{"id":1281,"date":"2008-09-10T15:47:53","date_gmt":"2008-09-10T17:47:53","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=1281"},"modified":"2008-09-10T15:47:53","modified_gmt":"2008-09-10T17:47:53","slug":"decada-vigente-especial-james-dean","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/09\/10\/decada-vigente-especial-james-dean\/","title":{"rendered":"D\u00e9cada Vigente (Especial James Dean)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">A juventude e o cinema formam uma combina\u00e7\u00e3o que tradicionalmente deu certo. Um dos maiores respons\u00e1veis em iniciar essa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o principal homenageado deste especial, James Dean. O sucesso de seus filmes coincidiu com o surgimento do rock, at\u00e9 ent\u00e3o o principal e o primeiro g\u00eanero musical que realmente se identificou com a juventude. Tanto que \u00e9 comum dizerem que Elvis e Chuck Berry s\u00e3o os inventores da adolesc\u00eancia. O carisma e a imagem ic\u00f4nica de Dean, somada \u00e0 sua morte precoce, imortalizaram o conceito de juventude na cultura pop. Morreu em um acidente envolvendo uma de suas maiores paix\u00f5es &#8211; carros e velocidade, o que ressaltou ainda mais esse car\u00e1ter meio hedonista. E j\u00e1 dizia Pete Townshend, do Who, &#8220;quero morrer antes de ficar velho&#8221;. Dean morreu antes mesmo dos 25, e hoje ele est\u00e1 eternizado como jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Isso passa pela vis\u00e3o do engajamento e a utopia da d\u00e9cada de 60, pela ressaca e a podrid\u00e3o na d\u00e9cada de 70, pela crise encarada na d\u00e9cada de 80 com doses de bom humor e exagero, pela tentativa de juntar os cacos na d\u00e9cada de 90&#8230; Funciona praticamente como um ciclo de ascens\u00e3o e queda: James Dean inicia o processo e exp\u00f5e na d\u00e9cada de 50; \u00e9 sucedido pelos sonhos, dos hippies, dos protestos contra a guerra do Vietn\u00e3, a a\u00e7\u00e3o em maio de 68 em Paris; praticamente um anti-cl\u00edmax na d\u00e9cada de 70, o esc\u00e2ndalo de Watergate, e um sentimento meio de repulsa bem mostrado em &#8220;Taxi Driver&#8221;; encarar todas as crises econ\u00f4micas, pol\u00edticas, etc, no jeit\u00e3o dos anos 80 que j\u00e1 virou cl\u00e1ssico; e a d\u00e9cada de 90, marcada por um certo qu\u00ea iconoclasta (dois dos seus maiores s\u00edmbolos s\u00e3o Nirvana e &#8220;Pulp Fiction&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E chegamos nos \u00faltimos oito anos. Boa parte dos filmes mais recentes sobre juventude s\u00e3o geralmente categorizados como besteir\u00f3is, e geralmente retratam esse lado da festa sem fim da adolesc\u00eancia. Os exemplos s\u00e3o v\u00e1rios, &#8220;Cara, Cad\u00ea Meu Carro?&#8221;, &#8220;Eurotrip&#8221;, &#8220;American Pie&#8217;s&#8221; e &#8220;Scary Movies&#8221; (ou os in\u00fameros &#8220;Whatever Movie&#8221;) e suas continua\u00e7\u00f5es, slashers, etc. Geralmente o estilo mais comum \u00e9 o filme de col\u00e9gio ou faculdade, quase que um pretexto pra mostrar as festinhas, bebedeiras e outras putarias comuns nessa \u00e9poca. Alguma problem\u00e1tica, como um psicopata com um fac\u00e3o \u00e0 solta, ou uma mega festa, conhecer algu\u00e9m novo, acaba praticamente coadjuvando o epicentro da maioria dos filmes, que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o pessoal entre eles. Um bom exemplo \u00e9 &#8220;Todo Mundo Quase Morto&#8221;, descrito como uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica com zumbis. Os mortos vivos acabam servindo quase como terapeutas para os personagens (mesmo que o filme seja muito mais que isso). Ou &#8220;Primer&#8221;, em que as parafern\u00e1lias tecnol\u00f3gico-matem\u00e1ticas com as viagens no tempo acabam permeando uma rela\u00e7\u00e3o de amizade bizarra.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Freq\u00fcentemente \u00e9 perguntado o que marcar\u00e1 essa gera\u00e7\u00e3o. Eu imagino que a resposta s\u00f3 vai ficar mais clara quando estivermos em outra d\u00e9cada (e perguntando o que sobrar\u00e1 da nova gera\u00e7\u00e3o, e por a\u00ed vai&#8230;). Hoje se desce a lenha no funk, nos blockbusters, etc, etc, mas bom \u00e9 de se pensar: ser\u00e1 que o que hoje \u00e9 considerado um cl\u00e1ssico dos anos 60, 70, 80, j\u00e1 n\u00e3o era visto como decadente? Afinal, desde duzentos anos atr\u00e1s tem gente anunciando o fim da arte e da ci\u00eancia, ent\u00e3o parece uma mania cr\u00f4nica. Claro, \u00e9 assustador pensar que os indies ou os emos podem representar o rock dessa \u00e9poca, mas enfim&#8230; um &#8220;Brilho Eterno de uma Mente sem Lembran\u00e7as&#8221; ou &#8220;Hora de Voltar&#8221; tem um charme melanc\u00f3lico que at\u00e9 combina com o som de um Beck ou algo assim e pode ficar mais interessante, porque tem um qu\u00ea de mostrar personagens meio perdidos com tudo que vai acontecendo a sua volta. E combina bastante com o sentimento de cansa\u00e7o que se tem com o contexto em volta: a guerra da vez \u00e9 o Iraque, a novidade \u00e9 a populariza\u00e7\u00e3o da internet, o p\u00e2nico \u00e9 em torno do aquecimento global.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas venha o que venha, eles estar\u00e3o l\u00e1 &#8211; com o perd\u00e3o do chav\u00e3o &#8211; diferentes mas iguais. Podem estar mortos no marasmo, cansados e n\u00e3o querendo saber de nada, s\u00f3 de curtir a baladinha no fim de semana. Podem n\u00e3o saber picas de filosofia ou pol\u00edtica, ou o escambau, mas assim como os estudantes franceses dos anos 60, fazem dessa idade uma \u00e9poca pra se arriscar e jogar tudo pelos ares. \u00c9poca em que se perde o medo de arriscar, em que voc\u00ea se acha maior que o mundo, e vai testando do que se \u00e9 capaz. Por esse lado \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel que se conquiste tanto (a come\u00e7ar pelo exemplo cl\u00e1ssico, de que o fogo n\u00e3o teria sido descoberto por um adulto, por prud\u00eancia, ou por uma crian\u00e7a, por medo, e sim por quem est\u00e1 na idade em que \u00e9 capaz de beber dinamite). \u00c9 a coisa do esp\u00edrito sem limites, por mais despropositado ou alienado que seja, \u00e9 essencialmente o que o car\u00e1ter rompedor representa. Depende do lado que \u00e9 encaminhado, para onde esse fogo \u00e9 direcionado.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Cara, Cad\u00ea Meu Carro? (Danny Leiner, 2000)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img5.allocine.fr\/acmedia\/rsz\/434\/x\/x\/x\/medias\/nmedia\/00\/00\/00\/54\/69198037_ph3.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pois \u00e9, deve ser estranho inaugurar esse especial, com \u201cCara, Cad\u00ea Meu Carro?\u201d representando a d\u00e9cada atual, ao inv\u00e9s de algum Gus Van Sant ou \u201cAmelie Poulain\u201d, ou qualquer coisa do g\u00eanero. \u00c9, prato cheio pros saudosistas de plant\u00e3o. Embora talvez desse pra fazer de alguma coisa mais legal, um \u201cPrimer\u201d ou \u201cShaun of the Dead\u201d&#8230; Nah, v\u00e3o eles mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dizer que as piadas n\u00e3o precisam ser elaboradas pra ser boas pode at\u00e9 ter um pingo de verdade, mas esse lance do desligar o c\u00e9rebro e curtir \u00e9 uma apologia \u00e0 mediocridade. N\u00e3o \u00e9 propriamente isso, mas ver que a linha que separa esse filme de sei l\u00e1, uma obra-prima feito \u201cO Grande Lebowski\u201d, \u00e9 bem pequena. A semelhan\u00e7a n\u00e3o para no \u201cDude, where\u2019s your car\u201d, que os personagens dos dois filmes dizem. S\u00e3o dois filmes que n\u00e3o medem esfor\u00e7os nem limites para chegar no conceito que querem. O filme de Lebowski leva a conhecer um outro mundo, daqueles caras desajustados que jogam boliche, e que uma confus\u00e3o meio sem sentido com o nome de um bambambam acaba trazendo eles para outra aventura sem muito nexo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c0s vezes voc\u00ea trombar coisas toscas e absurdas, como um culto de pessoas vestidas com pl\u00e1stico bolha, ou ver as desventuras dos dois protagonistas no meio das namoradas ou de super hot giant sexy aliens pode ser engra\u00e7ado. No melhor estilo Jackass de ser, quanto mais sem no\u00e7\u00e3o, melhor. O c\u00famulo da falta de no\u00e7\u00e3o para o mundo de Chester e Jesse, dois jovens que n\u00e3o t\u00e3o nem a\u00ed pra o que dizem deles ou se o valent\u00e3o quer bater neles. Cada um tem a sua garota (uma g\u00eamea da outra), conseguem se virar e se divertem at\u00e9 assistindo Animal Planet na ressaca.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o desejam muito mais. N\u00e3o s\u00e3o l\u00e1 dois perdid\u00f5es, mas n\u00e3o t\u00eam muita ambi\u00e7\u00e3o de nada. S\u00e3o at\u00e9 normais, mesmo no jeito imbecil de ser. S\u00e3o simp\u00e1ticos o suficiente pra voc\u00ea n\u00e3o sentir pena deles, e est\u00fapidos o suficiente para se rir da cara deles.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os protagonistas Jesse e Chester s\u00e3o o lado supostamente mais de baixo, dois maconheiros sem muito o que aspirar al\u00e9m de querer curtir, e que realmente n\u00e3o passam por nenhuma dificuldade. A viagem deles vai longe, e o pr\u00f3prio filme acaba emulando isso, uma trama absurda que mistura suas mazelas de jovens, com uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica wtf, e um toque mais de mudernice tecnol\u00f3gica que vem junta; o que a\u00ed acabe se confundindo com a pr\u00f3pria trip dos dois. Talvez n\u00e3o mude muito para a velocidade sem limites de Dean ou as festinhas sem limites que passam por &#8220;Carrie&#8221;, &#8220;Halloween&#8221;, &#8220;Porky&#8217;s&#8221;, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Eis que o carro de Jesse some, e a epop\u00e9ica busca por ele, a hist\u00f3ria em si, acaba n\u00e3o importando muito. Assim como as antigas screwballs, o que importa \u00e9 o m\u00e1ximo que os atores, a equipe, o p\u00fablico, e o mundo consegue ag\u00fcentar entre tantas situa\u00e7\u00f5es absurdas, ris\u00edveis. O filme simplesmente n\u00e3o te d\u00e1 tr\u00e9gua. V\u00e3o de uma manh\u00e3 agitada assistindo os chimpanz\u00e9s na TV, para a casa de um maluco, com um cachorro e seu pipe insepar\u00e1vel, para o travec\u00e3o a quem eles devem uma grana, e a m\u00e1quina esquizofr\u00eanica do drive through do restaurante chin\u00eas&#8230; s\u00e3o surpreendentes oitenta e tr\u00eas minutos que v\u00e3o do c\u00e9u ao inferno. O m\u00e1ximo de prova\u00e7\u00f5es malucas em que Jesse e Chester est\u00e3o dispostos a se meter para livrarem-se desse fogo cruzado da guerra interplanet\u00e1ria e voltarem pra casa com o carro pra finalmente poderem curtir em paz o anivers\u00e1rio de suas g\u00eameas.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img217.imageshack.us\/img217\/5084\/boton1iu2hv3.jpg\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Pedro Kerr<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A juventude e o cinema formam uma combina\u00e7\u00e3o que tradicionalmente deu certo. Um dos maiores respons\u00e1veis em iniciar essa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o principal homenageado deste especial, James Dean. 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