Sexta-feira 13 Parte VI – Jason Vive (Tom McLoughlin, 1986)

 

Os slashes movies, ou “cinema açougue”, numa tradução livre, é um subgênero de terror/horror que surgiu na Itália na década de 60. Diretamente inspirado no suspense Psicose (Psycho, Dir.: Alfred Hitchcock, 1960), esse subgênero acabou consagrando grandes nomes daquele país que até hoje são lembrados (Dario Argento, Mario Bava, entre outros). Não demorou muito para que os americanos se apoderassem dele. Na década de 70, dois títulos chamaram bastante atenção: O Massacre da Serra Elétrica (Texas Chainsaw Massacre, Dir.: Tobe Hopper, 1974) e Halloween – A Noite do Terror (Halloween, Dir.: John Carpenter, 1978). O primeiro era um slasher movie “puro”. Assassino mascarado (Letherface), muito sangue, muito gore, violência explícita e jovens moças correndo e gritando. Já o segundo, é um filme mais artístico e saiu das mãos criativas do diretor cult John Carpenter. Mesmo trazendo os mesmos elementos dos slashers, Carpenter não trouxe tanto sangue e violência, privilegiando mais o suspense. Michael Myers não era simplesmente um assassino mascarado, mas a representação do “bicho-papão”, ou, melhor dizendo, a morte súbita que vinha da escuridão. Com o sucesso desses filmes, não era de se estranhar que vários “clones” saíssem. Nessa primeira leva é que surge Sexta-feira 13 (Friday the 13th, Dir.: Sean S. Cunnigham, 1980). Pequeno filme independente, sem muitas pretensões, feito com o objetivo de dar um sucesso comercial para o diretor Sean S.Cunnigham, que já havia sido produtor de alguns filmes de horror na década de 70. Ao contrário de outros clones da época que simplesmente tentavam copiar ou Massacre da Serra Elétrica ou Halloween, para o seu filme, Sean, conhecedor dos slashers italianos, resolveu ir “beber na fonte” se inspirando diretamente nesses filmes. E no “meio dessa multidão”, Sexta-feira 13 acabou chamando a atenção. Não era artístico como Halloween, mas também não era tão cru como Massacre, e independente da qualidade ou não do filme, fez sucesso. Isso foi só o pontapé inicial para surgir umas das maiores franquias do cinema. Pelo menos em quantidade de filmes, e não necessariamente em qualidade…

As continuações de Sexta-feira 13 não demoraram a aparecer. No ano seguinte, surgiu Sexta-feira 13 Parte II (Friday the 13th Part 2, Dir.: Steve Miner, 1981), e aqui começa o que podemos chamar de “saga de Jason Voorhees”. De uma criança inocente que morreu afogada num lago (o personagem teve uma participação muito breve no 1º filme), Jason passaria a ser o adulto maníaco que assassinava os jovens do acampamento próximo a Crystal Lake. Com isso, Sean S. Cunningham, diretor do filme original, resolveu abandonar o barco, acreditando que a idéia de transformar Jason em vilão era uma grande bobagem (hoje em dia, ele admite que estava completamente errado). Resultado: Mesmo o roteiro da Parte II sabendo construir bem o personagem e sua mitologia, tentando diferenciá-lo de outros serial killers da época (Michael Myers e Letherface), o primeiro filme que trouxe Jason como vilão não rendeu nas bilheterias, e o sucesso comercial só voltaria nas próximas continuações, que desistiram de aprofundar o personagem, e investiram mais na matança desenfreada. A seguinte, Sexta-feira 13 Parte III (Friday the 13th Part III, Dir.: Steve Miner, 1982), fez sucesso basicamente pelos efeitos 3D, e pelo fato de Jason ter começado a usar sua famosa máscara de hóquei (que viraria sua marca registrada). Já a Parte IV, fez sucesso simplesmente por prometer ser o último filme da série. Com o nome de Sexta-feira 13 – Capítulo Final (Friday the 13th – The Final Chapter, Dir.: Joseph Zito, 1984), aqui o famoso assassino mascarado é finalmente morto. Fim? Não mesmo. Com dois sucessos comerciais seguidos nas mangas, os produtores não pensaram duas vezes em continuar com a série. Com isso, veio Sexta-feira 13 Parte V – Um Novo Começo (Friday the 13th – A New Beginning, Dir.: Danny Steinmann, 1985), que pretendia dar um reinício, trazendo um outro assassino misterioso. Mas pelo resultado pífio do filme (tanto em qualidade como em bilheteria), os produtores deram com a cara na parede e a série teve que ser repensada para o próximo filme…

Tudo isso foi um resumo do que tinha acontecido até aqui. Mas chegamos ao início da segunda metade da década de 80, ano de 1986, época em que um outro subgênero do terror já chamava bastante atenção do público. Era o chamado Terrir: Filmes de terror, com toques de humor. Vários outros subgêneros de terror ganharam sua versão terrir na década de 80. Citando alguns exemplos, temos Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London, Dir.: John Landis, 1981) – Filmes de Lobisomem; A Hora do Espanto (Fright Night, Dir.: Tom Holland, 1985) – Filmes de Vampiro; A Casa do Espanto (House, Dir.: Steve Miner, 1986) – Filmes de Casa Mal Assombrada; A Volta dos Mortos Vivos (The Return of the Living Dead, Dir.: Dan O’Bannon, 1985) – Filmes de zumbis. E logo os slashers movies que acabavam de ser firmados no mercado americano, também ganharam sua versão terrir. O curioso é que o slasher movie terrir seria justamente a Parte VI de Sexta-feira 13, que foi o filme que solidificou esse subgênero nesse mercado. Isso acabou sendo uma jogada certeira dos produtores, que aqui resolveram abandonar o tom um pouco mais sisudo dos anteriores, fazendo um filme que ao mesmo tempo em que se respeitam às regras estabelecidas pelos slashes, também não teria medo de rir desse subgênero, nem da série, e muito menos dos seus fãs…

Sim. Os fãs sofreram uma severa crítica nessa 6ª Parte. Para traduzir isso, tem uma frase dita por um dos personagens. Num determinado momento, Martin, o coveiro do cemitério “Paz Eterna”, ao ver o caixão de Jason descoberto, lança a irônica pergunta: “Quem teve a idéia de desenterrar Jason? Esse pessoal tem um modo muito estranho de se entreter.” Nessa pequena fala se critica explicitamente os fãs, já que os produtores se viram obrigados a desenterrar Jason para continuar a série. Eles tiveram que trazê-lo de volta, mesmo depois de tê-lo matado “definitivamente” na Parte IV, justamente pela insistência dos fãs, que decepcionados com a Parte V, ansiavam para que ele retornasse. E não só nessa fala se critica os fãs, mas pelo próprio fato de terem feito um filme bem diferente dos demais. Não somente pelo humor inserido na trama veio essa diferença, mas citando um exemplo direto: Aqui se abandona um pouco o ar de “bicho-papão” que Jason tinha nos filmes anteriores (característica que ele “herdou” de Michael Myers). Jason, antes, sempre se escondia na moita, na escuridão, e dava a cara basicamente na hora de matar alguém, ou no final quando perseguia as mocinhas. O vilão pouco aparecia nos seus filmes. Já aqui não. A todo o momento, o vemos na tela, seja matando alguém, ou só andando pela floresta, ou simplesmente escondido observando as pessoas. Com isso, se vê que se por um lado os produtores atenderam ao pedido dos fãs para se trazer de volta o vilão mascarado, por outro lado resolveram fazer um filme bem diferente do esperado por esses fãs. Isso não deixa de ter sido um tapa na cara de todos…

Sexta-feira 13 Parte VI – Jason Vive começa com Tommy Jarvis e um amigo indo até o cemitério onde Jason está enterrado. Tommy é um capítulo à parte. Ele foi o garoto que matou o vilão no Capítulo Final, e voltou no famigerado Um Novo Começo, crescido, quando foi para uma espécie de manicômio, já que vivia atormentado pela lembrança da matança de Jason. E aqui ele já começa decidido acabar com tudo de vez. Mas tudo já não tinha acabado? Para Tommy, não. Ainda atormentado por essas lembranças, ele vai com um amigo tentar cremar o corpo Jason no cemitério. Só que tudo sai errado, e em vez de acabar com o vilão, acontece justamente o contrário: Jason ressuscita do seu túmulo. Essa é uma boa jogada que o roteiro faz. O mesmo Tommy que antes tinha acabado com tudo, aqui é o responsável por reiniciar a história.  E a título de curiosidade, se Jason não tivesse voltado, o assassino aqui teria sido Tommy Jarvis. Isso era o que estava planejado. O fim da Parte V com Tommy usando a máscara de hóquei, demonstra bem isso. Mas todo esse projeto foi abandonado, para que Jason voltasse. Assim, Tommy Jarvis virou definitivamente o herói/mocinho oficial da série…

Vale a pena abrir uma brecha para comentar essa cena inicial, com Tommy e um amigo indo até o cemitério. Ela é ótima, e com certeza umas das melhores de toda a série. Muito bem produzida, com um personagem perturbado (Tommy), um corpo decomposto (Jason), uma morte (o amigo de Tommy), gore, violência, trovões, chuva, névoa e tudo que um filme do gênero tem direito. Para quem não for ver o filme todo, recomendo que veja pelo menos essa cena inicial antes dos créditos de abertura. É uma grande cena, e nela já vemos duas referências, das diversas que o filme faz. A primeira é Frankestein. Jason volta à vida do mesmo jeito que o monstro criado por Mary Sheilley: Tal qual Frankestein que ganha vida depois que raios o atingem, Jason volta de sua “hibernação”, quando num ataque de raiva, Tommy crava uma lança de ferro no peito do assassino morto, e logo depois um raio atinge essa lança. A segunda referência, por incrível que pareça, é James Bond (???)! Logo depois da fuga de Tommy do cemitério, Jason coloca sua máscara de hóquei e faz o mesmo gesto que o famoso agente britânico. Referência meio estranha na primeira olhada, mas isso nada mais é do que um aviso dos produtores que assumem que assim como acontece com 007, o assassino Jason Voorhees também sempre voltaria para novos filmes. Ou seja, se a Parte IV dava um final a tudo, aqui já fica explícito que a série não teria fim mesmo. Por isso estou usando esse três pontos no fim de cada parágrafo. Eles são mais que necessários para falar de qualquer filme de uma série onde não se sabe quando vai acabar e se realmente vai acabar algum dia…

Entrando ainda mais no campo das referências que o filme faz, posso citar quando o delegado Michael Garris fala que vai ligar para a “delegacia em Carpenter”, referência explícita a John Carpenter, diretor de Halloween – A Noite do Terror; ou quando vemos que existe aqui uma “Cunnigham Road”, ou Estrada Cunnigham, referência ao nome de Sean S Cunnigham diretor do primeiro Sexta-feira 13. Temos aqui então uma Cidade Carpenter e uma Estrada Cunningham, montando um paralelo entre os dois filmes/séries. E ainda tem a da garota que tem pesadelos e se chama Nancy, numa referência a adolescente Nancy Thompson, personagem principal do filme A Hora do Pesadelo (A Nightmare On Elm Street, Dir.: Wes Craven, 1984), outro clássico do gênero, lançado na mesma época. E não posso deixar de citar outro momento quando o Tommy informando a Megan Garris, filha do delegado, que está perto de uma loja chamada Karloff’s General. Referência a Boris Karloff, ator que imortalizou o Frankestein no cinema. Franskestein, de novo sendo citado aqui…

E insistindo ainda mais no campo das referências, vale dizer que para aqueles que, como eu, adoram o filme original, essa Parte VI presta várias homenagens a ele quando insere diversos elementos dele na trama. Além da “Estrada Cunnigham”, já citada, de novo temos um acampamento infantil. Todas as demais continuações tinham abandonado isso, mas aqui isso volta. Só que ao contrário do que ocorreu na Parte I, aqui as crianças realmente aparecem, já que tudo acontece no mesmo dia que elas chegam ao acampamento Forrest Green (o novo nome do acampamento antes chamado de Crystal Lake). Também é reproduzida aqui a famosa cena da aparição de Jason na Parte I, quando Tommy pega uma canoa e vai para o meio do lago. Sem falar da mesma placa vista no 1ª filme, “Camp Crystal Lake”, que aparece abandonada no fundo do lago. Mas o principal, seria citar o dia em que tudo acontece. Essa Parte VI realmente acontece numa sexta-feira 13. Desde a Parte II não se tem idéia de que dia acontecem as histórias de cada filme, mas aqui decidiram voltar com a famosa data do título. São detalhes que podem passar despercebidos para os demais, mas para quem é fã, faz toda a diferença…

Voltando a história do filme (sim, Sexta-feira 13 Parte VI tem história!) ao contrário dos filmes anteriores onde se via basicamente uma matança desenfreada de adolescentes desavisados, aqui a história se divide em duas partes. Além da matança, também temos Tommy Jarvis tentando provar para todos, principalmente o delegado da cidade, que Jason está vivo. Mas ninguém acredita ou leva muito a sério o que ele diz. Nisso é reforçada uma coisa vista desde os primeiros filmes da série: A descrença das autoridades locais e da população em geral em relação à existência de Jason. De forma mais explícita, podemos ver que as matanças cometidas por Jason são em grande parte culpa das autoridades locais (leia-se polícia) que insiste em não acreditar que o vilão esteja vivo, deixando-o completamente livre para fazer o que quiser. Lembrando dessa situação nos outros filmes da série: Na Parte II, a polícia também não acreditava que ele estivesse vivo, e trata a existência dele como uma lenda; nas Partes III e IV, ela simplesmente não dá as caras; e na Parte V a polícia é totalmente incompetente já que mesmo investigando, não consegue evitar as mortes na cidade. Aqui não é diferente e em vez de conferir se o que Tommy afirma, procede, o delegado prefere tratá-lo como um lunático que precisa de tratamento. E a situação piora quando os corpos começam a aparecer, e o delegado culpa Tommy pela chacina. Todos os serial killers gostariam de morar num lugar assim…

Já na parte em que envolve Jason e sua chacina, posso afirmar que num slasher movie, pelo bem ou pelo mal, as cenas mortes dos personagens são essenciais. Filmes desse gênero não sobrevivem sem elas (se lembram do Martin, o coveiro falando Esse pessoal tem um jeito estranho de se entreter? Pois é disso que ele estava falando também) e a série Sexta-feira 13 sempre primou nesse campo, mesmo sofrendo de censura em praticamente todos os filmes da série feitos por um estúdio de grande porte. Aqui não foi diferente. A Parte VI é violenta, mas bem menos do que seria inicialmente, já que o estúdio não permitiu que muita coisa fosse para edição final. Além, é claro, do fato do filme adotar um tom mais leve, então se algumas mortes são violentas, algumas outras acabaram tendo uma cara de desenho animado. O melhor exemplo é morte do delegado Michael Garris, que é dobrado ao meio, e também a morte de Nick, namorada de um dos monitores do acampamento, que tem o rosto pressionado contra uma fina parede de metal, e a forma do rosto dela aparece do outro lado da parede. Coisas de Looney Tones e afins, mas que não deixam de ser cruéis…

O resultado de tudo isso: Alguns fãs da série viram a cara para essa Parte VI por causa do humor (ou seria porque o filme tira sarro deles? Vá saber…) e preferem as Partes I, II, III ou qualquer outra que se leva mais a sério. Mas para muitos outros é o melhor filme da saga. Colocando na primeira pessoa: Digo que esse é a melhor continuação de Sexta-feira 13 (ainda fico com o original). Mesmo achando que a série deva mesmo se levar um pouco a sério (independente dos absurdos nas tramas de seus filmes), mas os terrir da década de 80 se destacavam já que mesmo usando de humor nas suas tramas nunca deixam de ser na essência filmes de terror, e Sexta-feira 13 Parte VI cai nessa classificação. Além, de ele ser um filme do Jason mesmo (o nome dele no título não é por acaso), com todas suas características, tanto positivas como negativas. O vilão acabou se tornou um dos grandes nomes do gênero terror/horror. Talvez tenha vencido pela persistência já que várias continuações surgiram, sempre tendo ele como vilão principal (com exceção da horrenda Parte V). E esse Sexta-feira 13 Parte VI – Jason Vive é, junto com Sexta-feira 13 Parte II e Freddy vs Jason, o filme que melhor sabe explorar o personagem e a mitologia em volta dele. E vamos terminar com os três pontos! Afinal, outros filmes da série foram lançados depois desse e ainda estão sendo lançados…

3/4

Jailton Rocha

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One Response to Sexta-feira 13 Parte VI – Jason Vive (Tom McLoughlin, 1986)

  1. eu acho que não e assim que vai ser as coizas tenque pesquizer mais tenque saber mesmo se ele foi embora talvez ele possa voltar isso não apenas uma cazo que ele posso eu so dou um apelo o brazil vai ser o unico pais que vai ter isso e muito mais vou matar um por um vou acabar com todos que acabarao com meus amigos vou desruir todos que estiveram na memoria de jason hahahahaha