{"id":1322,"date":"2008-09-16T20:08:39","date_gmt":"2008-09-16T22:08:39","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=1322"},"modified":"2008-09-16T20:08:39","modified_gmt":"2008-09-16T22:08:39","slug":"decada-de-80-especial-james-dean","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/09\/16\/decada-de-80-especial-james-dean\/","title":{"rendered":"D\u00e9cada de 80 (Especial James Dean)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Responsabilidade grande falar de anos 80 em pleno revival. E no caso do cinema, \u00e0s pretens\u00f5es de nostalgia, a d\u00e9cada durou foi 20 anos. Imposs\u00edvel separ\u00e1-la daquela no\u00e7\u00e3o de Sess\u00e3o da Tarde\/Cinema em Casa que estendeu seu alcance pelos discretos anos 90 atingindo em cheio quem mant\u00e9m sua inf\u00e2ncia guardada nesses 10 anos de muita pipoca, videogame e Coca-Cola, assim como para os adolescentes dos anos 80 a prolifera\u00e7\u00e3o dos filmes de terror e slashers movies vinha matar uma sede de sangue acesa e provocada por uma censura silenciosa desde o in\u00edcio do cinema. Contrariando a \u2018l\u00f3gica\u2019 e adultos ranzinzas, a nova gera\u00e7\u00e3o \u2013 que v\u00ea, escreve e come\u00e7a a fazer cinema \u2013 n\u00e3o consegue agir racionalmente sobre um tipo de cinema que, se surgiu sob vaias e lamentos, reage agora por sob um v\u00ednculo sentimental indissoci\u00e1vel com seus espectadores. E se a 7\u00aa arte \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos sentimentos, podemos dizer que Godard (\u201co cinema est\u00e1 morto\u201d) estava redondamente enganado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Poucas vezes foi mais f\u00e1cil ser extremista ao analisar qualquer coisa quando se observa as mudan\u00e7as sofridas pelo cinema na d\u00e9cada de 80. A conclus\u00e3o a que Godard chegou (um dos pilares centrais da nouvelle vague) \u00e9 totalmente compreens\u00edvel frente a uma aparentemente inevit\u00e1vel desconstru\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia de cinema de autor, desencadeada tanto pelo aparecimento dos primeiros blockbusters (Tubar\u00e3o, Star Wars), ainda na d\u00e9cada de 70, propulsados depois num embalo incontido por Os Ca\u00e7adores da Arca Perdida (Spielberg, 1981), quanto pela cat\u00e1strofe financeira de O Portal do Para\u00edso (Michael Cimino, 1980), que levou \u00e0 fal\u00eancia a United Artists, est\u00fadio que o pr\u00f3prio Charles Chaplin ajudou a fundar em 1919.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que se anunciava nestes primeiros anos era uma retomada do cinema pelas gera\u00e7\u00f5es mais jovens, que dariam as cartas sobre a produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica dos EUA numa \u201cera\u201d que se sust\u00e9m at\u00e9 hoje sem previs\u00e3o de terminar. No entanto, n\u00e3o conv\u00e9m este discurso de que o cinema acabou e de que nada que preste foi feito de 20, 25 anos pra c\u00e1 (conforme costumam sugerir as renomadas listas de melhores filmes). Irm\u00e3os Cohen, Lynch, Tarantino, Kieslowski, De Palma, Scorsese, Ferrara\u00a0e o pr\u00f3prio Spielberg n\u00e3o s\u00e3o diretores de n\u00facleo de Pantanal pelo que eu sei.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas tamb\u00e9m pudera. O mundo viu o videoclip e a MTV explodirem em efeitos multicoloridos dentro das de 14 polegadas, o VHS arrasando milhares de salas de cinema pelo mundo. Viu a ind\u00fastria porn\u00f4 se desenvolver num impulso de libera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 movia a produ\u00e7\u00e3o exploitation e de terror\/com\u00e9dias que ganhavam os jovens na mesma propor\u00e7\u00e3o que fazia os grandes e velhos mestres desejarem o suic\u00eddio. Isto como se houvesse algo de muito errado em fazer cinema com um \u00fanico objetivo: divertir.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">S\u00e3o in\u00fameras as produ\u00e7\u00f5es oitentistas que, transportadas diretamente para as tardes entre um pouco de Road Rash e O Incr\u00edvel Mundo de Beakman, marcaram toda uma gera\u00e7\u00e3o. E se muitas vezes nem s\u00e3o lembrados exatamente pela qualidade, guardam um cheiro inconfund\u00edvel de inf\u00e2ncia e anos 80. Filmes absoluta e maravilhosamente datados como Namorada de Aluguel, Os Ca\u00e7a-Fantasmas e Os Gremlins n\u00e3o possuem muito sentido vistos fora deste contexto (embora eu considere isto imposs\u00edvel). E tantos outros&#8230; Os Goonies, Meus Vizinhos S\u00e3o um Terror, Short Circuit, O Garoto que\u00a0Podia Voar, O V\u00f4o do Navegador, E.T., De Volta Para o Futuro, Quero Ser Grande, F\u00e9rias Frustradas, Garotos Perdidos, Ador\u00e1vel Andr\u00f3ide&#8230;<br \/>\n\u00a0<br \/>\nEu poderia ficar horas aqui falando de filmes que n\u00e3o vejo h\u00e1 10 ou 12 anos e que habitam como obras-primas a mem\u00f3ria (e a imagina\u00e7\u00e3o, muitas vezes convenientemente usada para preencher lapsos). Mas acho que basta versar sobre um deles, logo abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E dizer que se por um lado o cinema autoral perdeu espa\u00e7o vertiginosamente ao longo dos anos 80, sempre houve e haver\u00e1 lugar para o talento. E que falar que um De Volta Para o Futuro \u00e9 menos cinema que qualquer vanguarda europ\u00e9ia \u00e9 n\u00e3o apenas ser simplista como se autolimitar, e impor regras \u00e0 arte, que \u00e9 livre, vol\u00e1til e incapaz de se concentrar num \u00fanico ponto por muito tempo. Porque a d\u00e9cada at\u00e9 pode ter sido perdida, mas s\u00f3 pra quem estudava \u00e0 tarde, n\u00e3o tinha televis\u00e3o ou morava em caverna.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Curtindo a Vida Adoidado (John Hughes, 1986)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/img210.imageshack.us\/img210\/180\/ferris4previewqg1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"205\" \/><a href=\"http:\/\/img210.imageshack.us\/img210\/180\/ferris4previewqg1.jpg\"><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Curtindo a Vida Adoidado aparece na metade dos anos 80 tanto como um ato de revolta \u00e0quela id\u00e9ia pasteurizada de juventude perdida quanto como a sugest\u00e3o bem direta de que, talvez, um pouco de perdi\u00e7\u00e3o simplesmente n\u00e3o fa\u00e7a mal a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Que o filme \u00e9 um daqueles grandes cl\u00e1ssicos da Sess\u00e3o da Tarde j\u00e1 \u00e9 desnecess\u00e1rio dizer, mas as raz\u00f5es para a solidifica\u00e7\u00e3o e inclusive potencializa\u00e7\u00e3o do \u2018t\u00edtulo\u2019 merecem uma ou duas palavras. Primeiro que Curtindo a Vida \u00e9 um documento de persuas\u00e3o extremamente poderoso, de certa forma controverso e, principalmente, assumida\u00e7o sem qualquer pudor. E o tom professoral de Ferris Bueller do in\u00edcio (ineg\u00e1vel tamb\u00e9m que aquele mini-manual de \u201ccomo enganar os pais\u201d \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o direta e divertid\u00edssima) \u00e9 pego como refer\u00eancia e institu\u00eddo essencialmente em cada cena do filme at\u00e9 o final.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Da\u00ed que o que parecia um simples matar aula de um adolescente dos anos 80 se transforma num mapa ilustrado para o carpe diem, e Ferris nem \u00e9 mais a flecha, mas o arco e o alvo tamb\u00e9m. N\u00e3o h\u00e1 nada de especial na \u201cmensagem\u201d do filme, e apesar de esta simples pretens\u00e3o (filmes com mensagens e ensinamentos e essas merdas) j\u00e1 soar irritante, Curtindo a Vida \u00e9 um dos poucos exemplos que passam por cima do \u2018conte\u00fado\u2019 com uma \u2018forma\u2019 irresistivelmente sedutora.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um dos grandes truques do cinema, talvez at\u00e9 uma m\u00e1gica genu\u00edna, \u00e9 este poder t\u00e3o nobre de desencarnar pessoas de suas vidas e seus mundos e atir\u00e1-las a uma quase eletrosfera da imagina\u00e7\u00e3o, fazendo-as encontrar em si mesmas \u2013 e onde menos esperavam \u2013 uma por\u00e7\u00e3o de encanto e de feiti\u00e7o que parecia inexistir. Assim funciona na recria\u00e7\u00e3o de uma eficiente atmosfera ou no retrato de um personagem quase que gravitacional. Porque o mundo gira em torno de Ferris Bueller, e n\u00f3s vamos com ele num carrossel com um prop\u00f3sito n\u00e3o de alcan\u00e7\u00e1-lo, nunca, mas de gerar mesmo e apenas essa embriaguez de onipot\u00eancia e \u201cdon\u2019t worry\u201d que o personagem exala t\u00e3o naturalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ferris n\u00e3o existe, assim como um ideal, um sonho ou um modo de vida n\u00e3o podem ser fotografados e documentados. Ele \u00e9 t\u00e3o surreal e abstrato quanto suas palavras que, levadas ao extremo, s\u00e3o nada menos que a personifica\u00e7\u00e3o dele mesmo. Da\u00ed que como guia, como encarna\u00e7\u00e3o de uma filosofia e de uma mensagem, Ferris Bueller cria uma lenda para ser seguida e nunca alcan\u00e7ada. Pois podemos at\u00e9 girar em torno de Ferris, mas estamos mesmo ao lado de Cameron, o tempo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 com ele que vemos Ferris passear entre medos inatac\u00e1veis, que o vemos entrar num desfile como se simplesmente pudesse fazer tudo que quisesse. Que ouvimos um t\u00e3o \u00f3bvio mas \u00e0s vezes imposs\u00edvel \u201cviva um pouco\u201d. Porque Twist and Shout \u00e9 entoada como uma can\u00e7\u00e3o de marcha em favor de marcha nenhuma, de um anti-movimento, de uma despreocupa\u00e7\u00e3o com os ismos, do culto e da cren\u00e7a em quem realmente interessa: si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 na base dessa confian\u00e7a inabal\u00e1vel que o day off de Ferris Bueller \u00e9 constru\u00eddo, que Cameron manda tudo pro inferno ao menos uma vez e consegue sem muito esfor\u00e7o o melhor dia de sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Curtindo a Vida Adoidado permanece insubstitu\u00edvel por provocar no espectador uma identifica\u00e7\u00e3o e refletir tamb\u00e9m uma d\u00fazia de sonhos tipicamente adolescentes, e que n\u00e3o deveriam morrer nunca. Por ser um dos filmes mais divertidos de sua \u00e9poca, por ter esta \u00c9POCA cristalizada o fazendo um dos representantes mais fortes de uma gera\u00e7\u00e3o e de uma d\u00e9cada que tem hoje seu auge de nost\u00e1lgicos. Pelas cenas ic\u00f4nicas, pelos momentos inesquec\u00edveis como o apote\u00f3tico e delirante desfile, o confronto de Cameron consigo mesmo na cena com a Ferrari, na representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o menos que extraordin\u00e1ria de Jeffrey Jones para um dos vil\u00f5es mais memor\u00e1veis e divertidos do cinema. Porque assistir Curtindo a Vida \u00e9 fazer uma viagem de volta aos anos 80, de volta a um tempo em que matar aula representava algo como uma aventura, \u00e9 se dar conta de que o tempo pode ter passado sem que fiz\u00e9ssemos tudo aquilo que adorar\u00edamos fazer um dia, sem perceber ainda que n\u00e3o h\u00e1 muito que nos impe\u00e7a al\u00e9m de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pare de se preocupar, arranje uma Ferrari e viva um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img217.imageshack.us\/img217\/5084\/boton1iu2hv3.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Responsabilidade grande falar de anos 80 em pleno revival. E no caso do cinema, \u00e0s pretens\u00f5es de nostalgia, a d\u00e9cada durou foi 20 anos. 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