No Silêncio da Noite (Nicholas Ray, 1950)

Todo noir, ainda que revestido generosamente de um charme e de um bom humor como caminhos quase sempre terminados em peças genuínas de uma diversão e de um entretenimento (e que todas fossem assim) que simplesmente não se encontra mais, resguarda latente um sopro melancólico de pessimismo impregnado sob cada sobretudo, cada cigarrilha e rua escura, nas suas atmosferas construídas com a densa matéria prima da solidão. E inclusive acredito que seja exatamente esta a essência, o diferencial decisivo que não se mostra, mas que está sempre presente, determinante no fascínio que os noir sempre vão exercer.

Daí que essa força sempre velada vem a primeiro plano de modo devastador em No Silêncio da Noite, sem dúvida uma das mais tristes e amargas obras-primas que o cinema já produziu. Da instabilidade de Dixon Steele (um dos personagens mais fascinantes já construídos, e acima de tudo, um Bogart por excelência) à insegurança crônica de Laurel, tudo no filme é uma manifestação poderosa do pessimismo. Nada é mais cruel do que nos fazer acreditar por pouco tempo que seja o amor a pedra angular da felicidade para só depois, derrubando-nos como poucos filmes já ousaram fazer, torná-lo o fundamento da tristeza e da solidão.

E Humphrey Bogart é deus, carregando num olhar o sentimento dilacerado que incorpora o filme inteiro. A encenação do crime, a briga depois da batida de carro e ele saindo de cena, no final, são dignas de emoldurações quadro a quadro para que os ateus se convençam. Além disso, o fato de ele viver o crime com tanto entusiasmo e de se afundar no trabalho a ponte de se tornar incomunicável só revela o quanto amputada era sua vida, sendo obrigado a enxertar pedaços da sua ficção para torná-la suportável. Como extremo, daí, a energia contagiante da menina no início do filme. Não por acaso, portanto, que a mais viva entre todos os personagens, morra com 15 minutos de filme. Cruel, nocivo, cinema feito com pura maldade.

“Nasci quando me beijou, morri quando me deixou”.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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