{"id":103,"date":"2008-05-12T21:33:15","date_gmt":"2008-05-12T23:33:15","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=103"},"modified":"2008-05-12T21:33:15","modified_gmt":"2008-05-12T23:33:15","slug":"ensaio-de-um-crime-luis-bunuel-1955","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/ensaio-de-um-crime-luis-bunuel-1955\/","title":{"rendered":"Ensaio de um Crime (Luis Bu\u00f1uel, 1955)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cinema16.mty.itesm.mx\/folder_bunuel\/film%20frames%20bunuel\/ensayo_crimen_01.gif\" alt=\"\" width=\"311\" height=\"240\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">S\u00f3 os primeiros seis minutos desta obra-prima do humor negro j\u00e1 deixariam qualquer filminho que tenta-brincar-com-a-morte-como-se-estivesse-projetando-imagens-de-pegapega-em-um-parquinho-infantil no chinelo: ainda enquanto crian\u00e7a, o bizarro protagonista de Ensaio de um Crime se mostra vislumbrado pela caixinha de m\u00fasica de sua m\u00e3e. Com pressa para sair com o marido, sua genitora pede para a empregada que invente uma hist\u00f3ria qualquer sobre a caixinha, a fim de entret\u00ea-lo. A imagina\u00e7\u00e3o da mulher, em pleno auge da revolu\u00e7\u00e3o mexicana, muda o rumo de toda a vida do moleque.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo ela, a caixinha teria sido projetada por um rei, de qualquer long\u00ednquo reino de um tempo do qual n\u00e3o se tem mais registros. O objetivo do monarca, ao requerir tal objeto para um g\u00eanio (no sentido de g\u00eanio-da-l\u00e2mpada mesmo), era aniquilar todas as pessoas que lhe importunassem. A cada vez que a m\u00fasica soasse do brinquedo, algu\u00e9m morria. Um homem com controle total sobre seu mundo. Enquanto conta toda esta hist\u00f3ria, a mo\u00e7a se dirige at\u00e9 a janela para ver o tiroteio que acontecia logo ali, na rua, no mesmo momento em que o garotinho faz um pedido: se a caixinha realmente tem este poder, que algu\u00e9m morra neste exato momento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 o que acontece. Atravessando a vidra\u00e7a, a bala de um rev\u00f3lver se assenta bem em meio \u00e0 nuca da empregada, que vai ao ch\u00e3o sem qualquer resist\u00eancia. Uma crian\u00e7a, diante de tal situa\u00e7\u00e3o, normalmente restaria em estado de choque, ou at\u00e9 mesmo se sentiria culpada por ter influenciado, mesmo que indiretamente, na morte da mo\u00e7a. Archibaldo de la Cruz n\u00e3o. Ele, sorri. O momento de total controle sobre seu pequeno mundo lhe gerara fartas doses de gozo indisciplinado. \u00c9 um pr\u00f3logo de perturba\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea arquitetado por Bu\u00f1uel, ao mesmo tempo em que serve pra apresentar o tom desta que \u00e9 uma das mais mordazes brincadeiras sexuais de toda a sua carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque mais do que um filme sobre a morte, Ensaio de um Crime \u00e9 um filme sobre o sexo. Talvez n\u00e3o o ato em si, mas tudo aquilo que representa, tanto no aspecto f\u00edsico quanto no controle impositivo do macho sobre a f\u00eamea \u2013 ou vice-e-versa. E \u00e9 desta forma que Archibaldo leva sua vida daqui por diante, realizando uma grande miscel\u00e2nea entre o sexo e a morte, a busca do prazer atrav\u00e9s do assassinato, ou melhor, a busca do assassinato atrav\u00e9s do prazer \u2013 j\u00e1 que todas as suas v\u00edtimas subseq\u00fcentes foram escolhidas seguindo apenas um crit\u00e9rio: o tes\u00e3o. Archibaldo n\u00e3o mata, simplesmente, porque matar, para ele, \u00e9 atingir o orgasmo. Assassinato \u00e9 sexo. Sexo \u00e9 morte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas nada \u00e9 t\u00e3o simples, j\u00e1 que, para Bu\u00f1uel, n\u00e3o basta atingir o m\u00e1ximo do absurdo. \u00c9 preciso ultrapass\u00e1-lo. E o maior escultor de obras-primas de todo o cinema, atrav\u00e9s de uma jogada de mestre, propulciona a comicidade m\u00f3rbida da obra a n\u00edveis de puro del\u00edrio cinematogr\u00e1fico, j\u00e1 que a envoltura de impot\u00eancia e mediocridade recebida pelo protagonista, que jamais consegue efetivamente assassinar qualquer uma de suas v\u00edtimas \u2013 as mo\u00e7as sempre morrem em algum tipo de acidente antes de ele finalmente praticar o crime-, resulta em uma de suas seq\u00fc\u00eancias mais geniais e memor\u00e1veis: a simula\u00e7\u00e3o da masturba\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma das met\u00e1foras mais significativas de todo o cinema, um manequim queimando em um forno gigante.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Archibaldo consegue atingir o orgasmo \u2013 mesmo que o sexo tenha sido simulado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f3 os primeiros seis minutos desta obra-prima do humor negro j\u00e1 deixariam qualquer filminho que tenta-brincar-com-a-morte-como-se-estivesse-projetando-imagens-de-pegapega-em-um-parquinho-infantil no chinelo: ainda enquanto crian\u00e7a, o bizarro protagonista de Ensaio de um Crime se mostra vislumbrado pela caixinha de m\u00fasica de sua m\u00e3e. Com &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/ensaio-de-um-crime-luis-bunuel-1955\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[254,772,1369,1725],"class_list":["post-103","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comentarios","tag-assassinato","tag-ensaio-de-um-crime","tag-luis-bunuel","tag-obsessao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/103","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=103"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/103\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=103"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=103"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=103"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}