{"id":770,"date":"2008-07-23T01:13:41","date_gmt":"2008-07-23T03:13:41","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?page_id=770"},"modified":"2008-07-23T01:13:41","modified_gmt":"2008-07-23T03:13:41","slug":"6%c2%ba-jefferson-domingos","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/6%c2%ba-jefferson-domingos\/","title":{"rendered":"6\u00ba &#8211; Jefferson Domingos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Avalia\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Luis Henrique Boaventura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nutro certa avers\u00e3o a artigos acad\u00eamicos por considerar que sempre h\u00e1 formas muito mais sens\u00edveis e eficientes de se falar certas coisas sem precisar apelar a um m\u00f3dulo, um manual. Imagina\u00e7\u00e3o t\u00e1 a\u00ed pra isso, e por mais que se encorpe o texto com nomes de te\u00f3ricos e linhas de pensamento, a estrela do seu texto deve ser voc\u00ea mesmo. O que VOC\u00ca achou, o que VOC\u00ca sentiu, qual a SUA opini\u00e3o. Resto \u00e9 complemento, usado para enriquecer e no m\u00e1ximo adornar o texto, nunca como sust\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 preciso concordar com o meu modo de encarar as coisas, mas texto opinativo de cinema pra mim \u00e9 isso: a obra atrav\u00e9s dos seus olhos. N\u00e3o sou radicalmente contra nada, s\u00f3 preciso desesperadamente da sensa\u00e7\u00e3o de haver um ser humano por tr\u00e1s daquelas linhas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong><span style=\"color:#ff0000;\">0\/10<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Daniel Dalpizzolo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma corda de complexidade que enrola o pr\u00f3prio pesco\u00e7o, e como conseq\u00fc\u00eancia natural fala muito pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong><span style=\"color:#ff0000;\">4\/10<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Daniel Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que \u00e9 isso? TCC? Al\u00e9m de explicar o filme inteiro o texto vem acompanhado de bibliografia. Faltaram s\u00f3 os coment\u00e1rios pessoais do editor&#8230; A \u00fanica coisa que efetivamente traz luz ao texto \u00e9 o meio onde o autor finalmente p\u00e1ra de lenga-lenga e exp\u00f5e o que o filme quer dizer para ele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong><span style=\"color:#ff0000;\">2\/10<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Vin\u00edcius Veloso Garcia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ahhh, n\u00e3o vou me alongar, contou ainda mais detalhadamente as cenas do filme, se tinha alguma d\u00favida como \u00e9 o fim do filme, vc acabou de tirar, muito obrigado! &#8230;al\u00e9m do mais essa 2\u00aa parte do texto nada tem a ver com a primeira, toda floreada, com cara de texto montado em cima de c\u00f3pias de v\u00e1rios outros textos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ent\u00e3o, como disse q n\u00e3o ia me alongar, a sua nota \u00e9: 0\/10 (n\u00e3o suporto c\u00f3pias, por isso n\u00e3o tirou pelo menos 1)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong><span style=\"color:#ff0000;\">0\/10<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Cassius Abreu<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cIsto \u00e9 algo ub\u00edquo na est\u00e9tica kubrickiniana, encontrada em v\u00e1rias de suas obras, principalmente na pel\u00edcula tema deste ensaio.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Que eu saiba o nosso concurso \u00e9 de resenhas, textos cr\u00edticos e leves e n\u00e3o ensaios. Como n\u00e3o sou de tirar pontos- lembrando que todos come\u00e7am do 0 \u2013, vou desconsiderar isso a\u00ed e julgar o texto produzido. Ora, como um ensaio, poderia funcionar, mas n\u00e3o cabe aqui. Os termos t\u00e9cnicos da S\u00e9tima Arte s\u00e3o \u00e0s vezes interessantes e fundamentais para a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de uma obra. O fato, entretanto, \u00e9 que o Jefferson n\u00e3o conseguiu me cativar a ponto de tentar entender suas longas explana\u00e7\u00f5es, baseadas em autores diversos, passando por fotografia, teatro e algo mais. \u00c9 um texto prolixo, porque eu, que j\u00e1 vi o filme mais de 5 vezes, j\u00e1 decorei as falas e elas n\u00e3o me interessam por completo. Se n\u00e3o tivesse visto, nem precisaria, pois o texto conta o filme inteiro \u2013 e, ao mesmo tempo, n\u00e3o traduz um pingo da genialidade kubrickiana. At\u00e9 que no primeiro par\u00e1grafo ap\u00f3s tantas descri\u00e7\u00f5es, parece que a coisa vai, s\u00f3 que morre ali. Novamente as id\u00e9ias s\u00e3o repetitivas. A diferen\u00e7a da perfeita qualidade em portugu\u00eas do Jefferson para o Thiago \u00e9 perdida quando ele, perdoem o trocadilho, perde o leitor com tantas refer\u00eancias. Ou seja, falta conectar melhor \u2013 ou sequer conectar \u2013 tantas teorias \u00e0 obra, de maneira agu\u00e7ada e botando a cara a tapa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong><span style=\"color:#ff0000;\">1\/10<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Total: <span style=\"color:#ff0000;\">7 pontos<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Texto:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Laranja Mec\u00e2nica (Stanley Kubrick, 1971)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\">\n\u201c\u00c9ramos eu, ou seja, Alex, e meus tr\u00eas drugues, ou seja, Pete, Georgie e Dim. Est\u00e1vamos na Leiteria Korova, tentando ressudocar o que far\u00edamos naquela noite. A Korova servia moloko. Moloko com velocete, sintemesque ou drencom, que era o que beb\u00edamos ent\u00e3o. Ele agu\u00e7a os sentidos e deixa voc\u00ea pronto para um pouco da velha ultraviol\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s um belo plano-sequ\u00eancia iniciado com um close-up do rosto do libertino Alex DeLarge e um recuo de c\u00e2mera nos mostrando a citada Leiteria Korova (um lugar bem peculiar, onde cadeiras e mesas apresentam-se em forma de mulheres nuas em um ambiente bastante surreal), ouvimos ao fundo a narra\u00e7\u00e3o acima em voz ouva do jovem Alex que, junto de sua gangue (ou drugues), aprecia um belo copo de leite misturado com alucin\u00f3genos (o dito moloko). O anti-her\u00f3i de \u201cLaranja mec\u00e2nica\u201d lidera esse grupo de jovens devassos que possuem como \u00fanica divers\u00e3o espancar velhos mendigos, estuprar mulheres (ao som de Singin\u2019 in the rain) e provocar qualquer tipo de desordem.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\">\n\u201cUma coisa que nunca suportei era ver um b\u00eabado velho e imundo uivando as imundas can\u00e7\u00f5es de seu pa\u00eds e fazendo \u2018blurp blurp\u2019 enquanto canta como se houvesse uma velha orquestra em suas tripas. Nunca suportei ver ningu\u00e9m assim, de qualquer idade, mas suportava menos ainda algu\u00e9m bem velho&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Alex nos narra a cita\u00e7\u00e3o anterior enquanto ele e seus drugues espancam um velho mendigo nas ruas escuras de uma Londres futurista, mas que se encaixaria perfeitamente na Am\u00e9rica moderna, com suas violentas vielas. Logo ap\u00f3s eles invadem a casa de um escritor, o espancam e estupram sua esposa. Os comandados de Alex come\u00e7am a questionar sua lideran\u00e7a e certa noite, ap\u00f3s eles invadirem uma casa de SPA e DeLarge assassinar sua dona, os delinq\u00fcentes o enganam, fazendo assim que apenas o personagem principal seja preso. O algoz \u00e9 condenado a quatorze anos de pris\u00e3o e voluntariamente (ou obrigatoriamente?!) passa por um novo m\u00e9todo criado pelo governo para refrear os impulsos violentos e sexuais dos criminosos. Esse m\u00e9todo consiste na aplica\u00e7\u00e3o de drogas injet\u00e1veis e em sess\u00f5es de filmes altamente violentos mostrando com veem\u00eancia assassinatos, estupros e at\u00e9 v\u00eddeos nazistas, tudo isto ao som de Ludwig van Beethoven, compositor preferido de Alex, que por mais incr\u00edvel que pare\u00e7a \u00e9 um jovem erudito no tocante \u00e0 arte.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\">\n\u201cE eu videei filmes mesmo. Fui levado, irm\u00e3os, para um cinema diferente de todos os que j\u00e1 videei. Fui enfiado numa camisa-de-for\u00e7a e meu g\u00faliver foi amarrado a um apoio do qual sa\u00edam muitos fios. A\u00ed puseram grampos nos meus olhos para que eu n\u00e3o pudesse fech\u00e1-los, por mais que tentasse. [&#8230;] A\u00ed percebi, em meio a toda dor e n\u00e1usea, qual m\u00fasica estava trovejando dos alto-falantes. Era Ludwig van. A Nona sinfonia. O Quarto movimento.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s ser solto, Alex n\u00e3o \u00e9 aceito de volta em casa por seus pais, nas ruas \u00e9 espancado por mendigos (entre eles o velho que sua gangue havia surrado) e por policiais que, para sua surpresa, eram seus antigos drugues. Ao pedir ajuda em uma casa, descobre ser o dono dela o escritor, que agora encontra-se parapl\u00e9gico e sem sua esposa (essa houvera morrido de desgosto ap\u00f3s o estupro). Quando a ex-v\u00edtima do rapaz o reconhece, o tortura ao som da Nona sinfonia de Beethoven e, por isso, Alex tenta, sem sucesso, o suic\u00eddio pulando de uma janela. O final de \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d talvez seja um dos mais ir\u00f4nicos j\u00e1 retratados na hist\u00f3ria do cinema. Alex em um hospital tem retirado de seu organismo a droga que o controlava. Um ministro do governo pede sua colabora\u00e7\u00e3o para que as autoridades governamentais corrijam o fracasso da \u201ccura\u201d e n\u00e3o percam eleitores. O jovem colabora at\u00e9 demais, a ponto de aceitar suborno e tirar fotos para jornais apertando a m\u00e3o do mesmo ministro. Ap\u00f3s isso, vemos uma imagem surreal: Alex copulando com uma mulher em ritmo selvagem enquanto uma plat\u00e9ia vestida a rigor v\u00ea tudo batendo palmas. Ent\u00e3o ouvimos a \u00faltima narra\u00e7\u00e3o em voz ouva, \u201cEu estava curado mesmo\u201d, e entram os cr\u00e9ditos finais ao som de Singin\u2019 in the rain.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A trama \u00e9 uma cr\u00edtica aos caminhos tomados pela moralidade e discute duas formas distintas de viol\u00eancia: a individual e intr\u00ednseca, amparada na ancestralidade humana, n\u00e3o reprimida pela socializa\u00e7\u00e3o e ainda a viol\u00eancia institucional, sustentada pelas Leis e legitimada pela manuten\u00e7\u00e3o do status quo para controle da coletividade. Para tal o filme \u00e9 dividido em duas partes, sendo a primeira a apresenta\u00e7\u00e3o do nosso anti-her\u00f3i e a segunda contada a partir da hora na qual o personagem principal \u00e9 encarcerado. Na pel\u00edcula ainda podemos ver tamb\u00e9m uma discuss\u00e3o acerca do livre-arb\u00edtrio, do dom\u00ednio e hipocrisia das autoridades e sobre a debilidade das identidades particulares dos indiv\u00edduos, ref\u00e9ns dos padr\u00f5es impostos pela sociedade. O t\u00edtulo original em ingl\u00eas \u201cA Clockwork Orange\u201d j\u00e1 nos leva a duas refer\u00eancias: uma seria a g\u00edria dos Cockneys (grupo de jovens pobres e perigosos da Londres da \u00e9poca que agrediam por puro prazer) e a outra seria uma met\u00e1fora utilizada para designar uma pessoa que age mecanicamente. Isto \u00e9 representado pelo tratamento ao qual Alex \u00e9 submetido, transformando-o em um sujeito sem escolha. Dizia o sacerdote que o acompanhava no c\u00e1rcere: \u201cse o homem n\u00e3o pode escolher, deixa de ser um homem\u201d. O rapaz n\u00e3o d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o alguma ao religioso e acaba passando de algoz da sociedade para v\u00edtima da aliena\u00e7\u00e3o dos interesses pol\u00edticos frente aos direitos individuais, convertendo-se em um exemplo bem sucedido, pelo menos na vis\u00e3o da sociedade, do Estado e da m\u00eddia, de reabilita\u00e7\u00e3o. Vemos ent\u00e3o uma forte cr\u00edtica \u00e0 falta de indeterminismo do homem moderno, devido \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o das massas imposta pela m\u00eddia e pelo poder pol\u00edtico. Faz-se, assim, uma intertextualidade com a obra dos te\u00f3ricos da famosa Escola de Frankfurt (Walter Benjamin, Theodor Adorno, Max Horkheimer etc.), que tentaram explicar a ind\u00fastria cultural segundo a vis\u00e3o cient\u00edfica, filos\u00f3fica e social do marxismo, acusando-a de transformar os cidad\u00e3os alheios a tudo ao seu redor.<br \/>\n\u201cLaranja mec\u00e2nica\u201d \u00e9 composto por elementos tanto do Formalismo quanto do Realismo, sendo que n\u00e3o podemos denomin\u00e1-lo como um ou outro, pois nele vemos claramente caracter\u00edsticas marcantes das duas teorias cinematogr\u00e1ficas mais importantes do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Formalismo estaria amparado em planos-sequ\u00eancias, closes, planos de detalhes, com o objetivo de trazer a aten\u00e7\u00e3o for\u00e7ando a compreens\u00e3o e a identifica\u00e7\u00e3o por parte do espectador perante a trama. A montagem com n\u00e3o t\u00e3o raros cortes e com planos fechados mesclados a planos totalmente abertos, o plano-sequ\u00eancia inicial e os v\u00e1rios outros planos fechados tamb\u00e9m denunciam o formalismo presente na obra. Uma peculiar caracter\u00edstica, que n\u00e3o pode deixar de ser citada, \u00e9 o fato de o diretor Stanley Kubrick haver disposto v\u00e1rios erros de continuidade, como pratos trocados de lugar na mesa e o n\u00edvel do vinho nas garrafas mudando em diversas tomadas, com o intuito de causar total desorienta\u00e7\u00e3o ao espectador, mesmo que inconscientemente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo B\u00e9la Bal\u00e1zs, principal te\u00f3rico formalista, em seu livro The Close-Up and The Face of Man, a express\u00e3o facial \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da subjetividade humana, ao mesmo tempo em que os tra\u00e7os do rosto representados n\u00e3o s\u00e3o governados por normas objetivas, sendo assim o close-up uma forma de tornar objetiva a que \u00e9 a forma mais subjetiva e pessoal das interpola\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A pr\u00f3pria ironia da trama \u00e9 tamb\u00e9m um elemento formalista que leva-nos a uma catarse pessoal sobre o caminho da nossa sociedade. Este elemento \u00e9 visto principalmente na trilha sonora (composta de m\u00fasica cl\u00e1ssica e a famosa Singin\u2019 in the rain, de Gene Kelly) e na linguagem de Alex e seus drugues, mistura de russo, ingl\u00eas e g\u00edrias compondo v\u00e1rios neologismos (tais como \u201cdrugues\u201d, \u201cmoloko\u201d, \u201cvidiar\u201d, \u201centra-e-sai\u201d, \u201cg\u00faliver\u201d e \u201chorroshow\u201d). O cl\u00edmax desse esc\u00e1rnio encontra-se principalmente na narra\u00e7\u00e3o em voz ouva do personagem principal, constru\u00edda de acordo com suas convic\u00e7\u00f5es e com o intuito de levar-nos para dentro de seu mundo e de suas impress\u00f5es pessoais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os elementos realistas estariam no fato de o roteiro retratar uma hist\u00f3ria social moderna, ou seja, as aventuras e desventuras de um jovem delinq\u00fcente (algo bem atual, principalmente se colocado sob o contexto da Am\u00e9rica Latina recente).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Qualquer obra cinematogr\u00e1fica sai do universo real humano se aproximando da fotografia. Parafraseando Andr\u00e9 Bazin, o mais not\u00e1vel representante do Realismo, em seu livro Probl\u00e8mes de la peinture, o conjunto de lentes constituinte do olho fotogr\u00e1fico substitui o olho humano e por isso se denomina \u201cobjetiva\u201d. Diz ele ser a fotografia o suporte de credibilidade perante qualquer outra obra pictorial.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Podemos perceber intensamente essa teoria baziniana presente na fotografia de \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d, composta de elementos coloridos em contraste com a viol\u00eancia obscura do protagonista. A mise en sc\u00e9ne da obra nos leva, tamb\u00e9m, \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o do te\u00f3rico a todo momento. A mesma \u00e9 amparada no mundo dos sonhos compondo seu cen\u00e1rio colorido e, principalmente, os objetos de cena (subjetivamente ligados \u00e0 est\u00e9tica surrealista). Isto \u00e9 algo ub\u00edquo na est\u00e9tica kubrickiniana, encontrada em v\u00e1rias de suas obras, principalmente na pel\u00edcula tema deste ensaio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O fato de a obra ter sido toda gravada em est\u00fadio (est\u00fadios de Pinewood, Inglaterra, mais precisamente) e a utiliza\u00e7\u00e3o de atores profissionais, retira o que seriam as principais caracter\u00edsticas exaltadas pelos te\u00f3ricos realistas, principalmente Bazin.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por hora deixemos as teorias cinematogr\u00e1ficas de lado para entrar no campo das atua\u00e7\u00f5es, analisando-se outras teorias, as teatrais agora, que se aplicam a qualquer obra de arte encenada. Dessas podem se destacar Bertolt Brecht e Constantin Stanislavski. Os dois, assim como os estudiosos da Escola de Frankfurt j\u00e1 citados, tem forte influ\u00eancia do marxismo e da sociologia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O primeiro, em seu livro Estudos sobre teatro, encara o entendimento do homem observando-se as rela\u00e7\u00f5es sociais em que participa sendo seu intuito a necessidade de encarar um \u201cpalco cient\u00edfico\u201d com a capacidade de cessar a mistifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es da sociedade, causando catarse no p\u00fablico a ponto de esclarec\u00ea-lo sobre algo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A experi\u00eancia ap\u00f3s assistirmos \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d \u00e9 exatamente esta, pois, pelo fato de vivermos em uma sociedade onde as Leis s\u00e3o pouco respeitadas, nos identificamos com o assunto tratado na trama e tamb\u00e9m com as v\u00edtimas de Alex e, mais estranhamente poss\u00edvel, com o pr\u00f3prio personagem, j\u00e1 que ele torna-se v\u00edtima da sociedade onde vive.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O ator e te\u00f3rico teatral russo Stanislavski criou um sistema de atua\u00e7\u00e3o dizendo ser cada ator dotado de uma t\u00e9cnica capaz de representar a vida real o mais fielmente poss\u00edvel, o chamado Sistema Stanislavskiniano. O sovi\u00e9tico, em seu livro A prepara\u00e7\u00e3o do ator, dizia ser o ator respons\u00e1vel por viver, chorar e rir em cena e o tempo todo vigiar suas l\u00e1grimas e sorrisos, sendo este equil\u00edbrio a concep\u00e7\u00e3o de sua arte. Malcolm McDowell interpreta Alex DeLarge nos moldes stanislavskinianos, ou seja, nos chama a aten\u00e7\u00e3o para a situa\u00e7\u00e3o do jovem moderno imerso em uma sociedade moralista, sendo seu personagem uma met\u00e1fora subjetiva sobre a juventude cada vez menos preocupada com o mundo ao seu redor e absorvida apenas em sua divers\u00e3o (no caso de Alex, sua divers\u00e3o era sempre \u00e0 custa dos outros).<br \/>\n\u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d teve uma p\u00e9ssima recep\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica inglesa devido a suas cenas de viol\u00eancia expl\u00edcita, algo anormal para o contexto do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970. Stanley Kubrick com sua prepot\u00eancia j\u00e1 conhecida chegou a pedir para proibirem a exibi\u00e7\u00e3o do filme na Inglaterra, mas apenas atribu\u00edram uma alta censura ao mesmo. Isso n\u00e3o foi impedimento \u00e0 juventude da \u00e9poca que obteve c\u00f3pias baratas da pel\u00edcula e passou a reproduzirem-na de maneiras arcaicas. Esses jovens, ao identificarem-se com Alex DeLarge, sofreram influ\u00eancias tais, a ponto de pouco mais a frente criarem o movimento Punk ingl\u00eas, que logo depois acabou chegando \u00e0 m\u00fasica fundindo-se com o Rock and Roll. Claro que o filme teve seu reconhecimento, recebendo tr\u00eas indica\u00e7\u00f5es ao Golden Globe e quatro ao Oscar, al\u00e9m de haver faturado os dois principais pr\u00eamios da Associa\u00e7\u00e3o dos Cr\u00edticos de Cinema de Nova York. Hoje, o filme \u00e9 reconhecido pelos principais cr\u00edticos como um dos maiores cl\u00e1ssicos da hist\u00f3ria do cinema e \u00e9 exaltado e idolatrado por f\u00e3s no mundo inteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8211; ANDREW, J. Dudley. Principais teorias do cinema, As. Editora Jorge Zahar, 1989.<br \/>\n&#8211; BRECHT, Bertolt. Estudos sobre teatro. Editora Nova Fronteira, 2005.<br \/>\n&#8211; STANISLAVSKI, Cosntantin. Prepara\u00e7\u00e3o do ator, A. Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2006.<br \/>\n&#8211; XAVIER, Ismail. Experi\u00eancia do cinema, A. Editora Graal, 1983.<br \/>\n&#8211; Revista Bravo! \u2013 Edi\u00e7\u00e3o especial \u2013 100 filmes essenciais \u2013 Editora Abril, 2007<br \/>\n&#8211; LARANJA Mec\u00e2nica. Dire\u00e7\u00e3o: Stanley Kubrick. Produ\u00e7\u00e3o: Stanley Kubrick. Int\u00e9rpretes: Malcolm McDowell; Patrick Magee; Michael Bates; Warren Clarke; Adrienne Corri; Carl Duering; Paul Farrell; Clive Francis; Michael Glover; James Marcus; Aubrey Morris; Godfrey Quigley. Roteiro: Stanley Kubrick. M\u00fasica: Wendy Carlos. Londres: Warner Brothers. 1 DVD (138 min.), wildescreen, color. Produzido por Warner Home Video. Baseado na novela \u201cA clockwork orange\u201d, de Anthony Burgess.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Avalia\u00e7\u00f5es: Luis Henrique Boaventura Nutro certa avers\u00e3o a artigos acad\u00eamicos por considerar que sempre h\u00e1 formas muito mais sens\u00edveis e eficientes de se falar certas coisas sem precisar apelar a um m\u00f3dulo, um manual. Imagina\u00e7\u00e3o t\u00e1 a\u00ed pra isso, e &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/6%c2%ba-jefferson-domingos\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-770","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/770","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=770"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/770\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=770"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}