em especial a cena de sexo entre Donald Sutherland e Julie Christie, de longe a mais bonita e significante de todo o cinema. Sim, eu sou exagerado mesmo. Mas o filme em quest\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9. Somos todos representantes de uma mesma esfera, portanto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos cineastas conseguiram alcan\u00e7ar um tom de desconforto t\u00e3o impressionante quanto o empregado por Nicholas Roeg \u00e0 atormentada viagem de meia-esta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Baxter pelo terreno \u00famido e escuro de uma Veneza sem o menor brilho \u2013 esque\u00e7am as paisagens &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/13\/inverno-de-sangue-em-veneza-nicholas-roeg-1973\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[711,835,1119,1503,1519,1578,2366],"class_list":["post-135","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comentarios","tag-dont-look-now","tag-familia","tag-inverno-de-sangue-em-veneza","tag-misterio","tag-morte","tag-nicholas-roeg","tag-trauma"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/135","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=135"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/135\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=135"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=135"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=135"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}