{"id":100,"date":"2008-05-12T20:59:42","date_gmt":"2008-05-12T22:59:42","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=100"},"modified":"2008-05-12T20:59:42","modified_gmt":"2008-05-12T22:59:42","slug":"calafrios-david-cronenberg-1975","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/calafrios-david-cronenberg-1975\/","title":{"rendered":"Calafrios (David Cronenberg, 1975)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"vertical-align:top;\" src=\"http:\/\/www.b-movies.gr\/UserFiles\/Image\/shivers\/sh%2010.jpg\" alt=\"\" width=\"473\" height=\"274\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">The Parasite Murders; Frissons; They Came From Within; Orgy of the Blood Parasites; The Parasite Complex.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Estes foram alguns dos t\u00edtulos atribu\u00eddos mundo afora ao primeiro filme de David Cronenberg, que por aqui ficou conhecido mesmo como <em>Calafrios<\/em>. Mas a bizarrice ineg\u00e1vel dos nomes n\u00e3o passa nem pr\u00f3ximo ao n\u00edvel incalcul\u00e1vel da escatologia que permeia cada quadro dessa curiosa com\u00e9dia de horror fant\u00e1stico sexual com toques de fic\u00e7\u00e3o-cient\u00edfica nonsense, com a qual o g\u00eanio mais incompreendido do cinema moderno deu in\u00edcio \u00e0 sua espetacular filmografia \u2013 composta por alguns dos filmes mais brilhantes das \u00faltimas d\u00e9cadas, como <em>Videodrome<\/em>, <em>G\u00eameos<\/em>, <em>Crash<\/em>, <em>Spider e Marcas da Viol\u00eancia<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O palco de <em>Calafrios<\/em> \u00e9 um condom\u00ednio de luxo e isolado da sociedade, localizado em uma ilha, onde um cientista, \u00e0 beira da loucura, testa um novo parasita que desenvolveu para dar mais \u201cgarra\u201d a uma sociedade exageradamente pensante. \u201cUma combina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a afrodis\u00edaca e ven\u00e9rea que transformar\u00e1 o mundo numa orgia linda e desenfreada, pois o homem \u00e9 um animal que pensa demais e que perdeu o contato com seu corpo e instintos\u201d, segundo o pr\u00f3prio indiv\u00edduo, que acaba perdendo o controle da experi\u00eancia ao test\u00e1-la em sua parceira \u2013 uma vagabunda que transa com todos no pr\u00e9dio e acaba disseminando o parasita.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O circo est\u00e1 armado, e Cronenberg faz do espet\u00e1culo um mero ve\u00edculo para desfilar os elementos mais marcantes da primeira fase de sua filmografia, ou seja, muito sangue, peitos nus, viol\u00eancia escancarada e humor voluntariamente involunt\u00e1rio por mais de uma hora e meia. Mentira, n\u00e9. Porque o canadense pode ser qualquer coisa, menos um bobo. E \u00e9 por isso que, mesmo completamente deslocado da impec\u00e1vel continuidade do discurso psicanalista que Cronenberg fundamentaria nos anos seguintes, Shivers \u00e9 um belo pontap\u00e9 inicial \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o desse universo particular e multifacet\u00e1rio que viria a ser explorado tardiamente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O alvo principal, ali\u00e1s, \u00e9 um dos temas preferidos do diretor, herdado de outros malucos do cinema surrealista da vanguarda, como Luis Bu\u00f1uel: o sexo; o prazer carnal; o instinto animalesco que umedece a carne humana e exp\u00f5e as fragilidades todas em uma mesma vitrine, suscetibilizando al\u00e9m da conta um grupo de pessoas isoladas do mundo e que precisam lutar pela sobreviv\u00eancia \u2013 coisa vista anteriormente em <em>O Anjo Exterminador<\/em>, de Bu\u00f1uel, por exemplo, um dos grandes filmes do universo. E \u00e9 engra\u00e7ado como, mesmo falhando miseravelmente no alcance do tom de mist\u00e9rio e de tens\u00e3o pretendido, Cronenberg consegue realizar um grande filme se salvando pelo humor, ora premeditado, ora n\u00e3o, coisa pouco usual nele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E, mesmo que a referida atmosfera fique longe da ideal, talvez especialmente pela falta de densidade \u2013 que n\u00e3o deixa de ser proposital, mas acaba conflitando esta outra id\u00e9ia -, <em>Calafrios<\/em> \u00e9 impec\u00e1vel do ponto de vista narrativo. O primeiro ato, um mosaico descosturado que apresenta aos poucos os personagens e o cen\u00e1rio da empreitada, deixa oculto o protagonismo da obra, transformando a curiosidade acerca do mist\u00e9rio no grande fio condutor \u2013 algo que \u00e9 quebrado com a escolha de um \u2018her\u00f3i\u2019 para a segunda metade, que se desfaz do mosaico pra centralizar as a\u00e7\u00f5es na luta pela sobreviv\u00eancia de um s\u00f3 homem dentro daquela situa\u00e7\u00e3o canibalesca.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ali\u00e1s, situa\u00e7\u00e3o que lembra muito, tanto em espa\u00e7o quanto na decorr\u00eancia da a\u00e7\u00e3o, um dos mais populares e memor\u00e1veis jogos de videogame, Resident Evil \u2013 Shivers termina quase como um falso prel\u00fadio para o jogo, mesmo que, no argumento, n\u00e3o tenha muita conex\u00e3o. Isto sem contar a influ\u00eancia escancarada que certa seq\u00fc\u00eancia teve sobre um filmezinho famos\u00edssimo que seria feito quatro anos depois por um tal de Ridley Scott, sobre um certo bichinho malvado que aterroriza os tripulantes de uma espa\u00e7onave. Mas o mais brilhante, acima de tudo, \u00e9 o desfecho fora de s\u00e9rie dessa noite maldita, que rende uma das seq\u00fc\u00eancias mais fant\u00e1sticas da filmografia do diretor: o ataque ensandecido ao protagonista na piscina do pr\u00e9dio. A sacada final, ent\u00e3o, \u00e9 qualquer coisa de genial. Coisa de Cronenberg mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">3\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>The Parasite Murders; Frissons; They Came From Within; Orgy of the Blood Parasites; The Parasite Complex. 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