{"id":115,"date":"2008-05-12T22:44:32","date_gmt":"2008-05-13T00:44:32","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=115"},"modified":"2008-05-12T22:44:32","modified_gmt":"2008-05-13T00:44:32","slug":"preludio-para-matar-dario-argento-1975","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/preludio-para-matar-dario-argento-1975\/","title":{"rendered":"Prel\u00fadio Para Matar (Profondo Rosso &#8211; Dario Argento, 1975)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px;\" src=\"http:\/\/img156.imageshack.us\/img156\/6286\/profondo3cl2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o existe experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica mais intensa que Profondo Rosso. Argento agarra e rasga os nervos do espectador num processo de estupro e orgasmo do mais puro cinema j\u00e1 concebido. Nem Janela Indiscreta, nem Veludo Azul, Peeping Tom ou Blow-up. Nada \u00e9 mais cinema que Profondo Rosso. Pegando emprestado tanto David Hemmings como o esp\u00edrito obsessivo do seu personagem no filme do Antonioni (e no de Hitchcock, e no de Lynch), e torturando seu espectador de forma ainda mais terr\u00edvel que Michael Powell ao transform\u00e1-lo no assassino do seu filme (atrav\u00e9s de uma lente subjetiva filtrada no mais bruto voyeurismo), Dario Argento consegue afinar o cinema no tom definitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enlouqueci assistindo. O Noonan e o Scofa me encontraram logo depois e sabem do meu estado. Fui abusado cinematograficamente. Nunca estive t\u00e3o dentro de um filme. E falo literalmente quando digo que Argento faz do espectador o assassino de Prel\u00fadio (que sempre sabe de tudo, sempre est\u00e1 um passo \u00e0 frente, como Marcus comenta em determinado momento). A linguagem visual poucas vezes (ou nenhuma, sabe-se l\u00e1) foi usada com tanta flu\u00eancia e tanta beleza. A primeira vez que chegamos ao audit\u00f3rio, por exemplo (e chegamos caminhando, que fique claro) e nos deparamos com o hipnotismo do vermelho incandescente nas cortinas e nas poltronas, revisitado mais tarde (descarnados do assassino) sob a predomin\u00e2ncia dos tons de cinza. Ou depois, na casa da escritora, quando um personagem deixa uma velha senhora sozinha no lugar. A enxergamos do outro lado do corredor como se contempl\u00e1ssemos um peda\u00e7o de carne. Uma madeira do piso estala, damos um passo atr\u00e1s, ela vem em nossa dire\u00e7\u00e3o, e nos escondemos sob uma parede em outro c\u00f4modo e a cena corta para nada em torno dela ser retomado mais tarde. Sim, o Argento \u00e9 um filho da puta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E tem muito disso, de sermos relegados quanto a coisas que n\u00e3o tinham, de qualquer modo, import\u00e2ncia para o que se busca em Profondo Rosso. E v\u00e1rias vezes essa condi\u00e7\u00e3o de a l\u00f3gica n\u00e3o ter espa\u00e7o algum no filme \u00e9 criada ao inv\u00e9s de meramente acontecer, revestindo-o de uma express\u00e3o surreal de pesadelo. H\u00e1 quem possa reclamar de solu\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es non-sense no roteiro, como a adi\u00e7\u00e3o de um livro como caminho para a investiga\u00e7\u00e3o na mans\u00e3o e pretexto de outro assassinato. E \u00e9 genial, n\u00e3o h\u00e1 limites neste ajuste onde se joga um elemento no lixo apenas para amplificar outro. Foda-se a coer\u00eancia, foda-se a l\u00f3gica. Argento usar\u00e1 o que for preciso, sem qualquer compromisso nem rota regrada de margens para produzir efeitos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Da\u00ed que para pervertidos incur\u00e1veis por atmosferas, Profondo Rosso \u00e9 novamente o filme definitivo. E a trilha do Goblin \u00e9 das coisas mais absurdas j\u00e1 compostas e j\u00e1 utilizadas, o que torna sua simbiose com as imagens algo como uma rela\u00e7\u00e3o sexual. Daqueles casos em que houve uma compreens\u00e3o absoluta, uma harmonia encantada entre compositores e cineasta. H\u00e1 momentos, inclusive, em que a m\u00fasica tem picos de um agudo agressivo aos ouvidos, transformando a trilha numa lamina que fere o espectador. E outras nuances fant\u00e1sticas, como, quando percorrendo a amplitude da mans\u00e3o (uma seq\u00fc\u00eancia com poss\u00edveis s\u00e9rios agravantes psicol\u00f3gicos), m\u00fasica alt\u00edssima, Marcus pisa num caco de vidro. Tudo silencia. Lembrando de Lynch em Imp\u00e9rio dos Sonhos, na cena em que o som e as dan\u00e7arinas desaparecem, o efeito \u00e9 provocado atrav\u00e9s da aus\u00eancia de efeitos, comprovando a imers\u00e3o total do espectador a ponto de tornar uma atmosfera completamente tensa e vazada sensorialmente na atmosfera \u201cnormal\u201d, por alguns minutos, transformando a silenciosa e antes c\u00f4moda, exatamente, na inc\u00f4moda. Depois de uns instantes de sil\u00eancio, a trilha volta, provocando um novo impacto. O resultado \u00e9 inexplic\u00e1vel (n\u00e3o, apesar de eu ter descrito aqui, n\u00e3o h\u00e1 como ter id\u00e9ia do que acontece).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O prel\u00fadio de cada assassinato pode ser recortado em pequenas-gigantes obras-primas da constru\u00e7\u00e3o de clima, fazendo da escada para a tens\u00e3o o pr\u00f3prio pico da tens\u00e3o. A primeira iniciativa contra Marcus \u00e9 som e imagem pra se derreter e injetar na veia. O gesso sobre o piano, a c\u00e2mera que de repente invade a saleta de m\u00fasica transpassando as cortinas, o passeio do espectador-assassino pelos c\u00f4modos \u00e0 espreita de Marcus, a sustenta\u00e7\u00e3o da trilha no piano com uma m\u00e3o, como elemento de cena&#8230; E tudo, o tempo todo, \u00e9 compulsivamente pensado e desenhado. Em cada plano e cada movimento, seja na simetria ou na assimetria misteriosamente perfeita dos fundamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cena final \u00e9 uma coisa que n\u00e3o tem teoria, tratado nem religi\u00e3o que explique. E o reflexo na po\u00e7a revela n\u00e3o apenas o assassino refletido no seu oposto, como no espectador. Este mesmo espectador que teve ao longo filme sua sede de sangue saciada a gordos jarros de sadismo, que foi encarnado, que vestiu nas m\u00e3os as luvas negras do psicopata, dando vaz\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria psicopatia no conforto de uma fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Absurdo. Inexplic\u00e1vel. Obra que justificaria inteira um s\u00e9culo de cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<br \/>\n\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o existe experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica mais intensa que Profondo Rosso. Argento agarra e rasga os nervos do espectador num processo de estupro e orgasmo do mais puro cinema j\u00e1 concebido. Nem Janela Indiscreta, nem Veludo Azul, Peeping Tom ou Blow-up. 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