{"id":106,"date":"2008-05-12T21:49:16","date_gmt":"2008-05-12T23:49:16","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=106"},"modified":"2008-05-12T21:49:16","modified_gmt":"2008-05-12T23:49:16","slug":"o-eclipse-michelangelo-antonioni-1962","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/o-eclipse-michelangelo-antonioni-1962\/","title":{"rendered":"O Eclipse (Michelangelo Antonioni, 1962)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/thisdistractedglobe.com\/wp-content\/uploads\/2007\/08\/LEclisse%20pic%201.jpg\" alt=\"\" width=\"479\" height=\"263\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cGostaria de n\u00e3o am\u00e1-lo ou am\u00e1-lo muito mais\u201d, afirma a personagem de M\u00f4nica Vitti desta emblem\u00e1tica apoteose de sensa\u00e7\u00f5es catalisada por Michelangelo Antonioni, um dos maiores mestres do cinema. A senten\u00e7a, proferida em um dos momentos-chave desta singular obra-prima que encerra a Trilogia da Incomunicabilidade, resume em pr\u00e1tica todo o esp\u00edrito e a estrutura da jornada espiritualmente opaca de dois personagens t\u00edpicos de Antonioni, que repetem, desta vez juntos, mais uma vers\u00e3o desconcertante do habitual sacrif\u00edcio sintom\u00e1tico do \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em O Eclipse, Antonioni novamente interrelaciona os principais elementos b\u00e1sicos do cinema, a tem\u00e1tica e a decupagem, para dar continuidade ao seu infinito discurso sobre o t\u00e9dio do homem contempor\u00e2neo, sufocado pela rotina e pelas enormes constru\u00e7\u00f5es de concreto, que canalizam seus espa\u00e7os de fuga para o pr\u00f3prio interior \u2013 desta feita, um peda\u00e7o morto de poesia que n\u00e3o mais encontra maneiras de sobreviver. A vis\u00e3o, agora, \u00e9 atirada sobre o amor, ou melhor, os relacionamentos amorosos, nada al\u00e9m de um processo de repeti\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e irredut\u00edvel, diante da interfer\u00eancia direta do mundo modernizado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um amor exausto, irrenov\u00e1vel, que n\u00e3o permite espa\u00e7o ao que ainda n\u00e3o fora contagiado pela mesmice e pela imensur\u00e1vel dist\u00e2ncia de esp\u00edrito entre o homem e o mundo \u2013 ou quem o habita. Pois o filme, que come\u00e7a com o afastamento pleno (mesmo que a plenitude n\u00e3o seja f\u00edsica, palp\u00e1vel) entre ambas as partes de um casal, permitindo a certeza de que jamais fornecer\u00e1 o reencontro, conclui-se da mesma forma, ainda que sem brigas ou nem mesmo crises, deixando no ar um tom de despedida indesejada que transpira por cada frame, cada enquadramento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Todo o t\u00e9dio, a longa espera por algo que parece jamais chegar, \u00e9 transposto para a estrutura narrativa, prolongando a cada momento a sensa\u00e7\u00e3o de que a obra ter\u00e1 um fim. Porque o fim, na realidade, n\u00e3o deixa de ser o pr\u00f3prio come\u00e7o. O mundo j\u00e1 est\u00e1 morto. Os meios n\u00e3o mais justificam nada. O desconforto encobre tudo. Amor. Desejo. Felicidade. Os sentimentos foram enterrados. A vida avan\u00e7a, se renova, mas permanece a mesma. A sensa\u00e7\u00e3o de cansa\u00e7o parece n\u00e3o sumir jamais. E nada mais coerente do que concluir o inconclus\u00edvel com o sil\u00eancio; o vazio ;o desconforto; a incerteza; o desolamento; a frieza. Ou, quem sabe, simplesmente, a inconclus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque n\u00e3o seria exagero algum afirmar que o final de O Eclipse, no qual Antonioni elimina os personagens de cena para fotografar pequenos cantos vazios da cidade, vagando sem rumo com sua c\u00e2mera densa, inquieta, atrav\u00e9s de esgotos, sarjetas e constru\u00e7\u00f5es incompletas, e terminando o desfecho com a imagem do sol se apagando para dar espa\u00e7o \u00e0s luzes da cidade, \u00e9 o melhor, mais simb\u00f3lico, representativo e impressionante de todo o cinema. Porque o eclipse, per\u00edodo durante o qual o mundo p\u00e1ra, estagna, foi transportado da natureza para a sociedade contempor\u00e2nea, atrav\u00e9s da automatiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas. E o alvo do encobrimento, desta forma, s\u00e3o os pr\u00f3prios sentimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cGostaria de n\u00e3o am\u00e1-lo ou am\u00e1-lo muito mais\u201d, afirma a personagem de M\u00f4nica Vitti desta emblem\u00e1tica apoteose de sensa\u00e7\u00f5es catalisada por Michelangelo Antonioni, um dos maiores mestres do cinema. 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