{"id":116,"date":"2008-05-12T23:12:33","date_gmt":"2008-05-13T01:12:33","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=116"},"modified":"2008-05-12T23:12:33","modified_gmt":"2008-05-13T01:12:33","slug":"psicose-ii-richard-franklin-1983","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/psicose-ii-richard-franklin-1983\/","title":{"rendered":"Psicose II (Richard Franklin, 1983)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.thepsychomovies.com\/images\/mainpage\/copyrightimage1s.jpg\" alt=\"\" width=\"397\" height=\"288\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>OBSERVA\u00c7\u00c3O:<\/strong> O texto est\u00e1 cheio de spoilers. Veja o filme antes de l\u00ea-lo se n\u00e3o quiser estragar as reviravoltas. O texto recomenda a experi\u00eancia de ter visto o filme para que possa ser melhor apreciado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cEm 1960, a Hist\u00f3ria do Cinema estava sendo escrita&#8230; J\u00e1 se passaram 22 anos e Norman Bates voltou para casa.\u201d Com essa tagline, a Universal inseriu o p\u00fablico dentro que se tratava Psicose II, a seq\u00fc\u00eancia de um dos maiores cl\u00e1ssicos n\u00e3o s\u00f3 do cinema, mas tamb\u00e9m de um dos melhores filmes da filmografia de Alfred Hitchcock. N\u00e3o d\u00e1 pra negar que a continua\u00e7\u00e3o foi proposta com o \u00fanico intuito de pegar carona na onda \u201cslasher\u201d do terror que, em 1982, estava a todo vapor, produzindo filmes de terror em doses cavalares. Para se ter uma id\u00e9ia, a s\u00e9rie Sexta-Feira 13 tinha lan\u00e7ado seu terceiro epis\u00f3dio e j\u00e1 estava anunciando a produ\u00e7\u00e3o de seu quarto; Halloween, por sua vez, tamb\u00e9m lan\u00e7ava seu terceiro epis\u00f3dio; Tubar\u00e3o idem. \u201cPor que n\u00e3o trazer de volta Norman Bates?\u201d deve ter pensado um executivo do est\u00fadio onde Hitch terminou sua prol\u00edfica carreira&#8230; Neste contexto mercantilista, a continua\u00e7\u00e3o teve sua produ\u00e7\u00e3o iniciada, dirigida pelo desconhecido (e posteriormente amaldi\u00e7oado pela cr\u00edtica) Richard Franklin, mas alguma coisa fez com que o filme deixasse de ser apenas mais um filme de suspense\/terror para se tornar um complemento \u00fanico \u00e0 excel\u00eancia que Hitch mostrou de forma t\u00e3o saborosa no filme de 1960&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Psicose II \u00e9 um filme sobre alguns assuntos. Um deles \u00e9 sobre as m\u00e3es e seus filhos (plural). Norman Bates (Anthony Perkins), tido como incapaz de compreender a natureza de seus atos, \u00e9 condenado a cumprir sua pena em um sanat\u00f3rio. Duas d\u00e9cadas mais tarde, a Justi\u00e7a concluiu pela soltura do sujeito por achar que ele restaurou sua sanidade e est\u00e1 apto a ser ressocializado, para desespero de Lila Crane Loomis (Vera Miles, \u00fanica participante do filme anterior que retornou junto com Perkins), irm\u00e3 de Marion Crane, a famosa v\u00edtima que morreu no chuveiro no filme anterior, que acha que \u201cas pessoas nunca mudam\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo de volta o seu motel de beira de estrada, Norman tenta retomar sua vida aos poucos, trabalhando numa lanchonete, onde conhece Mary Samuels (Meg Tilly), uma mo\u00e7a com problemas com o namorado, a quem Norman convida gentilmente para passar o tempo que for necess\u00e1rio em seu motel. E \u00e9 a\u00ed que as coisas come\u00e7am a degringolar. Norman passa a receber telefonemas de algu\u00e9m que se diz sua m\u00e3e e come\u00e7a a receber bilhetes supostamente assinados por sua m\u00e3e exigindo que \u201ca vagabunda precisa sair da casa\u201d \u2013 se referindo a Mary. E a\u00ed come\u00e7a o processo de degenera\u00e7\u00e3o mental do seu protagonista, numa espiral de vertigem que lembra a viagem ao inferno do protagonista de outro cl\u00e1ssico do mestre Hitch: Um Corpo que Cai.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A entrada de Mary na vida de Norman \u00e9 o estopim que desencadeia seu processo de degenera\u00e7\u00e3o e retorno homeop\u00e1tico, por\u00e9m intenso, \u00e0 loucura e desorienta\u00e7\u00e3o. Mary \u00e9 filha de Lila, manipulada pela m\u00e3e obcecada a atender seu capricho: mandar Norman de volta ao sanat\u00f3rio. Neste ponto, a narrativa de Psicose II estabelece um paralelo ir\u00f4nico entre o protagonista e sua amiguinha: ambos s\u00e3o manipulados por suas mam\u00e3es e Psicose II versa sobre o conflito de ambos em se livrarem dessa influ\u00eancia maternal. S\u00f3 que as mam\u00e3es enlouquecem as suas crias que as obedecem o que nos d\u00e1 uma perspectiva sombria do princ\u00edpio b\u00edblico \u201chonra tua m\u00e3e e teu pai para que te prolonguem teus dias de vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A lenta degenera\u00e7\u00e3o de Norman, claro, trar\u00e1 como resultado mais mortes, a come\u00e7ar pela de seu gerente bebum (Denniz Franz, desagrad\u00e1vel \u2013 no bom sentido \u2013 que rouba a cena) que transformou seu motel num puteiro de beira de estrada. Entretanto, quando o expectador come\u00e7a a querer \u201ccomprar\u201d o filme, a narrativa surpreende e insere elementos que jogam quem assiste em diversas dire\u00e7\u00f5es. Em um momento, pode-se acreditar que Norman seja o assassino; em outro momento, cr\u00ea-se que Lila e Mary chegaram a um ponto onde o assassinato come\u00e7a ser o \u00faltimo recurso para surtar de vez o pobre Norman; em outro momento, tem-se a possibilidade de que uma TERCEIRA pessoa possa estar por tr\u00e1s dos assassinatos e at\u00e9 dos telefonemas e dos bilhetes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao oferecer diversas hip\u00f3teses para os v\u00e1rios acontecimentos, Psicose II \u201cconvida\u201d o expectador a fazer parte daquele amontoado de eventos que remetem \u00e0 loucura e a\u00ed come\u00e7a o processo de degenera\u00e7\u00e3o mental do EXPECTADOR!! Psicose II insere elementos, a princ\u00edpio, desconexos entre si, informa\u00e7\u00f5es desencontradas e meias-verdades para fazer com que o expectador partilhe da degenera\u00e7\u00e3o de Norman e surte junto com o protagonista chegando a um ponto onde o expectador pode come\u00e7ar a questionar o que \u00e9 real e o que \u00e9 fruto da insanidade de seus personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 essa espiral interativa que torna Psicose II um filme saboroso de ser assistido, dentro do contexto \u2018ca\u00e7a n\u00edquel\u2019 na qual ele fora concebido. Talvez tenha sido o carinho com o qual o roteirista Tom Holland (que, dois anos mais tarde dirigiria aquele que considero seu melhor filme, o fant\u00e1stico A Hora do Espanto) e o diretor Franklin tenham olhado para o original e o cuidado no qual devem ter concebido este segundo filme que, se n\u00e3o \u00e9 melhor que o original (desenvolverei mais disso adiante), continua com dignidade todo aquele universo estabelecido por Hitchcock e, mesmo assim, se utiliza da linguagem t\u00edpica dos filmes de terror do per\u00edodo, ao mesmo tempo em que renegou seus excessos gerando um filme que \u00e9 quase a cara do terror\/suspense dos anos 80, mas tamb\u00e9m \u00e9 diferente de tudo que foi produzido no g\u00eanero nesse mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sem querer ser superior ao original, Psicose II desenvolve-se de maneira narrativamente surpreendente para uma seq\u00fc\u00eancia de um filme cl\u00e1ssico \u2018de terror\u2019 onde as suas personagens ditam o rumo e ritmo dos acontecimentos e n\u00e3o o inverso. \u00c9 um desses filmes onde quem assiste faz aquela pergunta t\u00e3o preciosa e rara em muitos filmes hoje \u201ccomo isso vai acabar?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Entretanto, por ser cria de uma \u00e9poca em que filmes de suspense\/terror eram feitos de maneira \u2018fast food\u2019, Psicose II possui seus problemas narrativos que, infelizmente, o afastam de atingir a luz do filme original. Esses problemas concentram-se basicamente no ep\u00edlogo, onde se soluciona uns 60% dos mist\u00e9rios relativos \u00e0 trama. Embora termine-se o filme sabendo quem \u00e9 o respons\u00e1vel pela maioria das mortes, ainda se fica com a d\u00favida com rela\u00e7\u00e3o ao restante das mortes n\u00e3o cobertas pela revela\u00e7\u00e3o do assassino, o que \u00e9 sempre bom. Por\u00e9m, a revela\u00e7\u00e3o em si soa mais ou menos como a rela\u00e7\u00e3o de amor entre Anakin e Padm\u00e9 em Star Wars \u2013 Epis\u00f3dio II: acontece por exig\u00eancia do roteiro e n\u00e3o por um desenvolvimento natural dos fatos e acontecimentos que levam ao desmascarar do assassino. \u00c9 como se o respons\u00e1vel por tudo chegasse no final do filme e dissesse \u2018Hey, sou eu, eu fiz tudo!!\u2019 Problema id\u00eantico acometeu o primeiro Sexta-Feira 13 onde o assassino chega e praticamente diz \u201c\u00e9, eu matei todo mundo mesmo!\u201d A pr\u00f3pria id\u00e9ia de que Norman Bates possa ter tido uma \u201coutra m\u00e3e\u201d \u00e9 tamb\u00e9m ris\u00edvel e dispens\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00e9m, mesmo ap\u00f3s a solu\u00e7\u00e3o referente a maior parte dos assassinatos, a narrativa volta a flertar com o macabro presente no filme original, brindando a seq\u00fc\u00eancia com uma cena que remete imediatamente ao filme original, fazendo homenagem e introduzindo o expectador de volta ao \u201cstatus quo operandi\u201d de Norman Bates. Psicose II termina onde o original come\u00e7a. A sensa\u00e7\u00e3o de \u201cperda de tempo\u201d pode surgir na cabe\u00e7a de alguns viewers desatentos, mas acredito que a cinefilia ganhou e muito com o filme, j\u00e1 que o final evita o caminho f\u00e1cil t\u00e3o t\u00edpico dos filmes do g\u00eanero, termina de forma angustiante e coloca o expectador diante de uma reden\u00e7\u00e3o \u00e0s avessas, macabra. Para Norman Bates, a sua no\u00e7\u00e3o de normalidade \u00e9 diferente da no\u00e7\u00e3o comum do mesmo termo para as outras pessoas. O personagem s\u00f3 encontra paz de esp\u00edrito na companhia da sua m\u00e3e, mesmo que o pre\u00e7o a ser pago seja a sua sanidade e, eventualmente, das pessoas \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tecnicamente, o filme tenta se afastar de seus \u201cprimos\u201d do g\u00eanero da mesma \u00e9poca. Franklin, exibindo um faro apurado que, at\u00e9 onde eu saiba, n\u00e3o se repetiu em seus filmes posteriores (o cara nunca emplacou no of\u00edcio), pinta Psicose II de forma impressionante, mais uma vez, dentro do contexto em que fora concebido. Iniciando seu filme com a cena cl\u00e1ssica do chuveiro do filme original \u2013 op\u00e7\u00e3o que n\u00e3o me agrada de jeito nenhum por raz\u00f5es \u00f3bvias, o diretor surpreende quando mostra pq escolheu a cena em quest\u00e3o para abrir seu filme. Ao soar os acordes da impressionante e insana trilha de Jerry Goldsmith, Franklin nos leva do mundo P&amp;B do filme original, para o Technicolor dos anos 80, de forma gradual, na fotografia de Dean Cundey (colaborador de outrora de Spielberg e John Carpenter), com a casa de Norman ao fundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E n\u00e3o p\u00e1ra por a\u00ed. O diretor sempre que pode insere planos parecidos com os do filme original, prestando homenagem e fazendo refer\u00eancia. O recado \u00e9 claro: Psicose II n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma seq\u00fc\u00eancia do filme de Hitchcock. \u00c9 uma HOMENAGEM ao filme cl\u00e1ssico, como mostram os cr\u00e9ditos finais, ao mesmo tempo em que existe independente deste, t\u00e9cnica e narrativamente falando. Amostras disso h\u00e1 aos montes como a id\u00e9ia de centrar na casa de Norman Bates 60% dos acontecimentos do filme, fazendo da casa um personagem de trama, com seus corredores, sua escadaria t\u00e3o bem utilizada no original (e aqui replicada de forma fidel\u00edssima) e mostrando outros detalhes como o banheiro da casa (outra refer\u00eancia ao original), a cozinha, a sa\u00edda dos fundos, o s\u00f3t\u00e3o e mais detalhes do por\u00e3o. Ali\u00e1s, o por\u00e3o rende uma das seq\u00fc\u00eancias mais impressionantes tecnicamente falando (e que, de certa forma, \u00e9 tamb\u00e9m uma refer\u00eancia ao original): a morte de um rapaz visto pelo lado de fora da janela do por\u00e3o, janela essa que tamb\u00e9m reflete de forma sobreposta, o rosto at\u00f4nito de sua namorada que a tudo assiste.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A trilha sonora, por sua vez, poderia ter trilhado o caminho f\u00e1cil que seria repetir o tom da trilha de Bernard Hermmann. Mas Goldsmith adiciona melancolia e uma dose pesada de insanidade e descontrole em sua trilha para ressaltar musicalmente a degenera\u00e7\u00e3o mental dos personagens (e, eventualmente a do expectador tamb\u00e9m). Hermann deve ter ficado orgulhoso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por fim, Franklin faz um trabalho que, se obviamente n\u00e3o se compara \u00e0 sutileza e esmero de Hitchcock, tampouco joga seu filme na vala das seq\u00fc\u00eancias t\u00edpicas do per\u00edodo em que foi feito. H\u00e1 ali o n\u00edtido interesse em criar um suspense genu\u00edno, proveniente do pr\u00f3prio conceito criado por Hitchcock (a dilata\u00e7\u00e3o do tempo, de tudo aquilo que faz o cora\u00e7\u00e3o palpitar mais forte), atrav\u00e9s de planos curiosos como o do POV do s\u00f3t\u00e3o da casa enquanto se v\u00ea, l\u00e1 embaixo, uma pessoa correndo em dire\u00e7\u00e3o ao mato.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Psicose II \u00e9, em s\u00edntese, um achado singular. Gerado como uma seq\u00fc\u00eancia totalmente desnecess\u00e1ria (qual a raz\u00e3o criativa de tirar Norman Bates do sanat\u00f3rio e coloca-lo no motel onde se sabe que \u2013 ooooh \u2013 mais pessoas morrer\u00e3o de novo?), o filme \u00e9 a comprova\u00e7\u00e3o de que a FORMA com que \u00e9 feito, dirigido e montado, faz toda a diferen\u00e7a no produto final em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua premissa. Hitch deve ter aplaudido de p\u00e9, mesmo com ressalvas, l\u00e1 do c\u00e9u dos g\u00eanios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>PRESTE ATEN\u00c7\u00c3O:<\/strong> Na atua\u00e7\u00e3o milimetricamente calculada de Anthony Perkins. O cara consegue agregar camadas ao seu personagem que qualquer um julgaria imposs\u00edvel, ap\u00f3s a conclus\u00e3o do filme anterior. Sentimentos conflitantes em rela\u00e7\u00e3o ao personagem n\u00e3o ser\u00e3o incomuns. Aproveite e se delicie.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>POR QU\u00ca N\u00c3O PERDER:<\/strong> Porque \u00e9 uma seq\u00fc\u00eancia diferente do que se est\u00e1 acostumado a ver. Psicose II continua, na melhor acep\u00e7\u00e3o do termo, o filme anterior, acrescentando coisas ao que j\u00e1 havia sido estabelecido no filme anterior deixando aquele universo mais rico, sem repetir as coisas. E o pr\u00f3prio trailer do filme j\u00e1 deixa qualquer um com \u00e1gua na boca:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">3\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Costa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OBSERVA\u00c7\u00c3O: O texto est\u00e1 cheio de spoilers. Veja o filme antes de l\u00ea-lo se n\u00e3o quiser estragar as reviravoltas. 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