{"id":1288,"date":"2008-09-11T16:19:58","date_gmt":"2008-09-11T18:19:58","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=1288"},"modified":"2008-09-11T16:19:58","modified_gmt":"2008-09-11T18:19:58","slug":"heath-ledger-especial-james-dean","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/09\/11\/heath-ledger-especial-james-dean\/","title":{"rendered":"Heath Ledger (Especial James Dean)"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2008\/09\/ledger.jpg\"><\/a><\/p>\n<div style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" \" style=\"border:black 2px solid;margin:2px;\" src=\"http:\/\/cheekybuddha.files.wordpress.com\/2008\/01\/1561_662345527_heath_ledger_9_h161753_l.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" \/><p class=\"wp-caption-text\">1979 - 2008<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na d\u00e9cada de 50, quando ainda era vigente em Hollywood o esquema do star system, onde estrelas de cinema estavam vinculadas diretamente aos est\u00fadios e estes cuidavam do culto a elas como o mais importante dos neg\u00f3cios publicit\u00e1rios, era natural o desenvolvimento de um mito p\u00f3stumo tomando-se por base a figura de um jovem e promissor ator morto prematuramente, como aconteceu com James Dean. Nos anos 2000, \u00e9poca em que as estrelas s\u00e3o cadentes e lutam com foices para se manterem em evid\u00eancia, uma perda de um jovem talento n\u00e3o causaria uma como\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande, ainda mais sem o apoio maci\u00e7o de uma grande m\u00e1quina publicit\u00e1ria. Mas n\u00e3o foi isso que aconteceu com Heath Ledger, morto por uma overdose acidental de rem\u00e9dios para dormir em 22 de janeiro de 2008, e que mobiliza multid\u00f5es a verem nos cinemas uma de suas \u00faltimas performances e sa\u00edrem de l\u00e1 lamentando a trag\u00e9dia. As justificativas para o fen\u00f4meno n\u00e3o podem ser limitadas ao marketing da Warner, j\u00e1 que o resultado que \u00e9 visto na tela n\u00e3o pode ser forjado: Ledger n\u00e3o era somente um talento promissor, j\u00e1 era um ator extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nascido na Austr\u00e1lia, Ledger come\u00e7ou a atuar profissionalmente durante a adolesc\u00eancia, fazendo basicamente s\u00e9ries de televis\u00e3o locais. Seguindo o caminho padronizado de todo jovem ator, fez em 1999 a com\u00e9dia rom\u00e2ntica 10 Coisa Que Eu Odeio Em Voc\u00ea, ao lado de Julia Stiles, no cl\u00e1ssico papel do canalha que no fundo tem um cora\u00e7\u00e3o. O filme fez algum sucesso nas bilheterias e possibilitou a Ledger uma maior notoriedade no circuito cinematogr\u00e1fico dos EUA, facilitando sua entrada em Hollywood. Ao lado de Mel Gibson fez O Patriota, que teve sucesso de p\u00fablico e fez de Ledger uma figura ainda mais conhecida. Como todo dono de est\u00fadio busca em um novo rostinho bonito a promessa de milh\u00f5es em bilheteria, Ledger foi escolhido para fazer outro filme \u00e9pico, desta vez destinado a um p\u00fablico mais jovem: o bobo Cora\u00e7\u00e3o de Cavaleiro, onde ele faz seu primeiro protagonista. Esses 3 primeiros filmes demonstravam que a carreira de Ledger estava destinada a seguir o mesmo caminho que a de outros tantos atores jovens de Hollywood, se revezando \u00e0 frente de um filme pipoca com zero de pretens\u00e3o art\u00edstica. E de certa maneira, foi este mesmo o caminho que ele seguiu em algumas de suas produ\u00e7\u00f5es seguintes, O Devorador de Pecados e Ned Kelly. At\u00e9 mesmo Honra e Coragem, um \u00e9pico pretensioso dirigido por Shekhar Kapur, resultou em frustra\u00e7\u00e3o por parte da cr\u00edtica \u2013 al\u00e9m de um retumbante fracasso de bilheteria. Mas, por sorte, esse caminho-padr\u00e3o foi deixado de lado gra\u00e7as a escolhas menos \u00f3bvias e mais conscientes feitas por Ledger, a partir de A \u00daltima Ceia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O filme de 2001, dirigido por Marc Forster e que deu a Halle Berry o Oscar de Melhor Atriz em 2002, foi uma esp\u00e9cie de primeiro divisor de \u00e1guas na carreira de Ledger, s\u00f3 que menos evidente do que se nota. No filme, Heath Ledger faz o filho angustiado de Billy Bob Thornton, que a todo custo tenta agradar o pai e \u00e9 mal-sucedido. As frustra\u00e7\u00f5es o levam ao suic\u00eddio, numa cena densa e dif\u00edcil para um ator que at\u00e9 ent\u00e3o estava acostumado a fazer filmes despretensiosos. A constru\u00e7\u00e3o que Ledger fez do personagem em A \u00daltima Ceia chamou a aten\u00e7\u00e3o de Ang Lee, que na \u00e9poca ainda estava trabalhando em Hulk, mas que j\u00e1 se preparava para o pr\u00f3ximo projeto, a adapta\u00e7\u00e3o do conto de Annie Proulx sobre a rela\u00e7\u00e3o entre dois cowboys em Wyoming, durante 20 anos, em Brokeback Mountain. O interesse de Ang Lee no conto advinha de seu talento natural para retratar est\u00f3rias sobre personagens exclu\u00eddos, que sempre reprimem sentimentos e determinam suas vidas baseadas em dores mantidas em segredo. Esse assunto j\u00e1 era o mote principal de Banquete de Casamento, Raz\u00e3o e Sensibilidade, Tempestade de Gelo, O Tigre e o Drag\u00e3o, Hulk e seria tamb\u00e9m em O Segredo de Brokeback Mountain. A escolha de Heath Ledger para o papel do reprimido Ennis Del Mar foi justamente conseq\u00fc\u00eancia do trabalho do ator em A \u00daltima Ceia, que deixou Ang Lee bastante impressionado. A participa\u00e7\u00e3o de Ledger no filme s\u00f3 foi acertada depois dele ter sido convencido por Naomi Watts, sua namorada na \u00e9poca, de que era uma boa coisa fazer o desafiador papel, e ainda teve que enfrentar a descren\u00e7a por parte dos envolvidos no projeto, j\u00e1 que o ator n\u00e3o despertava nenhum tipo de confian\u00e7a at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Foi esse clima de descren\u00e7a que elevou o n\u00edvel de surpresa por parte da imprensa, em 2005, quando Brokeback Mountain foi lan\u00e7ado no Festival de Veneza. A destreza de Ang Lee em abordar um tema que at\u00e9 ent\u00e3o era visto como tabu de modo t\u00e3o sutil e nada sensacionalista, sem levantar bandeiras e optando por retratar a rela\u00e7\u00e3o homossexual como qualquer outro tipo de rela\u00e7\u00e3o amorosa, e principalmente a performance magistral de Heath Ledger, num papel interiorizado, desenvolvendo a personagem com uma limita\u00e7\u00e3o de gestos e muito trabalho baseado nos olhos, tudo isso moveram as aten\u00e7\u00f5es da cr\u00edtica para a produ\u00e7\u00e3o, que acabou levando o pr\u00eamio principal do Festival. O sucesso do filme, tanto de p\u00fablico quanto de cr\u00edtica, elevou Ledger ao status de estrela ascendente em Hollywood, sendo indicado ao Oscar de Melhor Ator, em 2006. A partir de Brokeback Mountain, Heath Ledger come\u00e7ou a escolher com mais propriedade os filmes que participaria. Pouco antes e pouco depois do lan\u00e7amento do filme Ang Lee, Ledger foi visto na f\u00e1bula visual de Terry Gilliam, Os Irm\u00e3os Grimm, na produ\u00e7\u00e3o independente Os Reis de Dogtown e na com\u00e9dia rom\u00e2ntica de \u00e9poca Casanova, mas logo depois de Brokeback Mountain seus projetos \u00a0foram escolhidos a dedo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Novamente desafiando os limites de interpreta\u00e7\u00e3o, ele protagonizou Candy, filme australiano sobre o amor e as drogas, onde o personagem de Ledger faz uma viagem alucinante ao inferno das drogas. Em seguida, foi um dos seis Bob Dylan no genial I\u2019m Not There, de Todd Haynes, biografia \u00e0s avessas sobre o g\u00eanio da m\u00fasica, nas v\u00e1rias fases de sua vida\/morte. O \u201cDylan\u201d de Ledger \u00e9 o da d\u00e9cada de 70, mostrando seu lado familiar e mais \u00edntimo. \u00c0 \u00e9poca da produ\u00e7\u00e3o, Heath Ledger ainda era casado com a atriz Michelle Williams, que conheceu nas filmagens de Brokeback Mountain e com quem havia acabado de ter uma filha, Matilda. O retrato de Ledger em I\u2019m Not There era uma esp\u00e9cie de reflexo sobre sua pr\u00f3pria postura com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida pessoal, sempre buscando ser mais reservado e distante dos spots. J\u00e1 o papel seguinte do ator o colocaria definitivamente em evid\u00eancia na ind\u00fastria, sendo o maior blockbuster de 2008. Mas apesar do car\u00e1ter de \u201cprodu\u00e7\u00e3o de mega-or\u00e7amento\u201d, O Cavaleiro das Trevas se revelou um duro estudo da personalidade humana e da pr\u00f3pria sociedade, confrontada com a mais completa falta de raz\u00e3o, com a loucura. Heath Ledger foi escolhido para dar vida ao cl\u00e1ssico personagem Coringa, a pr\u00f3pria insanidade, papel que antes havia sido de Jack Nicholson no filme de Tim Burton, Batman, de 1989. Mas enquanto Nicholson se caracterizou com doses cavalares de humor e farsa, Ledger fez uma composi\u00e7\u00e3o muito mais densa e complexa, tecendo o coringa sempre num limite bastante t\u00eanue entre a repulsa e o carisma. O personagem de Ledger no filme de Christopher Nolan \u00e9 pura explos\u00e3o, mas nunca \u00e9 caricatura; \u00e9 o absurdo humano em conflito extremo com a bizarrice da exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como o filme s\u00f3 foi lan\u00e7ado depois do falecimento do ator, a mobiliza\u00e7\u00e3o para conferir o \u00faltimo trabalho completo de Ledger (The Imaginarium of Doctor Parnassus n\u00e3o foi conclu\u00eddo por ele) foi substancial, mas novamente a surpresa diante de um trabalho t\u00e3o magn\u00edfico tomou conta da imprensa e do p\u00fablico (assim como houve como James Dean, com Assim Caminha Humanidade, Heath Ledger est\u00e1 cotado para uma indica\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma ao Oscar, por O Cavaleiro das Trevas), semelhante ao que houve em Brokeback Mountain. E mais impressionante ainda \u00e9 estabelecer um paralelo de compara\u00e7\u00e3o entre as duas composi\u00e7\u00f5es, em dois filmes t\u00e3o distintos, seguindo linhas de interpreta\u00e7\u00e3o t\u00e3o opostas, mas com resultados igualmente geniais. A morte de Ledger causou como\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pela m\u00e1quina industrial, mas pela tristeza em perceber que ele estava no auge do talento. Mas n\u00e3o se pode dizer que fica a sensa\u00e7\u00e3o de algo incompleto, j\u00e1 que Heath Ledger definitivamente se provou como um grande ator, um dos maiores de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>O Segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px;\" src=\"http:\/\/umasemanaumfilme.blogs.sapo.pt\/arquivo\/brokeback%20mountain%201.jpg\" alt=\"\" width=\"448\" height=\"270\" \/><a href=\"http:\/\/umasemanaumfilme.blogs.sapo.pt\/arquivo\/brokeback%20mountain%201.jpg\"><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\">O ambiente externo e a condi\u00e7\u00e3o humana em <em>Brokeback Mountain<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No aspecto mais evidente do desenvolvimento de um plano cinematogr\u00e1fico se espera que o ambiente e as personagens trabalhem em conjunto \u2013 ou em sentidos diametralmente opostos, dependendo da proposta \u2013 para a compreens\u00e3o e o desenrolar da narrativa. Em um filme que foi classificado por muitos como um western essa expectativa fica ainda mais clara, j\u00e1 que o tom cl\u00e1ssico a ser adotado parece bastante natural. Mas o que Ang Lee constr\u00f3i em Brokeback Mountain \u00e9 um desses exemplos de brilhantismo est\u00e9tico dif\u00edceis de equiparar no cinema contempor\u00e2neo. Brokeback Mountain \u00e9 um filme do cen\u00e1rio que rodeia as personagens que vivenciam o drama narrado, mas estas personagens trabalham seus conflitos do modo mais interiorizado poss\u00edvel e Lee as coloca na mais ampla das paisagens. Se o protagonista demonstra uma impossibilidade de comunica\u00e7\u00e3o por meio de sua personalidade, o ambiente que o rodeia \u00e9 todo aberto para qualquer tipo de intera\u00e7\u00e3o, na esperan\u00e7a do contato. Assim, Lee estabelece um esquema de exposi\u00e7\u00e3o do externo na tentativa de compreender o interno. Assim, Brokeback Mountain se torna um filme que foge dos m\u00e9todos cl\u00e1ssicos, ainda que t\u00e3o evidentemente acad\u00eamico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desde as primeiras cenas o p\u00fablico \u00e9 levado a encarar a sensa\u00e7\u00e3o de que, para chegar perto do que vir\u00e1 a ser o drama das personagens que estar\u00e3o na tela, se faz necess\u00e1ria uma abordagem geral do universo que rodeia aquelas vidas. Basicamente antes de cada plano em que uma das personagens diz alguma coisa \u2013 seja pelo corpo, seja pela fala \u2013 a c\u00e2mera faz um plano aberto ao extremo, como se buscasse captar o m\u00e1ximo das informa\u00e7\u00f5es que rodeiam \u00e0quela alma que dever\u00e1 ser dissecada, pela leitura do corpo e do ambiente. O filme cl\u00e1ssico-narrativo de Lee se revela uma das mais complexas experi\u00eancias de leitura cinematogr\u00e1fica dos \u00faltimos tempos, partindo de um primeiro plano com um caminh\u00e3o sendo observado de longe, seguindo em dire\u00e7\u00e3o ao oeste em meio ao sereno. Em seguida veremos a figura central do filme descer do ve\u00edculo, ainda sem podermos chegar perto dele. Nos planos seguintes a c\u00e2mera vai propondo uma esp\u00e9cie de aproxima\u00e7\u00e3o cautelosa de Ennis Del Mar (Heath Ledger), o homem em quest\u00e3o, ficando ainda meio reticente, mesmo quando j\u00e1 mais pr\u00f3xima dele (e o chap\u00e9u colocado na altura dos olhos ainda impede um contato maior). J\u00e1 a segunda personagem que veremos no plano faz o trajeto contr\u00e1rio. Ao inv\u00e9s de se seguir um caminho de aproxima\u00e7\u00e3o at\u00e9 Jack Twist (Jake Gyllenhaal), \u00e9 ele quem chega de carro para junto da c\u00e2mera. E \u00e9 visto logo depois de cara limpa para quem quiser ver, lan\u00e7a o olhar para onde deseja, mesmo que em seguida o desvie. Em menos de dois minutos est\u00e1 estabelecido tudo que \u00e9 necess\u00e1rio saber para acompanhar a trajet\u00f3ria dos dois e que ser\u00e1 desenvolvido em seguida: Ennis n\u00e3o \u00e9 capaz de dizer coisa alguma, \u00e9 fechado dentro de uma armadura seca e se conforma em n\u00e3o confrontar situa\u00e7\u00f5es adversas; Jack \u00e9 aberto \u00e0s possibilidades, saiu de casa para buscar uma vida melhor e n\u00e3o deixa de reclamar um segundo se algo o deixa insatisfeito. Os dois se envolver\u00e3o em seguida quando, j\u00e1 isolados no trabalho na montanha, forem levados a confrontar a pr\u00f3pria natureza. O frio que impede Ennis de dormir do lado de fora da barraca \u00e9 um aspecto natural externo, a impossibilidade dele de compreender o desejo por Jack \u00e9 a pr\u00f3pria natureza humana. Ennis Del Mar se ergue em tela nos momentos que sucedem o envolvimento dos dois como o ser humano em estado bruto, puro e simples, em conflito latente contra sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. No caso de Ennis, esse conflito atinge n\u00edveis guturais, como quando ele se despede de Jack sem ao menos o tocar e momentos depois cai num beco, sentindo uma dor insuport\u00e1vel, decorrente de coisas que ele n\u00e3o foi capaz de dizer \u2013 e que ainda teria que guardar nos anos seguintes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A vida que seguir\u00e1 para cada um deles \u00e9 importante para a compreens\u00e3o das op\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas do filme, j\u00e1 que o excesso de cores no n\u00facleo familiar de Jack, ap\u00f3s se casar com Lureen (Anne Hathaway) e a aus\u00eancia delas no n\u00facleo de Ennis e Alma (Michelle Williams) s\u00e3o igualmente artificiais, no sentido da n\u00e3o-naturalidade das exist\u00eancias. A fotografia de Rodrigo Pietro, assim como a m\u00fasica de Gustavo Santaolalla, s\u00f3 recobram um sentido de naturalidade nos momentos em Ennis e Jack est\u00e3o juntos em Brokeback. Novamente \u00e9 o cen\u00e1rio falando alto na compreens\u00e3o global das personagens, j\u00e1 que \u00e9 somente l\u00e1 que eles s\u00e3o capazes de coexistirem em harmonia e naturalidade, e a montanha sendo muito claramente uma base firme de um relacionamento. E o conflito gerado entre o artificial e o natural, o externo e o interno mais uma vez vira o ponto central do filme. Quando Jack prop\u00f5e que os dois tentassem uma vida juntos ali, Ennis \u00e9 incapaz de aceitar a id\u00e9ia, preferindo n\u00e3o confrontar a sociedade por conta do relacionamento dos dois. O que resta a eles \u00e9 voltar para os artif\u00edcios sociais e viver na esperan\u00e7a do retorno espor\u00e1dico para o que \u00e9 natural em Brokeback. No caso, o pr\u00f3prio amor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c0 medida que o filme se desenvolve, Ennis vai se tornando ainda mais s\u00f3 e Jack cada vez mais angustiado com a impossibilidade de viver a rela\u00e7\u00e3o. S\u00e3o nesses momentos que fica imposs\u00edvel sentir qualquer tipo de estranheza com rela\u00e7\u00e3o aos dois, mesmo para aqueles que traziam algum preconceito quanto ao envolvimento de dois homens. Ennis e Jack compartilham juntos uma vida partida, mas ao mesmo tempo sozinhos, e mesmo inseridos num ambiente familiar pr\u00f3prio s\u00e3o incapazes de interagir naturalmente, pois a situa\u00e7\u00e3o cotidiana \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o humana, muito mais que uma trai\u00e7\u00e3o social. Esta \u00e9 a maneira que Ang Lee encontra para colocar a sociedade opondo os dois amantes, nunca de forma direta e cat\u00e1rtica, nem mesmo quando Alma revela para Ennis, depois de tantos anos, que ela j\u00e1 sabia do envolvimento dele com Jack. Da mesma forma, a cena em que Lureen conversa ao telefone com Ennis, mais pr\u00f3ximo do final, \u00e9 completamente amb\u00edgua sobre o conhecimento ou n\u00e3o dela em rela\u00e7\u00e3o ao que de fato viveu o marido \u2013 e sobre o desfecho, tal como na mente de Ennis.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As elipses discretas que encaminham a est\u00f3ria \u00e0 cena do trailer impedem que tenhamos de cara uma real no\u00e7\u00e3o do tempo passado, da pot\u00eancia do sofrimento dos dois diante da dist\u00e2ncia. Lee reserva tudo que h\u00e1 de mais doloroso para o momento final, quando Ennis tem um di\u00e1logo com a filha que est\u00e1 prestes a se casar. A primeira posi\u00e7\u00e3o dele \u00e9 de distanciamento, como se fosse sua sina ser s\u00f3 e se manter \u00e0 parte do conv\u00edvio social que lhe possibilitasse algum tipo de felicidade. Depois Ennis volta atr\u00e1s, talvez por n\u00e3o desejar que a filha ficasse triste mais uma vez com sua neglig\u00eancia, talvez por achar que a penit\u00eancia fosse cara demais para algu\u00e9m que j\u00e1 havia sacrificado tanto at\u00e9 ent\u00e3o. Quando fica novamente s\u00f3, Ennis se abre para sua \u00fanica verdade na vida. Ang Lee p\u00e1ra a c\u00e2mera no rosto de Heath Ledger, que at\u00e9 ent\u00e3o havia desenvolvido com poucos gestos um personagem duro, incapaz de se expressar claramente, de ser objetivo em seus desejos; neste momento, Ledger mant\u00e9m a incapacidade e diz uma fala incompleta, mas diferente de tudo que hav\u00edamos acompanhado at\u00e9 ali, compreendemos sua condi\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o saibamos de seu destino. Fechar uma porta, manter aberta uma janela que d\u00e1 para uma estrada ainda a ser percorrida, a dor de saber que se est\u00e1 s\u00f3 e que isso foi op\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Na promessa final de Ennis diante de um passado manchado com um sangue j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais vivo, a dor maior de uma alma finalizada ainda em vida, a dor maior poss\u00edvel ao amor. Um dos finais mais tristes do cinema, num filme que da observa\u00e7\u00e3o externa absoluta encontrou um interior devastado.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img217.imageshack.us\/img217\/5084\/boton1iu2hv3.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Thiago Mac\u00eado Correia<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na d\u00e9cada de 50, quando ainda era vigente em Hollywood o esquema do star system, onde estrelas de cinema estavam vinculadas diretamente aos est\u00fadios e estes cuidavam do culto a elas como o mais importante dos neg\u00f3cios publicit\u00e1rios, era natural &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/09\/11\/heath-ledger-especial-james-dean\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[12,42,193,206,331,352,380,411,2526,572,1009,1061,1142,1313,1451,1491,1563,1552,1683,1702,1771,2246,2339],"class_list":["post-1288","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-10-coisas-que-eu-odeio-em-voce","tag-a-ultima-ceia","tag-ang-lee","tag-annie-proulx","tag-biografia","tag-bob-dylan","tag-brokeback-mountain","tag-candy","tag-cinema","tag-coringa","tag-heath-ledger","tag-im-not-there","tag-james-dean","tag-ledger","tag-mel-gibson","tag-michelle-williams","tag-nao-estou-la","tag-naomi-watts","tag-o-patriota","tag-o-segredo-de-brokeback-mountain","tag-os-irmaos-grimm","tag-terry-gilliam","tag-todd-haynes"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1288"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1288\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}