Bodas de Sangue (Carlos Saura, 1981)

Interpretar Bodas de Sangue como um filme teatral é uma questão bastante simples. Baseado numa peça homônima de Federico García Lorca, sobre um triângulo amoroso que envolve a tradição familiar envolta em tragédias ancestrais, Carlos Saura digere o mundo do teatro e da dança, em quadro. Começa nos camarins, mostrando a transformação dos atores/bailarinos em seus personagens, mostra parte dos ensaios e a construção dramática da encenação que, como bem diz o diretor, “não irá parar, sob nenhuma hipótese”. Tudo se passa em um único salão e os elementos cênicos são escassos.

Por que então a visão de um produto de natureza teatral é tão equivocado? Bodas de Sangue se vale da imagem, acima de tudo, do nascimento da harmonia, por meio da dança, do posicionamento da câmera para uma melhor compreensão da história, com tão poucos elementos e tempo (o filme dura apenas 68 minutos). Em cena, o que interessa, o que tira o fôlego: Saura transita no salão em travellings perfeitos, desvenda um sonho de amor em plongées magníficos, usa slow motion mesmo em live action, falseando o tempo perdido e o ritmo imposto. Faz algumas das cenas mais belas, mais pintadas, mais dolorosas de um momento de observação pura e límpida, neste grandioso filme. Porque Bodas de Sangue pode parecer teatro filmado, mas é cinema até a última movimentação de câmera.

4/4

Thiago Macêdo Correia

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2 Responses to Bodas de Sangue (Carlos Saura, 1981)

  1. hehe ainda acho-o teatro filmado, ainda que contenha tudo isso que muito bem ressaltou, thiago. e se não tivesse lido a peça acho que ficaria um pouco perdido quanto a história, não a achei muito clara.
    mas a cena do duelo é bem foda!

    []s!

  2. ffeldman

    Demorei pra ler, mas isso aí, cara! Em dois parágrafos você disse (quase) tudo. Obra-prima!