Técnica de um Delator (Jean-Pierre Melville, 1962)

Se esteticamente Técnica de um Delator (Le Doulos, no original francês) se trate do trabalho mais próximo do film noir clássico dentro da filmografia de Jean-Pierre Melville (não apenas pela fotografia p&b, claro), sua estrutura narrativa e sua condução o localizam exatamente como o mais extremo e representativo exercício de estilo dessa visão particular do francês sobre o gênero americano, e é interessante poder assistir ainda em desenvolvimento o olhar de Melville sobre o noir num filme que traz estilo e narrativa, dois componentes primários que se tornariam indissociáveis anos mais tarde, em absoluta distinção.

Apesar de ser sem dúvida um belo filme, Técnica de um Delator está longe dos exuberantes O Samurai, O Círculo Vermelho e o mais extremo Expresso Para Bordeaux (pincelada final no painel da identidade neo-noir composta por Melville), porém, como exploração e evolução de argumento, é o mais arrebatador e bem sucedido, podendo ser colocado tranqüilamente ao lado da obra-prima de 67.

Falei da separação dos dois fundamentos porque, aqui, Melville investe tudo nos inacreditáveis 10/15 minutos finais, tendo todo o desenvolvimento do filme como base e escada para o desfecho que é pura crueldade. Portanto, se Expresso Para Bordeaux pode ser considerado a cereja do bolo, Técnica de um Delator é sem dúvida a primeira peça desse tratado de estudo/homenagem/desconstrução/reconstrução do film noir hollywoodiano.

Melville mantém a identidade visual trazida da cartilha americana como pano de fundo e impõe seu característico “anti-ritmo” e modo todo próprio de deixar que a ação em cena fale por si, mas acima de tudo (e é aí que o diretor encarna um contador de histórias mais diabólico do que nunca), alterna os acontecimentos num jogo entre espectador e personagens que não cabe descrição do quão genial e habilidoso consegue ser.

Um dos mais brilhantes e perversos exercícios de manipulação de todo o cinema. Obra-prima e pedra angular do neo-noir mesmerizante de Jean-Pierre Melville.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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