King Kong (Ernest B. Schoedsack & Merian C. Cooper, 1933)

A obra inspiradora para o remake de Peter Jackson está bem distante daquela áurea épica e monumental que PJ construiu na sua obra, como fã ardoroso da história, criada em começos da década de 30, que mostra a louca viagem de Carl Denham à procura de nova perspectiva de filmagem. Na verdade, a personagem de Denham aqui assume um papel mais questionador, exigindo do produtor a contratação de um rosto bonito e a presença feminina, já que o público queria um romance na aventura; e pouco tem de obstinação megalômana por cinema, como PJ revestiu o seu personagem (dando tons mais pessoais).

Há muitas distinções possíveis de serem feitas nesta obra original – que também falha na ideologia um tanto quanto eurocêntrica ao mostrar os nativos – negros – atabalhoados, sedentos pelo rosto dourado (mostrando o americano/europeu como Apocalypto o fizera, blargh) e fazendo piadinha com a violência dos rifles dos “exploradores” em relação a eles -, mas o mais importante é que este filme é bem mais seco, objetivo e quiçá até pesado. Tratando King Kong como uma besta, um animal que se perde na paixão por Ann, o filme parece louvar o seu desfecho trágico e em nenhum momento há um pressuposto de correspondência amorosa, talvez até de forma a realçar o papel da personagem feminina, que deveria apenas berrar e clamar por um homem a lhe salvar, que é Jack Driscoll, herói que surge por força do momento. Além disso, destaca-se a ininterruptividade das sequência na ilha, pois tudo toma ação em apenas um dia – eles chegam, Ann é raptada, entregue ao gorilão, já correm atrás dela, acham e levam o bichano -, dando um fôlego bom à trama, apesar de não se aprofundar em qualquer personagem. Aliás, o grande ideal do filme é mesmo o do velho provérbio arábe de que a fera morre por conta da paixão desenfreada pela bela – e talvez isso seja até mais trágico do que um amor mais correspondido (ou não) como na obra de 2005.

Em suma, pode-se observar o King Kong original como obra analisadora – mas não contestadora – da épica hollywoodiana, em que o diretor de cinema, para satisfazer as exigências de público e executivo, corre atrás de um belo rosto e de um monstro, realçando esta observação na fala de Denham ao apresentar KK no palco (ele diz algo similar a “trouxe-o apenas para satisfazer curiosidade da audiência”). Para obter ainda mais efeito, a fera é realmente devastadora, devorando qualquer um que passe por seu caminho e correndo de qualquer forma, a destruir o que se vê ao seu entorno. Isso dito, penso que King Kong tanto acerta ao retratar bem tal panorama, como falha ao, de certa forma, valorizá-lo e justificá-lo, não dando a tal tragicidade a KK como personagem central da obra (fica parecendo que ele, também, é apenas o monstro ideal para este tipo de filme – e comparando este viés aqui com o que PJ toma, o original ainda cai). De todo modo, é uma grande oportunidade de se observar os efeitos especiais em seus primórdios – o filme ganha pontos com as lutas entre KK e bichos, e mesmo comendo o povo, é divertido assistir a tudo isso e danem-se os preceitos – e permitir uma boa análise metalinguística para os mais interessados na contextualização da trama.

3/4

Cassius Abreu

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2 Responses to King Kong (Ernest B. Schoedsack & Merian C. Cooper, 1933)

  1. caiolefou

    Mas você tava querendo demais, mesmo na época era um filme pipocão, que queria impressionar somente o público (penso eu). Esse é mais um filme de terror do que de aventura, eis a diferença entre os dois.

  2. caiolefou

    Mas o romance ali sempre vai existir, mesmo que a força disso de um para o outro seja distinta.