Operação Yakuza (Sidney Pollack, 1974)

Sidney Pollack morreu há poucos dias e levou consigo uma imagem não muito positiva no que diz respeito aos seus trabalhos por detrás das câmeras – alguns diriam que era melhor como ator, embora ainda tenha dúvidas quanto a isso. E curiosamente, parece que quem foi atribuindo à sua figura como diretor um status cada vez mais desprezado pelo bom gosto foi o próprio Pollack, que nos últimos anos havia entregado porcarias como A Intérprete e Destinos Cruzados e ainda tinha coragem de continuar fazendo cinema. Mas olhando pro passado dá pra notar que nem sempre as coisas foram assim.

Um bom exemplo desse período de grandes feitos de Pollack (também não vamos exagerar, nem foram tantos assim) é Operação Yakuza, que ao lado de Mais Forte Que a Vingança pode ser considerado o ponto alto de sua extensa filmografia – alguns congratulariam Tootsie, mas sinceramente pouca coisa além daquilo que Billy Wilder havia feito com muito mais requinte em Quanto Mais Quente Melhor pôde ser aproveitada dessa brincadeira com a troca de sexo providencial de um Dustin Hoffman doido pra sair da miséria.

Operação Yakuza faz parte e ao mesmo tempo se desloca do marcante grupo de filmes policiais dos anos 70. Faz parte por que o roteiro de Paul Schrader e Robert Towne – uma dupla que todo o diretor gostaria de ter por trás – constrói um personagem típico tanto do gênero quanto do período em questão (e que encontra parâmetros inclusive em alguns grandes personagens do western), um ex-combatente que ganha a vida como detetive e parte para o Japão a fim de salvar a filha de um amigo das mãos da máfia Yakuza – e que durante a jornada entra em conflito com coisas que deixou para trás e precisa retomar para concluir sua missão.

Desloca-se, porém, por que em nenhum momento apresenta o ritmo de cadência e montagem de filmes como Operação França – pra ficar num exemplo mais popular. Pollack contraria a regra do período e intervém muito pouco na ação, quer dizer, isso quando ela existe. Porque o que realmente interessa nessa desgastante jornada de revelações são o código de honra e lealdade inabalável de um mundo com um pé no anacronismo, representado pela máfia japonesa, e a forma com que os envolvidos lidam com as relações pessoais dentro disso – além das conseqüências que brotam de seus ideais.

E o sustento dado pelas constantes descobertas de Robert Michum sobre o próprio passado consegue até mesmo encobrir algumas pequenas falhas de Pollack na condução do material, em certos momentos perdendo o foco, mas retomando o interesse através do respaldo dado pelo texto sempre denso de Schrader – uma pena que Pollack não acompanha em densidade os principais momentos de conflito dramático do filme. Mas o equívoco é insignificante diante de pequenos detalhes tão bonitos quanto o olhar de Michum na cena mais sincera do filme. São coisas assim que fazem o cinema.

3/4

Daniel Dalpizzolo

4 Comments

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4 Responses to Operação Yakuza (Sidney Pollack, 1974)

  1. franc1968

    Daniel, “A noite dos desesperados”, de 1969, é um grande filme. Jane Fonda, Michael Sarrazin e Gig Young estão muito bem. E a seqüência da morte de Red Buttons é profundamente angustiante. É um dos meus filmes inesquecíveis…

  2. Daniel Dalpizzolo

    Pretendo ver em breve esse também.

  3. franc1968

    Aliás o seu blog é excelente. Sobre a filmografia de Sam Peckinpah, não vi os comentários sobre “Meu ódio será a tua herança” e “A morte não manda recado”…

  4. Daniel Dalpizzolo

    Meu comentário sobre Meu Ódio Será Tua Herança tá guardado no coração – é um dos meus filmes preferidos. Mas tem vários Peckinpahs comentados por aqui.

    E muito obrigado pelos elogios ao nosso blog.